Uso indiscriminado de medicamentos para TDAH pode gerar riscos à saúde
Especialistas alertam para riscos cardíacos, psiquiátricos e cognitivos ligados ao uso de venvanse sem indicação médica
atualizado
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O uso de medicamentos para aumentar a produtividade, melhorar o foco ou até acelerar o emagrecimento virou uma prática cada vez mais comum entre jovens e adultos. Um dos remédios mais procurados é o venvanse, indicado para tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), que passou a ser utilizado sem acompanhamento médico por pessoas que buscam alta performance nos estudos e no trabalho.
O problema é que o uso inadequado do estimulante do sistema nervoso central pode trazer sérias consequências para a saúde física e mental. Especialistas alertam que, apesar da sensação imediata de disposição e concentração, o medicamento pode provocar dependência, alterações psiquiátricas e até piora do desempenho cognitivo em pessoas que não têm indicação clínica para o tratamento.
Uso sem indicação pode aumentar riscos psiquiátricos
Segundo a psiquiatra Renata Verna, do Hospital Santa Lúcia Sul, em Brasília, o uso inadequado do venvanse pode desencadear uma série de complicações físicas e emocionais.
“O medicamento pode causar aumento da pressão arterial, taquicardia, insônia, ansiedade intensa, irritabilidade e alterações de humor. Em doses elevadas ou sem indicação certa, também pode desencadear paranoia e até episódios psicóticos em pessoas predispostas”, explica.
A médica alerta ainda para o risco de dependência psicológica, principalmente quando o remédio passa a ser associado à produtividade ou ao emagrecimento. Entre os sinais de abuso estão a necessidade de aumentar a dose para obter o mesmo efeito, uso fora do horário prescrito e a sensação de incapacidade de funcionar sem o medicamento.
“Muitas pessoas utilizam o venvanse buscando melhora de produtividade, concentração ou perda de peso, sem investigar as causas reais do cansaço ou da desatenção. Isso pode atrasar diagnósticos importantes e aumentar o sofrimento psíquico”, afirma Renata.
Sensação de desempenho pode ser ilusória
O neurologista Alexandre Bossoni, do Hospital Santa Paula, em São Paulo, explica que o medicamento age aumentando substâncias como dopamina e noradrenalina no cérebro, o que provoca sensação de energia, foco e bem-estar.
Segundo ele, em pacientes com TDAH o efeito ajuda a normalizar áreas cerebrais que funcionam abaixo do esperado. Já em pessoas sem o transtorno, o estímulo pode levar o cérebro a operar acima do adequado.
“O indivíduo fica mais acordado, mais disposto e com sensação de que está produzindo melhor. Mas estudos mostram que pessoas sem TDAH cometem mais erros impulsivos, falhas de interpretação e têm dificuldade de perceber esses próprios erros”, destaca.
Bossoni acrescenta que o medicamento pode aumentar o risco de ansiedade, hipertensão arterial, taquicardia, irritabilidade e até crises convulsivas em pessoas predispostas. O especialista afirma que misturar o remédio com álcool, energéticos ou outros estimulantes potencializa os riscos cardiovasculares e neuropsiquiátricos.
Busca por alta performance preocupa especialistas
O uso de estimulantes como ferramenta de “doping cognitivo”, prática de usar medicamentos ou suplementos por pessoas saudáveis para tentar aumentar a concentração, a memória ou a energia, preocupa médicos por causa da banalização do consumo sem prescrição. Redes sociais e relatos sobre aumento de produtividade ajudaram a popularizar o medicamento entre estudantes, profissionais e pessoas que buscam emagrecimento rápido.
Apesar da promessa de melhora no rendimento, especialistas alertam que a privação de sono, o desgaste mental e a dependência podem trazer consequências graves a longo prazo. Além disso, o uso contínuo sem acompanhamento médico pode mascarar transtornos psiquiátricos já existentes, como ansiedade e transtorno bipolar.
Os médicos reforçam que o venvanse deve ser utilizado apenas com indicação médica, acompanhamento regular e avaliação individualizada dos riscos e benefícios.