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Saúde

“Tenho vida novamente”, diz homem com depressão após 15 tipos de tratamento

Ivo Rockenbach passou mais de dez anos com melhoras passageiras e recuperou o prazer de conviver com familiares e hobbies antigos

24/10/2026 02:00
Arquivo pessoal
Foto colorida de casal vestindo blusas vermelhas, em ambiente aberto, sorrindo para a foto - Metrópoles.

Durante mais de uma década, Ivo Rockenbach, 58 anos, passou por cerca de 15 tratamentos para a depressão, sem conseguir uma melhora duradoura. A doença prejudicava o trabalho, afastava o convívio social e tornava decisões cotidianas, como escolher uma roupa, difíceis. Em 2024, o diagnóstico de depressão resistente ao tratamento levou a uma mudança na abordagem e ao início da recuperação.

Hoje aposentado, Ivo voltou a conversar, participar de encontros e se dedicar à restauração de uma motocicleta antiga. O projeto estava parado desde 2017 e chegou a ser considerado para venda, porque ele não conseguia continuar o trabalho. “Hoje posso dizer com convicção: temos novamente uma vida!”, afirma.

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Os primeiros sinais da depressão eram confundidos com timidez

Desde a infância, Ivo tinha dificuldade para se relacionar e praticamente não estabelecia amizades. Seus pais chegaram a procurar acompanhamento psicológico, mas não houve um diagnóstico conclusivo naquele período.

“Sempre achei que meu problema era apenas timidez. Meus pais chegaram a me levar a psicólogos, mas não houve um diagnóstico e a gente entendeu que era parte da minha personalidade”, conta.

Ao entrar na vida profissional, imaginou que as dificuldades de interação ficariam para trás, mas o isolamento continuou. Entre 2009 e 2010, a morte da mãe intensificou a tristeza e o desânimo, levando-o a buscar ajuda.

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“Com a passagem dela, percebi que a tristeza e o desânimo ganharam uma proporção maior, e que eu não conseguia mais lidar com estes sentimentos sozinho”, relata Ivo.

A depressão também afetou sua capacidade de aprender e realizar tarefas. Embora continuasse trabalhando, ele conseguia executar principalmente atividades básicas, com dificuldade para interpretar textos, absorver informações e tomar decisões.

Segundo o Ministério da Saúde, a doença pode provocar falta de energia, perda de interesse, alterações no sono, dificuldade de concentração e lentificação do pensamento, além da tristeza.

Uma sequência de melhoras passageiras

Nos anos seguintes, Ivo experimentou diferentes medicamentos e combinações de tratamentos. Em alguns momentos, recuperava a disposição e a vontade de retomar a rotina, mas os sintomas voltavam. “Nestes momentos, o sentimento era de desespero e fracasso, e de que jamais superaria este problema”, afirma.

Em 2024, a médica Yasmin de Andrade identificou a depressão resistente ao tratamento e prescreveu escetamina intranasal. Karine Furlanetto, especialista em psicoterapia que atua em Santa Catarina, ficou responsável pelo acompanhamento das aplicações.

“A condição é caracterizada pela falta de resposta satisfatória a pelo menos dois tratamentos com antidepressivos de classes diferentes, utilizados em doses e por períodos adequados, durante o mesmo episódio depressivo”, explica Karine.

Antes de confirmar o diagnóstico, é necessário verificar se os medicamentos foram utilizados corretamente e investigar outras condições que possam contribuir para a persistência dos sintomas.

No caso de Ivo, diferentes antidepressivos e estratégias de combinação haviam sido empregados sem que ele alcançasse a remissão, quando os sintomas ficam mínimos ou ausentes.


Quando o tratamento precisa ser reavaliado

  • Dificuldades de concentração e memória: quando comprometem tarefas, decisões e aprendizado.
  • Cansaço e perda de prazer: quando a falta de energia e de interesse limita as atividades.
  • Isolamento e dificuldades no trabalho: quando os prejuízos permanecem durante o tratamento.
  • Alterações no sono e no humor: quando continuam afetando o bem-estar.
  • Desesperança ou pensamentos de morte: situações que exigem reavaliação imediata.

A primeira aplicação virou um marco

Ivo recebeu a primeira aplicação em 10 de outubro de 2024, Dia Mundial da Saúde Mental. Segundo seu relato, algumas horas depois começou a perceber sensações de bem-estar que não sentia havia anos.

Naquela noite, conseguiu acompanhar a esposa a uma festa de aniversário, algo que anteriormente evitaria por causa do isolamento.

A experiência fez com que passasse a considerar a data seu “segundo aniversário”.  “Naquele momento percebi que o novo tratamento poderia me devolver à vida”, diz.

De acordo com a especialista, a escetamina atua sobre o sistema do glutamato, substância envolvida na comunicação entre as células do cérebro, favorecendo processos relacionados à formação e à reorganização das conexões entre elas.

“O tratamento intranasal é associado a um antidepressivo oral e realizado em ambiente clínico ou hospitalar, sob supervisão médica” esclarece. A aplicação exige monitoramento porque pode provocar elevação temporária da pressão arterial, sedação, tontura, náuseas e alterações na percepção.

O acompanhamento deve avaliar tanto a redução dos sintomas quanto a recuperação da capacidade de conviver, pensar e realizar atividades cotidianas. Segundo a psiquiatra, sintomas que continuam prejudicando a rotina devem ser comunicados ao profissional responsável.

A recuperação aparece na rotina

Aposentado há cerca de um ano, Ivo tem dedicado parte do tempo à motocicleta antiga. O projeto foi retomado há aproximadamente três meses, depois de várias tentativas frustradas durante os períodos mais graves da doença.

Além do hobby, recuperou o interesse pelo convívio social e a disposição para atividades complexas. Para ele, voltar à garagem e continuar o trabalho interrompido significa uma conquista após anos de limitações. “A retomada deste projeto representa uma óbvia vitória pessoal”, afirma.”