6 sintomas de depressão podem antecipar risco de demência, diz estudo
Pesquisa acompanhou adultos do Reino Unido por duas décadas e aponta sinais específicos na meia-idade ligados à doença no futuro
atualizado
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Sintomas de depressão na meia-idade podem oferecer pistas importantes sobre o risco de desenvolver demência anos depois. É o que indica um novo estudo publicado na revista The Lancet Psychiatry na última segunda-feira (15/12). Foram identificados seis sinais específicos associados a uma probabilidade maior da doença neurodegenerativa no futuro.
A pesquisa reforça uma relação já conhecida entre depressão e demência, mas avança ao mostrar que nem todos os sintomas depressivos têm o mesmo peso.
“Nossos resultados mostram que o risco de demência está ligado a um conjunto específico de sintomas depressivos, e não à depressão como um todo. Essa abordagem baseada nos sintomas nos dá uma visão muito mais clara de quem pode ser mais vulnerável décadas antes do desenvolvimento da demência”, afirma o psicólogo epidemiológico Philipp Frank, em comunicado.
Como o estudo foi feito
A análise foi conduzida por uma equipe do University College London, no Reino Unido, e utilizou dados de 5.811 pessoas que participaram de um estudo longitudinal iniciado no fim da década de 1990. Na época da primeira avaliação, entre 1997 e 1999, os voluntários tinham de 45 a 69 anos e não apresentavam diagnóstico de demência.
Os pesquisadores coletaram informações detalhadas sobre a saúde mental dos participantes e, ao longo de cerca de duas décadas, acompanharam sua evolução clínica. Os diagnósticos de demência foram identificados por meio de prontuários médicos e registros oficiais de saúde até o ano de 2023.
Durante o período de acompanhamento, 10,1% dos participantes desenvolveram algum tipo de demência. A análise mostrou que pessoas que relataram cinco ou mais sintomas de depressão na meia-idade apresentaram um risco 27% maior de receber o diagnóstico de demência no futuro.
Sintomas de depressão podem antecipar risco de demência
- Apesar do aumento geral do risco entre aqueles com mais sintomas depressivos, os pesquisadores observaram que esse efeito foi impulsionado por apenas seis sinais específicos, entre os 30 avaliados no estudo.
- São eles perda de confiança, dificuldade em lidar com problemas, falta de afeto pelos outros, nervosismo constante, dificuldade de concentração e insatisfação com a execução das tarefas.
- Entre esses fatores, a perda de autoconfiança e a sensação de não conseguir enfrentar problemas cotidianos tiveram o impacto mais expressivo. Cada um deles esteve associado a um aumento de cerca de 50% no risco de demência ao longo do tempo.
- Por outro lado, sintomas frequentemente relacionados à depressão, como alterações no sono e ideação suicida, não apresentaram correlação significativa com o diagnóstico de demência no acompanhamento de longo prazo.
Os autores ressaltam que o estudo não permite afirmar que esses sintomas causam demência. Trata-se de uma pesquisa observacional, que identifica associações estatísticas. Ainda assim, os achados sugerem que certos padrões emocionais e cognitivos podem funcionar como sinais precoces de alterações na saúde cerebral.
“Os sintomas comuns que muitas pessoas experimentam na meia-idade parecem conter informações importantes sobre a saúde cerebral a longo prazo. Prestar atenção a esses padrões pode abrir novas oportunidades para a prevenção precoce”, diz Frank.
A pesquisa também contribui para uma compreensão mais detalhada da depressão, que não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas. Os cientistas destacam que os sintomas podem variar bastante e, muitas vezes, se sobrepor aos da ansiedade, o que torna o diagnóstico e o acompanhamento mais complexos.
Limitações e próximos passos
Os próprios autores reconhecem limitações importantes. O estudo foi realizado apenas no Reino Unido e incluiu, majoritariamente, funcionários públicos, um grupo considerado mais saudável do que a média da população. Por isso, a incidência de demência observada foi menor do que a registrada no conjunto da população britânica.
Ainda assim, os pesquisadores avaliam que os dados oferecem um ponto de partida importante, sobretudo em um cenário de envelhecimento acelerado da população mundial e aumento esperado dos casos de demência nas próximas décadas.
“A depressão não tem um formato único. Os sintomas variam muito e frequentemente se sobrepõem aos da ansiedade. Descobrimos que esses padrões sutis podem revelar quem tem maior risco de desenvolver distúrbios neurológicos. Isso nos aproxima de tratamentos de saúde mental mais personalizados e eficazes”, afirma a epidemiologista Mika Kivimäki.
















