Tecnologia ajuda atendimento do SUS a regiões fora de centros urbanos
Tecnologias como IA e telessaúde têm ajudado o SUS em atendimentos a comunidades que vivem afastadas dos centros urbanos

Para muitos brasileiros que vivem em regiões afastadas dos grandes centros urbanos, conseguir uma consulta com um médico especialista costuma ser uma jornada longa e desgastante. Dependendo da localidade, o atendimento pode exigir horas — ou até dias — de deslocamento, além de gastos com transporte, hospedagem e alimentação. Nos últimos anos, porém, a expansão da conectividade digital começou a mudar esse cenário, inclusive no Sistema Único de Saúde (SUS).
Com a ampliação do acesso à internet banda larga e das redes móveis 4G e 5G, o atendimento remoto passou a encurtar distâncias que historicamente separavam pacientes dos serviços especializados de saúde. O que antes dependia de viagens longas e complexas agora pode ser resolvido por meio de uma consulta realizada por vídeo, muitas vezes a partir da própria unidade de saúde do município ou até mesmo da casa do paciente, pelo celular.
A estratégia vai além da consulta tradicional. “Especialistas passam a atuar em conjunto com os profissionais que já acompanham os pacientes nos territórios. Dessa forma, o atendimento incorpora tanto a expertise técnica do especialista quanto o conhecimento que o médico local tem sobre a realidade social, econômica e sanitária daquela comunidade”, relata o cardiologista Carlos Henrique Pedrotti, gerente médico de Telemedicina do Einstein Hospital Israelita. “O resultado é uma assistência mais adaptada às necessidades de cada região e menos dependente de encaminhamentos para centros de referência.”
Com mais de 550 mil atendimentos realizados, o projeto TeleAMES, iniciado em 2021 pelo Einstein no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), conecta especialistas a pacientes em áreas remotas das regiões Norte e Centro-Oeste. “Ao atuar na fronteira da inovação, o Einstein e outras organizações participantes do Proadi-SUS conseguem criar soluções, aperfeiçoar processos e avaliar resultados antes que essas iniciativas sejam ampliadas para a rede pública”, observa Pedrotti.
Embora a telemedicina já estivesse em expansão, a pandemia de Covid-19 acelerou esse movimento de popularização ao tornar o atendimento remoto uma necessidade em meio às restrições sanitárias. Posteriormente, a regulamentação definitiva da modalidade, prevista na Lei nº 14.510/2022, trouxe maior segurança jurídica para profissionais, pacientes e gestores, abrindo caminho para a consolidação da assistência híbrida.
No início, as consultas remotas focavam principalmente no pronto-atendimento. “Agora, ela está cada vez mais presente em atividades de atenção secundária, como telemonitoramento de enfermagem, atenção primária, acompanhamento ambulatorial, retorno de consultas e discussão de resultados de exames”, destaca Carlos Pedrotti. Com essa ampliação, mudou também o nome: entende-se como “telessaúde” a prestação de serviços de saúde por profissionais de diferentes áreas, não apenas médicos. Isso inclui, por exemplo, telepsicologia, telereabilitação, telefonoaudiologia, telenfermagem, entre outros.
Experiência de telerreabilitação
Uma experiência prática de telessaúde foi descrita em estudo publicado em junho na revista JAMA. A ideia era investigar se um programa integrado de telereabilitação poderia melhorar a qualidade de vida de adultos submetidos à ventilação mecânica. Conduzido pelo Einstein e pelo Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, por meio do Proadi-SUS, o ensaio clínico randomizado avaliou 2 mil pacientes com insuficiência respiratória aguda em hospitais públicos que necessitaram de ventilação invasiva.
A estratégia começou ainda na unidade de terapia intensiva (UTI). Cada participante recebeu um plano individualizado de reabilitação elaborado por equipe multiprofissional especializada, divididos entre a cidade de São Paulo e a capital gaúcha. Esse acompanhamento continuava na enfermaria e seguia após a alta hospitalar, por meio de consultas e sessões de reabilitação remotas realizadas por profissionais de saúde. Os pacientes foram acompanhados por até oito semanas após deixarem o hospital. Para garantir a participação de todos, a equipe forneceu smartphones a quem não possuía dispositivos compatíveis, bem como acesso à internet. Os resultados mostram que houve reduções no número de sequelas físicas e na taxa de mortalidade, melhora no bem-estar geral e diminuição do tempo total de internação hospitalar e de ventilação mecânica.
Mas os autores destacam que é possível que nem todas as UTIs se beneficiem da mesma forma. Uma unidade que já conta com intensivistas experientes, certificados e atualizados na literatura científica pode ter um ganho menor com a presença de um especialista remoto. De forma similar, aquelas com dificuldades estruturais, com escassez de insumos e sobrecarga profissional, também podem não ter ganhos significativos. “As UTIs brasileiras são muito heterogêneas e, entre esses dois extremos, existe um amplo espectro de UTIs que podem se beneficiar da estratégia híbrida em diferentes graus”, analisa Adriano José Pereira, coordenador médico de Tele-UTI no Einstein e autor sênior do artigo.
Agora, a equipe analisa a viabilidade econômica do programa. O objetivo é calcular quanto custa implementar a estratégia e comparar esse investimento com a diminuição dos gastos hospitalares e os benefícios gerados. A expectativa é de que a intervenção apresente alta relação de custo-benefício, uma vez que utiliza recursos relativamente acessíveis e demonstrou impacto significativo na redução do tempo de internação e uso de recursos na fase hospitalar, ao mesmo tempo em que, reduzindo a mortalidade, aumenta a chance de permitir que indivíduos retomem sua capacidade produtiva.
“O modelo que propusemos foi pensado justamente para enfrentar esse desafio. Além de ser efetivo, foi concebido para ser escalável, enxuto e aplicável em diferentes contextos”, destaca Pereira. “O Brasil possui instituições, pesquisadores e profissionais capacitados para desenvolver soluções para seus próprios desafios. O importante é que essas decisões sejam guiadas por evidências concretas sobre aquilo que realmente funciona.”


