Setembro Amarelo: pessoas LGBTQIA+ têm 6 vezes mais chance de suicídio

De acordo com a revista científica americana Pediatrics, quando convivem em ambientes hostis à sua sexualidade o risco de suicídio é de 20%

atualizado 10/09/2021 11:23

MATT POPOVICH/REPRODUÇÃO

A luta é urgente. Os efeitos da busca incansável pela inclusão e pelo fim do preconceito podem resultar em traumas profundos e fazem com que o público LGBTQIA+ seja mais suscetível ao suicídio. Dados da revista científica americana Pediatrics revelam que 62,5% deles já pensaram em suicídio e têm seis vezes mais chance de tirar a própria vida em relação aos heterossexuais.

O estudo também mostra que eles correm risco 20% maior de suicídio quando convivem em ambientes hostis à sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Para o antropólogo e fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), Luiz Mott, a prática suicida de pessoas LGBTQIA+ é sempre decorrente do preconceito.

“Eu considero que todo LGBT que se mata tem sua orientação sexual ou identidade de gênero como um fator se não determinante exclusivo para a prática. Porque a nossa sociedade é extremamente intolerante, homofóbica e faz com que esse grupo se sinta sempre olhado, perseguido e discriminado”, afirma Mott.

Vítimas

O vendedor Yago Rocha, 26 anos, conta que o preconceito em relação à sua sexualidade começou dentro de casa, e que os episódios carregados de violência verbal e emocional foram determinantes nas sete vezes que tentou tirar sua própria vida.

SETEMBRO AMARELO: SAÚDE MENTAL LGBT
Yago Rocha

“Eu e meu pai nunca tivemos uma boa relação. Quando eu contei para ele que eu era gay, ele me ofendeu, falou que não era mais o meu pai, que eu era uma aberração para a família e me deserdou de todos os bens”, lamenta. 

De acordo com o relatório Observatório das Mortes Violentas De LGBTI+1 no Brasil, em 202o, dos 237 LGBTQIA+ mortos, 13 foram decorrentes de suicídio. Como nem todos os casos chegam a serem registrados e monitorados, a falta de dados oficiais dificulta ajudar essa população.

A orientação sexual ou identidade de gênero também pode ser motivo de bullying na escola, gerar conflitos em famílias muito conservadoras ou religiosas, além de ser um empecilho na hora de fazer amizades ou conseguir um emprego.

Noah Louise, de 19 anos, é transexual e viveu um filme de terror durante sua trajetória escolar. Ela identificou na época um despreparo da instituição educacional na hora de protegê-la. De acordo com ela, o colégio alegava ser culpa dela os ataques que recebia.

“Acontecia bastante de eu chegar em casa agredida, porque as pessoas não me respeitavam. Partiam para agressão, me empurravam no meio do corredor, desenhavam gestos obscenos do meu caderno sem minha permissão e jogavam minhas coisas no lixo”, conta.

SETEMBRO AMARELO: SAÚDE MENTAL LGBT
Noah Louise, bi e transexual assumida desde os 14 anos

A estudante de direito chegou a recorrer à automutilação e tentativas de suicídio. “Eu não queria mais sair de casa porque eu achava que realmente tinha um problema em mim por eu ser quem eu sou”.

No dia a dia

O psicólogo clínico Felipe Medeiro Alves atua no atendimento à população LGBTQIA + e é responsável por programas de inclusão dessa comunidade dentro de multinacionais.

Para ele, a vivência dessa comunidade é pautada por microagressões que acontecem no dia a dia, e uma das principais motivações que levam um jovem a desenvolver transtornos psicológicos é a falta de redes de apoio. 

“Toda a insegurança financeira, estar preso em um ambiente familiar hostil e que não forma redes, é catalisado e convertido em depressão, ansiedade e tendências suicidas”, enfatiza o profissional.

De acordo com Alves, quando falamos de ansiedade e depressão, é muito importante buscar ajuda profissional. É função dos profissionais da psicologia oferecer o acolhimento necessário para o público LGBTQIA+, retratando como a exposição à violência, preconceito e rejeição pode impactar na sua saúde mental. 

O vendedor Yago Rocha recorreu ao SUS para tratar da sua saúde psicológica. Quinzenalmente, ele recebe atendimento profissional de forma gratuita, presencial, individual e também via consultas on-line: “Conheço outras pessoas que recebem um acompanhamento por mês, e é on-line. Eu consegui dois, mas a fila de espera é muito grande, piorou bastante depois da pandemia”.

“A ajuda psicológica de um profissional salvou a minha vida”, reforça a transexual Noah Louise. O antropólogo Luiz Mott, autor do livro Violação dos Direitos Humanos dos Homossexuais no Brasil, afirma que “o grito é a primeira arma do oprimido”. Por isso, é importante denunciar sempre. 

“A pessoa LGBTQIA+ que for vítima de alguma descriminação ou preconceito deve procurar no Google um grupo de apoio próximo de onde vive, comissões de direitos humanos e segurança pública. E sempre denunciar, nunca se calar”, orienta.

Busque ajuda

O Metrópoles tem a política de publicar informações sobre casos de suicídio ou tentativas que ocorrem em locais públicos ou causam mobilização social. Isso porque é um tema debatido com muito cuidado pelas pessoas em geral. O silêncio, porém, camufla outro problema: a falta de conhecimento sobre o que, de fato, leva essas pessoas a se matarem.

Depressão, esquizofrenia e o uso de drogas ilícitas são os principais males identificados pelos médicos em um potencial suicida. Problemas que poderiam ser tratados e evitados em 90% dos casos, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria.

Está passando por um período difícil? O Centro de Valorização da Vida (CVV) pode te ajudar. A organização atua no apoio emocional e na prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone, e-mail, chat e Skype 24 horas todos os dias.

 

Arte/Metrópoles

A cada mês, em média, mil pessoas procuram ajuda no Centro de Valorização da Vida (CVV). São 33 casos por dia, ou mais de um por hora. Se não for tratada, a depressão pode levar a atitudes extremas.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada dia, 32 pessoas cometem suicídio no Brasil. Hoje, o CVV é um dos poucos serviços em Brasília em que se pode encontrar ajuda de graça.

(*) Jaqueline Fernandes é estagiária do Programa Mentor e está sob supervisão da editora Maria Eugênia

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