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Por que é tão difícil entender alguém falando um idioma desconhecido?

Dois estudos mostram como o cérebro aprende a separar palavras e explicam por que línguas estrangeiras soam como um fluxo contínuo

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Aluna sentada estudando em frente a um grande quadro-negro com tarefas escolares escritas a giz. Aprendendo outro idioma, Metrópoles
1 de 1 Aluna sentada estudando em frente a um grande quadro-negro com tarefas escolares escritas a giz. Aprendendo outro idioma, Metrópoles - Foto: Getty Images

A sensação de que uma língua estrangeira vira um borrão na cabeça, sem pausas claras entre as palavras, é comum para qualquer pessoa que tenta entender um idioma desconhecido. Já na língua materna, identificar cada palavra parece natural.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco, nos Estudos Unidos, mostram agora por que isso ocorre e de que forma o cérebro aprende a reconhecer esses limites sonoros.

Os estudos, publicados nas revistas Neuron e Nature em 7 e 19 de novembro, respectivamente, revelam que essa habilidade não depende apenas das áreas ligadas ao significado da fala. O cérebro também se apoia em uma região menos lembrada quando o assunto é linguagem, o giro temporal superior.

Essa área, até então associada ao reconhecimento básico de sons como consoantes e vogais, guarda neurônios que aprendem a rastrear o início e o fim de cada palavra ao longo de anos de exposição a um idioma.

Segundo Edward Chang, chefe de neurocirurgia e líder das pesquisas, os resultados ajudam a entender como o cérebro transforma uma corrente contínua de sons em unidades compreensíveis.

Neurônios ativados com idioma familiar

No estudo divulgado na Nature, os cientistas registraram a atividade cerebral de 34 pessoas que estavam em avaliação para epilepsia. Elas ouviam frases em inglês, espanhol e mandarim. Parte dos participantes era bilíngue, mas ninguém dominava os três idiomas.

Os pesquisadores compararam a atividade neural com modelos de aprendizado de máquina. A análise mostrou que os neurônios especializados do giro temporal superior só eram ativados quando o voluntário escutava um idioma familiar. Quando ouviam uma língua desconhecida, essa resposta neural simplesmente não acontecia.

De acordo com a primeira autora do estudo, Ilina Bhaya-Grossman, essa diferença ajuda a explicar por que compreender a fala fluente depende mais da experiência acumulada do que da audição em si. O cérebro reconhece padrões que já aprendeu ao longo da vida e reage a eles de forma quase automática.

Como o cérebro separa palavras tão rápido

O segundo estudo, publicado na Neuron, investigou como esses neurônios conseguem identificar os limites das palavras. Como falantes fluentes pronunciam várias delas por segundo, o cérebro precisa trabalhar em alta velocidade.

A pesquisa mostrou que esses neurônios passam por um processo de reorganização imediata depois de identificar uma palavra. É uma espécie de reinício interno que permite ao cérebro se preparar para a próxima sequência de sons. Esse mecanismo garante que cada palavra seja reconhecida antes que a seguinte chegue.

O professor Matthew Leonard, coautor do artigo, afirma que esse ritmo acelerado explica por que lesões em regiões específicas podem comprometer a compreensão da fala, mesmo quando a audição permanece preservada. Sem essa reorganização rápida, o fluxo sonoro deixa de ser dividido em partes identificáveis.

Os estudos reforçam que a compreensão da fala vai muito além de ouvir bem. Ela depende de anos de prática acumulada, que moldam áreas do cérebro capazes de transformar um fluxo contínuo de sons em palavras claras, enquanto idiomas desconhecidos continuam soando como um conjunto indistinto.

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