Politização de vacinas deve atrasar imunização contra Covid-19 no Brasil

A recusa de Jair Bolsonaro para a Coronavac, apadrinhada pelo governador de São Paulo, prejudicará calendário de vacinação

atualizado 21/10/2020 17:27

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A desistência do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em fechar acordo com o Instituto Butantan e o laboratório chinês que desenvolve a vacina apadrinhada pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), deve fazer com que o país tenha menos doses disponíveis para começar a imunização da população contra a Covid-19 em 2021.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, o embate político e a desinformação sobre vacinas estão impactando negativamente à saúde coletiva. “São coisas que deveriam ser científicas e não políticas”, afirmou em entrevista ao Metrópoles.

Atualmente, nenhum laboratório tem capacidade para produzir a quantidade de vacinas necessárias para imunizar toda a população mundial contra o coronavírus. O Brasil, por si só, precisaria de mais de 200 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 para alcançar uma cobertura eficiente.

“Se a gente tiver três, cinco, dez vacinas, que bom, porque vamos conseguir ter vacinas para um número maior de pessoas. Se nós tivermos apenas uma vacina que consiga mostrar segurança e eficácia, imagina a dificuldade que vamos ter de vacinar em grande escala”, comentou o presidente da SBIm.

Sem Coronavac
Nesta quarta-feira (21/10), o Ministério da Saúde voltou atrás da decisão de adquirir a Coronavac, vacina contra a Covid-19 do laboratório chinês Sinovac que está sendo testada no Brasil em parceria com o Instituto Butantan. A manifestação foi feita após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) declarar em redes sociais, também nesta quarta, que o Brasil não irá comprar a “vacina da China”.

No dia anterior, Pazuello havia afirmado em reunião com governadores que a pasta tinha fechado um acordo para a compra de 46 milhões de doses da Coronavac. Em nota enviada à imprensa, o Ministério da Saúde chegou a declarar que R$ 1,9 bilhão seriam investidos na vacina chinesa.

A Coronavac é apadrinhada pelo governador João Doria, está na fase final de ensaios clínicos e será fabricada pelo Instituto Butantan assim que provar a eficácia e segurança e obter o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Na mesma etapa, está a vacina Oxford/AstraZeneca.

De acordo com o calendário de João Doria, a vacina chinesa estaria disponível para a população ainda em dezembro deste ano. As doses da vacina de Oxford/AstraZeneca, asseguradas pelo governo federal chegariam a partir de janeiro, conforme o Ministério da Saúde vem divulgando.

Registro das vacinas
Na esteira da nova polêmica em relação à Coronavac, o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, afirmou que não haverá influência política ou de qualquer outra natureza no processo de licenciamento de vacinas contra o novo coronavírus.

“O trabalho da Anvisa no caso de desenvolvimentos vacinais é um trabalho que já ocorreu, que foi anuir, ou seja, autorizar os protocolos. Uma vez feita a anuência, vamos acompanhá-los e trabalhar para a concessão do registro daqueles que forem solicitados. Esse processo não pode sofrer alteração, influência ou ação que não da ciência e apego à boa técnica”, disse Torres.

Secretários de saúde
Antes da reviravolta desta terça-feira, ainda na semana passada, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), que reúne os secretários de saúde estaduais, alertou para a politização do assunto e fez pressão para a inclusão da Coronavac no Programa Nacional de Imunizações (PNI).

“O Conass solicita ao Ministério da Saúde a adoção de medidas necessárias e imediatas para a incorporação ao PNI das vacinas para Covid-19 produzidas pelo Instituto Butantan, em parceria com a empresa farmacêutica Sinovac Life Science, assim como a de quaisquer outras vacinas produzidas e testadas por outras indústrias que possuam condições de eficácia”, dizia ofício enviado pelo conselho.

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