Pesquisa aponta bons resultados no uso de cannabis em autistas

Dos 15 pacientes acompanhados, 14 registraram melhorias depois de usarem medicamento feito com extrato de maconha enriquecido com canabidiol

Natália SG/ Metrópoles

atualizado 27/01/2020 12:04

Uma pesquisa recente da Universidade de Brasília (UnB) abre perspectivas promissoras para o uso da cannabis no tratamento dos sintomas do autismo. Os poderes medicinais da maconha vêm sendo objeto de estudos científicos em vários países, mas a maioria se concentra no tratamento de problemas como esquizofrenia, epilepsia, demências, dores crônicas e mal-estar provocado pela quimioterapia. O trabalho da UnB é um dos três únicos no mundo que investigam essa aplicação específica – os outros dois estão sendo feitos em Israel.

Em 2014, o professor Renato Malcher-Lopes, do Departamento de Ciências Fisiológicas da universidade, fez uma revisão bibliográfica em que apontou a hipótese de que a cannabis seria benéfica para autistas. De acordo com ele, estudos anteriores realizados com pacientes epilépticos que também eram autistas mostraram efeitos positivos, o que justificaria experimentar a planta como alternativa de tratamento para o segundo problema.

“A epilepsia é caracterizada por um excesso de atividade dos neurônios, uma condição que também está presente no autismo”, explica o professor.

O autismo costuma ser identificado na primeira infância e pode se manifestar em diferentes graus: geralmente há dificuldade de comunicação e de interação social, mas também podem ocorrer alterações de comportamento, como agitação e agressividade.

Depois que o primeiro artigo de Renato foi divulgado, pais de crianças autistas procuraram a Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal (Ama + me) para conseguir a autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para o uso compassivo do medicamento – quando não há alternativa no mercado para o tratamento do paciente, a legislação permite que esse tipo de pedido seja feito.

A solicitação foi acatada e um laboratório de outro país doou a medicação. A partir daí, os médicos da Ama + me e o cientista iniciaram um estudo observacional sobre os efeitos nos pacientes.

O grupo pesquisado compreendia crianças e adolescentes entre 6 e 17 anos que passaram por exames de saúde periódicos e cujos pais responderam a questionários com perguntas sobre o nível de agitação dos filhos, a autonomia para a realização de tarefas diárias, a ocorrência de episódios de agitação e nervosismo e a frequência com a qual apresentavam dificuldade para dormir.

Depois de nove meses de acompanhamento, 14 dos 15 pacientes registraram melhorias, de acordo com o relato dos pais. “Os resultados mais impactantes foram a redução da hiperatividade, do déficit de atenção e das crises nervosas – as quais, muitas vezes, envolvem autoagressividade –, além de melhora na qualidade do sono e na interação social”, afirma o neurocientista.

O trabalho foi publicado em outubro do ano passado na revista Frontiers in Neurology, plataforma de acesso livre reconhecida mundialmente na área de neurologia. Agora, o grupo de pesquisa liderado por Renato pretende buscar outras evidências sobre a efetividade do tratamento.

O neurocientista, que é pai de uma criança autista, acredita que a pesquisa dá um passo importante para alavancar outras investigações científicas sobre o uso medicinal do extrato da maconha. “É muito importante livrar a ciência e a academia de amarras preconceituosas, que podem impedir o desenvolvimento de tratamentos que melhorem a vida das pessoas. Agradeço à Universidade de Brasília pela oportunidade de levar adiante essa pesquisa”, diz Renato Malcher-Lopes.

Últimas notícias