Pediatra vence leucemia, engravida e se torna doadora de leite materno

Após enfrentar câncer, pediatra de 31 anos realizou o sonho da maternidade e passou a ajudar bebês prematuros com leite materno

atualizado

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Arquivo Pessoal
Foto colorida de duas mulheres e um bebê segurando um certificado - Metrópoles.
1 de 1 Foto colorida de duas mulheres e um bebê segurando um certificado - Metrópoles. - Foto: Arquivo Pessoal

A pediatra Rosane Alice Barbosa Bomfim de Morais, de 31 anos, passou anos acreditando que jamais conseguiria realizar o sonho de ser mãe. Após enfrentar uma leucemia agressiva, sessões intensas de quimioterapia e um transplante de medula óssea, ela ouviu dos médicos que as chances de engravidar seriam mínimas.

Hoje, quase dez anos depois do diagnóstico, vive uma realidade que parecia improvável: tornou-se mãe do pequeno Davi e transformou a própria trajetória em um solidariedade ao doar leite materno para recém-nascidos prematuros.

Rosane celebra não apenas a maternidade, mas também a oportunidade de ajudar outros bebês internados por meio do Banco de Leite Humano do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), em São Paulo. Há cerca de três meses, a pediatra realiza doações semanais que ultrapassam meio litro de leite por coleta.

O câncer chegou durante a faculdade

A história começou em 2015, quando Rosane ainda morava em Fortaleza (CE) e cursava medicina. Após episódios persistentes de febre e fortes dores de cabeça, recebeu o diagnóstico de leucemia. Mesmo diante da gravidade da doença, ela acreditava que conseguiria superar a situação rapidamente.

A recidiva da doença, no entanto, abalou profundamente a jovem. Em 2016, Rosane precisou passar por um transplante de medula óssea e interromper parte da vida acadêmica e social.

Durante o tratamento, os médicos alertaram que a quimioterapia poderia comprometer sua fertilidade. Na época, ainda muito jovem, ela não imaginava o peso daquela informação.

“Só no transplante me avisaram que provavelmente nunca daria certo ou seria uma chance ínfima”, conta. Mesmo diante da possibilidade de infertilidade, Rosane e o marido continuaram sonhando em construir uma família. A adoção fazia parte dos planos do casal.

A gravidez que parecia impossível

Anos depois, já durante a residência médica em Pediatria no Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual de São Paulo – IAMSPE, veio a surpresa. Após uma rotina intensa de plantões, Rosane teve alguns sintomas e decidiu fazer um teste de gravidez.

“Foi muito profundo e significativo para nossas vidas. Davi sempre foi uma bênção para nós”, afirma. Hoje, ela define a maternidade como um milagre e uma prova de que o impossível pode acontecer.

O nascimento do filho também despertou a vontade de ajudar outros recém-nascidos. Como pediatra, Rosane já acompanhava de perto a importância do leite humano para prematuros e bebês internados. “Quando percebi que poderia ajudar outras crianças e vi que meu filho estava se desenvolvendo bem, decidi doar”, explica.

Foto de duas mulheres compartilhando frascos de leite materno - Metrópoles
Rosane Alice Barbosa doa leite materno semanalmente ao Banco de Leite Humano do HSPE, em São Paulo

Leite materno ajuda a proteger prematuros

Segundo o pediatra e neonatologista Nelson Douglas Ejzenbaum, de São Paulo, o leite materno possui uma composição especialmente preparada para atender às necessidades dos recém-nascidos, principalmente os prematuros.

“O leite materno contém mais imunoglobulinas e ajuda na proteção contra infecções, além de melhorar o ganho de peso e o desenvolvimento do bebê”, explica.

O especialista destaca que o leite doado também reduz o risco de enterocolite necrotizante, uma grave inflamação intestinal que pode atingir recém-nascidos prematuros. De acordo com o médico, mães saudáveis e com boa produção de leite podem se tornar doadoras.

Antes da doação, elas passam por entrevistas e avaliações de saúde. O leite coletado é armazenado corretamente, congelado e encaminhado aos bancos de leite, onde passa por análise e pasteurização antes de ser distribuído aos bebês internados.


Benefícios do leite humano para recém-nascidos

  • Fortalece o sistema imunológico dos bebês.
  • Ajuda na proteção contra infecções.
  • Reduz o risco de enterocolite necrotizante.
  • Melhora o ganho de peso dos prematuros.
  • Facilita o desenvolvimento e o crescimento saudável.
  • Possui alta capacidade de absorção pelo organismo do bebê.

Quase 10 anos após o diagnóstico, Rosane afirma que a doença transformou sua forma de enxergar a vida. “Aprendi a sempre me colocar no lugar de qualquer pessoa no mundo”, reflete.

Neste 19 de maio, data em que é celebrado o Dia Mundial da Doação de Leite Humano, ela diz que a experiência de amamentar e doar ganhou um significado ainda mais profundo a tudo o que viveu. Para a pediatra, cada frasco entregue ao banco de leite representa uma oportunidade de ajudar bebês que precisam de cuidados intensivos nos primeiros dias de vida.

“Quem consegue doar, mesmo que seja um pouco, pode fazer diferença. Conseguir doar um pouco de mim, não sendo sangue, mas leite, me deu a sensação de desejo realizado”, afirma.

Ela também participa de um grupo formado por mulheres transplantadas e usa as reuniões para transmitir esperança para pacientes que ainda acreditam que a maternidade não será possível após o câncer.

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