Mulher descobre trombofilia depois de três abortos: "Me sentia seca"
Mulher sofreu abortos de repetição até receber o diagnóstico de trombofilia. Com tratamento especializado, ela conseguiu dar à luz à filha

O sonho da maternidade começou cedo para a operadora de central de rastreamento veicular Rayssa Pereira, de 24 anos, moradora de Sombrio (SC). Aos 19 anos, ela engravidou pela primeira vez sem dificuldades, mas a alegria deu lugar ao sofrimento quando descobriu, durante o ultrassom morfológico de 16 semanas, que o bebê havia parado de se desenvolver ainda com oito semanas de gestação.
Como o aborto foi retido, sem sangramentos, Rayssa precisou passar por uma curetagem de urgência devido ao risco de infecção. A biópsia apontou uma má formação congênita, mas nenhuma outra investigação foi realizada.
“Em todas as perdas eu perguntava o que podia ser e só ouvia que era comum perder a primeira gestação”, lembra.
Nos anos seguintes, ela sofreu mais dois abortos espontâneos, ambos também silenciosos. Em comum, todas as gestações interrompiam o desenvolvimento embrionário nas primeiras semanas.
A sequência de perdas trouxe consequências emocionais profundas. Rayssa desenvolveu depressão, tentou suicídio e segue em acompanhamento psicológico e fazendo uso de ansiolíticos. “Eu me sentia totalmente seca e infértil. Ficava pensando por que eu não conseguia gerar um filho como tantas outras mulheres”, lembra.
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Ver todasExames revelaram a causa após quatro anos de tentativas
A resposta só veio após uma seguidora de Rayssa relatar ter vivido situação semelhante e sugerir alguns exames. O resultado mostrou anticardiolipina IgM em nível elevado: o dela estava em 47, quando o valor de referência era de até 20. O diagnóstico de trombofilia foi feito em 2024, quatro anos após a primeira perda e seis meses depois da terceira.
Segundo a ginecologista e obstetra Claudiane Garcia de Arruda, membro da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a trombofilia é uma condição que aumenta a tendência de formação de coágulos no sangue.
Entre as formas adquiridas está a presença dos anticorpos anticardiolipina, geralmente relacionada à síndrome antifosfolípide (SAF), que eleva o risco de tromboses e complicações na gravidez.
A especialista explica que a doença costuma permanecer silenciosa por muitos anos. “Na mulher em idade reprodutiva, outro sinal de alerta é a ocorrência de abortamentos de repetição, perda fetal, pré-eclâmpsia precoce ou grave, restrição do crescimento fetal e parto prematuro relacionado à insuficiência placentária”, diz.
A trombofilia é uma condição que aumenta a propensão à formação de coágulos sanguíneos. Durante a gestação, ela pode favorecer várias complicações. De acordo com o Ministério da Saúde, as gestantes apresentam risco de tromboembolismo venoso quatro a cinco vezes maior do que mulheres não grávidas.
O que é trombofilia e quais são os principais sinais?
- Abortos espontâneos de repetição.
- Perda fetal sem causa aparente.
- Inchaço, dor e vermelhidão em uma das pernas.
- Falta de ar súbita e dor no peito (em casos de embolia pulmonar).
- Pré-eclâmpsia.
- Restrição do crescimento do bebê.
Tratamento tornou possível a gravidez
Após o diagnóstico, Rayssa iniciou o tratamento com ácido acetilsalicílico (AAS) antes mesmo de engravidar. Pouco tempo depois, veio uma nova gravidez e, durante toda a gestação, ela utilizou enoxaparina e manteve o medicamento por 40 dias após o parto.
Apesar do tratamento, a primeira filha de Rayssa, Hadassa, apresentou restrição de crescimento fetal e a operadora desenvolveu pré-eclâmpsia. A gravidez chegou às 31 semanas, quando o parto precisou ser realizado.
A bebê nasceu com um quilo e 38 centímetros, permaneceu 36 dias na UTI neonatal e recebeu alta ao atingir dois quilos. Hoje, com 1 ano e 4 meses, apresenta desenvolvimento compatível com a prematuridade.
“Após o tratamento eu engravidei da minha bebê milagre. Foram momentos muito difíceis, mas hoje ela está aqui comigo”, conta.

A obstetra Claudiane destaca que o exame para anticorpos anticardiolipina não faz parte do rastreamento de rotina e deve ser solicitado quando existem situações que aumentam a suspeita da doença.
“Na Obstetrícia, o exame é indicado em mulheres com história de três ou mais abortamentos espontâneos consecutivos antes de 10 semanas de gestação, perda fetal após 10 semanas ou parto prematuro antes de 34 semanas relacionado à pré-eclâmpsia grave, eclâmpsia ou insuficiência placentária”, explica.
A médica ressalta ainda que um resultado positivo não significa, obrigatoriamente, que a mulher desenvolverá trombose ou terá complicações na gravidez. A avaliação considera o histórico clínico, o perfil dos anticorpos e outros fatores de risco.
Informação pode evitar novas perdas
Embora a trombofilia relacionada aos anticorpos anticardiolipina não tenha cura, o tratamento adequado reduz o risco de tromboses e aumenta significativamente as chances de uma gestação bem-sucedida. O acompanhamento costuma ser multidisciplinar, com monitoramento da mãe, do bebê e da placenta durante toda a gravidez.
Para Rayssa, compartilhar a própria história é uma forma de alertar outras mulheres. “Não espere passar por várias perdas para investigar. Busque ajuda, converse com seu médico e não negligencie os sinais. Eu sei o tamanho dessa dor, mas também sei que, com diagnóstico e tratamento, é possível realizar o sonho de ser mãe”, afirma.



