Gravidez pode causar alterações duradouras no cérebro, aponta estudo
Exames mostram alterações em até 97% das áreas do cérebro durante a gestação, com efeitos que podem persistir após o parto
atualizado
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A gravidez provoca uma transformação profunda no cérebro feminino, com alterações estruturais que atingem praticamente todas as regiões do órgão. Novos dados de exames de imagem mostram que o cérebro materno passa por um processo de reorganização amplo e coordenado ao longo da gestação — e que parte dessas mudanças pode persistir mesmo após o nascimento do bebê.
As conclusões vêm de análises do chamado Projeto Cérebro Materno, liderado pela neurocientista Emily Jacobs, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, Estados Unidos.
A iniciativa acompanha mulheres antes, durante e depois da gravidez com exames de ressonância magnética, coletas de sangue e avaliações clínicas. Segundo Jacobs, “quase todas as regiões do cérebro mudam significativamente ao longo da gravidez”.
Os dados encontrados nos exames mais recentes indicam que cerca de 97% das aproximadamente 400 regiões cerebrais analisadas apresentam alterações durante a gestação e no período após o parto. As transformações incluem:
- Redução no volume total do cérebro;
- Diminuição da substância cinzenta (responsável por funções como memória e emoções);
- Alterações na espessura do córtex cerebral;
- Mudanças no líquido cefalorraquidiano;
- Adaptações no sistema vascular do cérebro.
Essas mudanças acontecem de forma progressiva, acompanhando o avanço das semanas de gestação. Apesar de parecerem negativas à primeira vista, os cientistas afirmam que não se trata de perda de função. A hipótese principal é que o cérebro passa por um processo de “ajuste fino”, tornando-se mais eficiente para lidar com as demandas da maternidade.
O Projeto Cérebro Materno utiliza um modelo de acompanhamento longitudinal, considerado um dos mais completos já feitos na área. Os participantes passam por avaliações frequentes — em alguns casos, a cada duas a quatro semanas — desde antes da concepção até o pós-parto.
Até agora, o estudo inclui cerca de 20 participantes nos Estados Unidos, entre mães de primeira viagem, mães com mais de um filho, além de grupos de comparação com pais e mulheres que não estão grávidas.
No total, já foram realizados mais de 150 exames de ressonância magnética, permitindo observar as mudanças cerebrais em tempo real — algo que não era possível em estudos anteriores, que comparavam apenas imagens antes e depois da gravidez.
Hormônios impulsionam transformação do cérebro
A explicação para essa reconfiguração cerebral está, em grande parte, nas alterações hormonais intensas da gravidez. Durante o período gestacional, há aumentos de até 100 a 1.000 vezes na produção de hormônios como estrogênio e progesterona, que têm impacto direto no sistema nervoso.
Esses hormônios atuam como moduladores do cérebro, influenciando conexões entre neurônios, formação de novas estruturas neurais e organização de circuitos ligados ao comportamento social.
Segundo Jacobs, estudos anteriores já mostravam que a gravidez está associada a uma das maiores fases de neuroplasticidade da vida adulta — comparável à adolescência.

Outro ponto relevante é que as transformações não desaparecem imediatamente após o parto. Os exames indicam que o volume cerebral começa a se recuperar parcialmente depois do nascimento, mas algumas alterações persistem por meses ou até anos.
Regiões associadas à cognição social — como áreas que ajudam a interpretar emoções e intenções — estão entre as mais afetadas. A reorganização dessas áreas pode facilitar o vínculo entre mãe e bebê e melhorar a resposta a sinais como choro e expressões faciais.
Os cientistas destacam que o cérebro materno ainda é pouco estudado. Desde 1990, apenas 0,5% dos estudos de neuroimagem analisaram a saúde cerebral feminina, segundo Jacobs.
Em artigo de opinião publicado na revista científica Nature, a neurocientista defende que a gravidez representa uma janela única para entender a plasticidade do cérebro humano e critica o histórico de negligência científica na área.
Para ela, o conceito popular de “cérebro de grávida” precisa ser revisto. Em vez de indicar falhas cognitivas, as evidências apontam para um cérebro altamente adaptável e em constante reorganização.
Apesar dos avanços, o próprio Projeto Cérebro Materno ainda está em andamento e não teve todos os resultados publicados em revista científica revisada por pares.
Os pesquisadores buscam agora ampliar o número de participantes e entender se fatores como idade, número de gestações, amamentação e complicações na gravidez influenciam as mudanças cerebrais.
A expectativa é que, no futuro, essas descobertas ajudem a identificar riscos para condições como depressão pós-parto e outras alterações neurológicas associadas à maternidade.
