Métodos naturais contraceptivos funcionam? Entenda riscos e limites

Especialistas explicam como contraceptivos naturais funcionam no corpo — e por que a taxa de falha pode ser alta

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Foto colorida de mulher segurando um exame de gravidez - Metrópoles.
1 de 1 Foto colorida de mulher segurando um exame de gravidez - Metrópoles. - Foto: unsplash

Nos últimos anos, os métodos contraceptivos naturais voltaram a ganhar espaço nas redes sociais e em grupos de mulheres que buscam alternativas sem hormônios ou procedimentos invasivos e em grupos religiosos.

Métodos como tabelinha, observação do muco cervical e controle da temperatura corporal passaram a ser divulgados como formas “naturais” de evitar a gravidez. Mas, na prática, será que eles realmente funcionam?

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem do Metrópoles, os métodos têm fundamento biológico e podem funcionar em alguns casos, mas apresentam limitações importantes e dependem diretamente do comportamento humano.

Disciplina, rotina organizada, autoconhecimento corporal e ciclos menstruais mais previsíveis fazem diferença nos resultados. A ginecologista Iana Vilasbôas, especialista em ginecologia e obstetrícia, em São Paulo, explica que nenhum método contraceptivo é 100% eficaz, mas os naturais costumam falhar mais justamente porque dependem da interpretação correta dos sinais do corpo.

“Os métodos naturais têm fundamento biológico, mas exigem conhecimento, disciplina e entendimento de que o corpo humano não funciona como uma máquina matemática”, afirma.

O que são os métodos contraceptivos naturais?

Os métodos naturais são estratégias que tentam identificar o período fértil da mulher para evitar relações sexuais sem proteção durante os dias de maior chance de gravidez.

Diferentemente da pílula anticoncepcional, do DIU ou dos implantes hormonais, eles não bloqueiam a ovulação. O objetivo é prever quando ela acontece.

O ginecologista Vinícius Carruego, do Instituto Carruego e da Endogin, explica que a popularidade recente desses métodos tem relação com o desejo de evitar hormônios e procedimentos invasivos. “Eles não exigem medicamentos diários nem dispositivos como o DIU. Mas a eficácia não é tão confiável”, alerta.

O especialista destaca que fatores aparentemente simples podem alterar completamente o ciclo menstrual e dificultar a previsão da ovulação. “Estresse, noites mal dormidas, mudanças alimentares, emagrecimento rápido e até medicamentos podem interferir. Por isso, os métodos naturais não são considerados totalmente seguros”, diz.

Tabelinha é um dos métodos mais conhecidos, mas existem outros

A tabelinha é um dos métodos naturais mais antigos e populares. Nela, a mulher calcula o período fértil com base nos ciclos menstruais anteriores. O problema, segundo Iana, é que essa metodologia funciona como uma previsão e não como uma confirmação exata do período de ovulação.

“Alguns fatores da rotina podem mudar o ciclo, como estresse, perda ou ganho de peso. Na prática, a mulher tenta evitar relações nos dias próximos à ovulação. Porém, a fertilidade não se resume apenas ao dia em que o óvulo é liberado.

“As pessoas costumam achar que apenas o dia da ovulação representa risco de gravidez. Mas o espermatozoide pode sobreviver cerca de cinco dias no organismo feminino”, afirma a médica.

Outro método bastante divulgado é o Billings, que analisa alterações no muco cervical – secreção natural produzida pelo colo do útero – ao longo do ciclo menstrual. Próximo da ovulação, o muco costuma ficar mais abundante, transparente e escorregadio, semelhante à clara de ovo.

Apesar de ser mais individualizado do que a tabelinha, o método também apresenta limitações. De acordo com a ginecologista, alterações hormonais, infecções ginecológicas, corrimentos e até o período de amamentação podem confundir a interpretação dos sinais.

Além disso, o Billings exige acompanhamento constante e muito autoconhecimento corporal. Há ainda o método da temperatura basal, que acompanha pequenas alterações na temperatura corporal causadas pela progesterona após a ovulação.

Depois que o óvulo é liberado, a temperatura costuma subir discretamente, geralmente entre 0,2°C e 0,5°C. Para funcionar, a mulher deve medir a temperatura diariamente ao acordar, antes mesmo de sair da cama, sempre no mesmo horário. O problema é que o método só confirma que a ovulação já aconteceu — ou seja, a janela fértil pode já ter passado.

Foto colorida de mulher segurando com as duas mãos um teste de gravidez - Metrópoles.
Métodos naturais como tabelinha e Billings podem funcionar, mas especialistas alertam que a eficácia depende de vários fatores

Taxas de falha contraceptiva

Os médicos fazem uma distinção importante entre “uso perfeito” e “uso típico”. No uso perfeito, quando todas as orientações são seguidas rigorosamente, os resultados podem ser melhores.

Já no uso típico — que representa a vida real — erros de interpretação, esquecimentos e mudanças hormonais reduzem bastante a eficácia. Segundo Iana, as taxas de falha anuais estimadas são:

  • Tabelinha: cerca de 12% a 24%.
  • Método Billings: entre 3% e 23%.
  • Método sintotérmico: de 2% a 8%.
  • Preservativo masculino: aproximadamente 13%.
  • Pílula anticoncepcional: cerca de 7%.
  • DIU hormonal: menos de 1%.

“Quanto maior a dependência do comportamento humano, maior a taxa de falha”, resume a especialista. Ela afirma ainda que há situações em que os métodos naturais devem ser evitados.

Adolescentes, mulheres com ciclos menstruais muito irregulares, pacientes no pós-parto, em amamentação, próximas da menopausa ou com síndrome dos ovários policísticos apresentam maior risco de erro na identificação do período fértil.

Além disso, Carruego afirma que métodos naturais não devem ser indicados quando uma gravidez representaria risco médico ou impacto fundamental na vida da paciente.

“Você não deve oferecer um método natural quando a mulher não pode engravidar de forma alguma ou quando uma gestação traria consequências importantes”, afirma.

Segundo ele, os métodos naturais costumam ser considerados em situações mais específicas. Geralmente em casais que desejam ter filhos no futuro e em que uma gravidez inesperada não causaria um impacto negativo importante.

Aplicativos ajudam, mas não garantem segurança

Com a popularização da tecnologia, diversos aplicativos passaram a prometer previsões sobre ovulação e período fértil. Embora possam ajudar no acompanhamento do ciclo menstrual, os médicos alertam que eles não substituem métodos contraceptivos mais eficazes.

Carruego explica que, na prática clínica, o monitoramento da ovulação costuma ser mais utilizado por mulheres que estão tentando engravidar. Para os especialistas, apesar do apelo de alternativas sem hormônios, é importante que a escolha contraceptiva seja feita com orientação médica, independente de crenças, levando em conta o estilo de vida, os riscos de uma possível gestação e a taxa de eficácia de cada método.

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