Julio Croda: “Imunidade coletiva deve ser maior para conter variantes”

Em entrevista ao Metrópoles, o infectologista Julio Croda explica o que a ciência já descobriu sobre a imunidade contra o novo coronavírus

atualizado 12/04/2021 9:55

Reprodução/Zoom

A pandemia da Covid-19 já se arrasta por mais de um ano e a cada mês a ciência faz novas descobertas sobre o vírus Sars-CoV-2, que já deixou mais de 134,4 milhões de pessoas doentes em todo o mundo. Em meio a tantas dúvidas, pesquisadores tentam descobrir por quanto tempo dura a imunidade adquirida após a infecção e depois da aplicação de vacinas.

Em entrevista ao Metrópoles, o infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz),  Julio Croda, destaca as descobertas mais recentes sobre a proteção ao vírus e afirma que ainda vai demorar para que os brasileiros possam se encontrar sem máscara e com segurança, uma vez que  variantes mais resistentes do coronavírus estão sendo descobertas.

Tempo de imunidade

Nos primeiros meses da pandemia, chegou-se a falar em “passaporte da imunidade”: a ideia era que pessoas recuperadas após a Covid-19 ficariam imunes ao coronavírus. No entanto, logo surgiram os primeiros casos de reinfecção, que lançaram o alerta sobre a duração e a intensidade da imunidade adquirida.

Estudos publicados recentemente mostram que pacientes de quadros mais graves, com necessidade de internação em unidades de terapia intensiva (UTI), desenvolvem resposta imune mais forte e persistente, com maior nível de proteção celular e de anticorpos. Por outro lado, pessoas que tiveram a doença mais leve ou assintomática parecem produzir menos anticorpos e resposta celular, ficando mais expostas à reinfecção.

“Existe uma variação muito grande sobre quanto tempo a resposta imune dura e depende muito dos sintomas e da gravidade da primeira infecção”, explica Croda.

O organismo produz dois tipos de imunidade: a humoral (de anticorpos) e a celular. Entre os anticorpos do tipo IgG, existem os neutralizantes, que impedem a entrada do vírus nas células humanas. Com a imunidade celular, o organismo reconhece as células infectadas pelo vírus e provoca a morte delas, interrompendo a replicação viral.

Proteção pós-vacina

Além das dúvidas sobre a imunidade adquirida após a infecção, outra pergunta que mobiliza a ciência no momento diz respeito ao tempo de proteção que será conferido após as vacinas. Isso só será estabelecido no futuro, com o acompanhamento dos voluntários dos testes clínicos e da resposta do “mundo real”, verificada entre a população vacinada com os imunizantes aprovados pelas agências reguladoras.

Segundo Croda, a necessidade de uma dose de reforço no futuro e o período no qual ela deverá ser administrada dependerá da combinação de dois fatores: a queda dos anticorpos neutralizantes ao longo do tempo ou o surgimento de novas variantes que apresentem maior capacidade de escapar às estratégias de combate ao vírus que o corpo adquire com a vacina.

Um estudo feito por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostrou evidências de que a maioria das pessoas vacinadas com a Coronavac desenvolve uma produção robusta de anticorpos neutralizantes 15 dias após a aplicação da segunda dose. Os pesquisadores do Laboratório de Virologia Molecular (LVM) da UFRJ, no entanto, não sabem por quanto tempo estes anticorpos vão durar.

Outra pesquisa realizada pela Pfizer e pela BioNTech mostrou que a imunidade dos voluntários da fase 3 dos testes clínicos permanece a mesma nos seis meses seguintes à aplicação da segunda dose.

Proteção contra novas variantes

As variantes do Reino Unido (B.1.1.7) e da África do Sul (B.1.351) são as que mais preocupam os cientistas atualmente. As duas apresentam uma mutação no aminoácido 584, visto como o responsável por driblar a resposta imune de quem foi infectado por outras variantes no passado.

A variante P.1, identificada pela primeira vez em Manaus (AM) também preocupa. Em alguns estados e no Distrito Federal, ela já é a de maior circulação.

“Novas variantes irão surgir e surgem a todo momento”, diz Croda. “É muito difícil afirmar qual é o risco de reinfecção para quem já teve uma infecção provocada pela versão anterior do vírus”, pontua o infectologista.

Na quarta-feira (7/4), pesquisadores do grupo Vebra Covid-19 – coordenado por Croda – publicaram os resultados preliminares de um estudo que revela que a Coronavac tem 50% de efetividade na prevenção da P.1. Eles avaliaram mais de 67 mil profissionais de saúde da capital do Amazonas, onde ela surgiu e é predominante.

“A efetividade da vacina (Coronavac) para a P.1 é a mesma das outras variantes. Ou seja, a gente pode continuar usando a Coronavac nas nossas campanhas de vacinação onde a P.1 é a nossa principal variante”.

Proteção para pessoas que não podem se vacinar

O infectologista reforça que o ato de se vacinar protege não apenas quem recebe o imunizante, mas também as pessoas que não podem se vacinar, seja porque ainda não chegou a sua vez de ir até o posto de saúde ou porque não têm recomendação médica. A vacinação das pessoas próximas promoveria uma espécie de barreira para as pessoas com problemas crônicos passando pela fase aguda da doença e para os imunossuprimidos – que devem tomar a vacina, mas têm maior deficiência na produção de anticorpos.

“Se a gente atinge de 80 a 90% da população, você pode ter um impacto na transmissão do vírus e essas pessoas que, eventualmente, não podem tomar a vacina estarão protegidas pela imunidade coletiva. Ou seja, o vírus circula menos e essas pessoas têm menor chance de adquirir a doença”, afirma o infectologista.

Encontros com segurança e fim do uso da máscara

Na avaliação do pesquisador da Fiocruz, ainda vai demorar até que os brasileiros possam se reunir com amigos e familiares com segurança e abandonar o uso da máscaras.

“Ainda mais com o surgimento de novas variantes mais transmissíveis, a gente vai precisar de uma imunidade de rebanho maior para ter uma redução da transmissão do vírus”, pondera.

O infectologista explica que quanto maior for a eficácia das vacinas, mais rápido esse patamar será atingido. “Com certeza, quando 80 a 95% da população estiver vacinada, pode ser que a gente volte a uma normalidade”, completa.

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