Variante de Manaus do coronavírus é a de maior circulação no DF

Professor do Instituto de Biologia da UnB, Bergmann Ribeiro, relaciona a prevalência da variante com o aumento do número de hospitalizações

atualizado 07/04/2021 10:03

coronavirus ilustraçãoPixabay

A variante P.1 do novo coronavírus, também conhecida como variante amazônica ou variante de Manaus, se tornou a principal em circulação no Distrito Federal. Ela está presente em  54% das amostras de testes do tipo RT-PCR que passaram por sequenciamento genômico entre o fim de fevereiro e o início de março no Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen-DF), responsável pela análise das possíveis variantes que circulam na capital federal.

O professor do Instituto de Biologia da UnB especialista em mutações de vírus, Bergmann Ribeiro, está à frente do grupo de pesquisadores da universidade que faz esse trabalho em parceria com o Lacen desde janeiro. Até então, as amostras eram analisadas pelo Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo.

“Essa variante é mais preocupante porque está associada ao maior espalhamento e também estamos vendo mais jovens infectados”, afirma o professor que trabalha com o sequenciamento de vírus há mais de 25 anos.

Ribeiro vê uma forte relação entre o aumento expressivo de internações em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) pela Covid-19 nos últimos meses e a circulação da variante P.1 no DF, reconhecida pela sua alta transmissibilidade. “Essa variante não estava presente antes. Isso significa que ela está se espalhando mais rapidamente e também pode estar relacionada à maior gravidade da doença”, sugere.

As variantes do Amazonas, Reino Unido (B.1.1.7), da África do Sul (B.1.351) são denominadas como variantes de preocupação. Elas estão associadas ao maior número de hospitalizações.

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Durante o levantamento, foram sequenciados 44 genomas do vírus presentes no DF com a plataforma MinION (uma máquina fabricada em Oxford), de amostras selecionadas durante a primeira quinzena de março, seguindo critérios estabelecidos pela equipe da instituição, como: casos suspeitos de reinfecção, pacientes provenientes de Manaus, óbitos e pacientes escolhidos aleatoriamente dentre as amostras positivas.

Entre o final de janeiro e início de fevereiro, a P.1 estava mais associada aos pacientes vindos de Manaus. Entre o final de fevereiro e o início de março, ela já estava dominando o DF, segundo Ribeiro. Todas as amostras foram extraídas, amplificadas e sequenciadas nas dependências do Lacen-DF e do Instituto de Biologia da UnB.

“Nós queremos saber o que está circulando aqui. Selecionamos amostras de diferentes áreas para ter uma ideia geral do que está circulando em vários locais do DF”, detalha Ribeiro.

Vinte e quatro amostras foram compatíveis com a variante P.1; 15 foram da variante P.2, identificada pela primeira vez no Rio de Janeiro em outubro 2020. “A P.2 é denominada como ‘variante de interesse’. Apesar de aumentar os casos, ela não parece ter relação com o aumento das hospitalizações”, conta o professor da UnB. Também foi registrada uma amostra da variante britânica, coletada no final de fevereiro, além de quatro da linhagem B.1.1.28 (uma das primeiras cepas a circular no DF), e uma da B.1.1.143.

Estes genomas serão submetidos ao banco de dados GISAID, onde instituições internacionais registram os genomas encontrados. Ao todo, já foram registrados mais de 1 milhão de genomas em todo o mundo. Apesar do número assustar, o especialista conta que é natural que os vírus evoluam, mas chama atenção para o surgimento de variantes mais perigosas caso a transmissão fique descontrolada. “Por isso temos que vacinar logo a população”, pondera.

“É normal ter variante. Ao entrar em uma célula, o vírus produz cópias e gera variantes. Algumas mutações fazem com que o vírus melhore a sua replicação e outras fazem com que ele não vá para frente. A predominância de uma variante indica que ele está se adaptando ao hospedeiro e ganhou uma vantagem evolutiva”, explica o especialista em virologia.

Custo alto

O trabalho de sequenciamento dos vírus tem um custo elevado, pois precisa de um equipamento e de insumos específicos, incluindo reagentes importados. Para que cada amostra seja analisada, é necessário fazer um investimento de R$ 600 a R$ 800. “É algo que você tem que estar preparado para fazer, por isso, não é todo lugar que faz”, conta Ribeiro.

 

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