Cientistas revelam como sete dias de jejum transformam o corpo humano
Estudo mostra alterações no metabolismo, cérebro e imunidade e levanta benefícios e riscos do jejum prolongado
atualizado
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Ficar vários dias sem comer provoca mudanças profundas no organismo que vão além da simples perda de peso. Um estudo mostrou que o corpo humano passa por grandes transformações quando submetido a um jejum de sete dias, afetando o metabolismo, o sistema imunológico e até estruturas ligadas ao cérebro.
A pesquisa acompanhou 12 voluntários saudáveis durante um período de jejum apenas com água. Amostras de sangue foram coletadas diariamente para que os cientistas pudessem observar, em detalhes, o que acontecia dentro do corpo ao longo dos dias.
Os resultados, publicados na revista Nature Metabolism em 2024, indicam que o organismo não reage de forma imediata às mudanças mais profundas. Segundo os pesquisadores, é só depois de cerca de três dias sem ingestão de calorias que o corpo entra em um estado biológico diferente.
“Pela primeira vez, conseguimos ver o que acontece em nível molecular em todo o corpo quando jejuamos”, afirmou Claudia Langenberg, diretora do Instituto de Pesquisa Universitária em Saúde de Precisão da Queen Mary University of London, em comunicado.
Mudanças começam após o terceiro dia
Nos primeiros dias sem comida, o corpo faz uma transição esperada. Ele deixa de usar a glicose como principal fonte de energia e passa a queimar gordura armazenada. O processo já é conhecido e costuma acontecer nas primeiras 48 a 72 horas de jejum.
Mas o estudo mostrou que as alterações mais complexas demoram um pouco mais para aparecer. A equipe analisou cerca de 3 mil proteínas no sangue dos participantes, substâncias que ajudam a entender o funcionamento de órgãos e tecidos.
Mais de um terço dessas proteínas apresentou mudanças significativas ao longo do jejum. Muitas delas estão relacionadas à matriz extracelular, uma estrutura que dá suporte aos tecidos do corpo, incluindo os neurônios.
Essas alterações foram semelhantes entre os voluntários, o que sugere que o organismo segue um padrão coordenado de resposta ao jejum prolongado.
Além disso, os participantes perderam, em média, 5,7 quilos durante os sete dias. Parte desse peso era de massa magra, mas grande parte foi recuperada após a retomada da alimentação. Já a perda de gordura se manteve em boa medida.
Possíveis efeitos além da perda de peso
Os cientistas também cruzaram os dados do estudo com informações genéticas de grandes pesquisas em humanos. A análise indicou que as mudanças observadas podem estar ligadas a processos importantes para a saúde, como redução da inflamação e melhora de vias metabólicas.
Segundo Claudia, os efeitos vão além do emagrecimento. “O jejum, quando realizado com segurança, é uma intervenção eficaz para a perda de peso. Nossos resultados fornecem evidências de benefícios para a saúde além disso, mas eles só foram visíveis após três dias de restrição calórica total”, diz.
As descobertas também chamam atenção para possíveis impactos no cérebro. Algumas das proteínas alteradas estão relacionadas a estruturas de suporte neural, o que levanta hipóteses sobre efeitos neurológicos do jejum.
Para os pesquisadores, entender esses mecanismos pode ajudar no futuro do desenvolvimento de tratamentos que reproduzam os efeitos positivos do jejum sem a necessidade de longos períodos sem comer.
“Nossos resultados forneceram uma base para alguns conhecimentos antigos sobre por que o jejum é usado para certas condições”, afirma Maik Pietzner, pesquisador envolvido no estudo.
Riscos e limites do jejum prolongado
Apesar dos potenciais benefícios, os cientistas alertam que o jejum prolongado não é isento de riscos. Outros estudos já apontaram que períodos longos sem alimentação podem aumentar a inflamação, alterar a coagulação do sangue e provocar respostas de estresse no organismo.
Também há riscos mais imediatos, como desidratação, desequilíbrios de eletrólitos, tontura e perda de massa muscular. Em pessoas com doenças pré-existentes, como diabetes ou problemas cardiovasculares, as complicações podem ser mais graves.
Por isso, especialistas reforçam que esse tipo de prática não deve ser feito sem acompanhamento médico.
