Fertilização in vitro e barriga da sobrinha garantiram gêmeos a pai solo

Anderson Franco Neves, 45 anos, comemora neste domingo o terceiro Dia dos Pais ao lado dos filhos Eduardo e Fernanda

atualizado 09/08/2020 14:14

Anderson Franco Neves e os gêmeosArquivo Pessoal

A cada novo Dia dos Pais, Anderson Franco Neves, 45 anos, olha para trás e confirma: foi “a melhor decisão da minha vida”. Ele se refere ao fato de ter optado pela paternidade solo, conseguida por meio da reprodução assistida dos gêmeos Eduardo e Fernanda.

“Sou de uma família grande, de 10 irmãos, mais de 20 sobrinhos, então a convivência familiar para mim é básica. Inicialmente, eu tinha a visão de que precisava de um relacionamento para ter um filho. Depois me dei conta de que casais acabam, muitos com brigas. Para mim ser pai é um sonho realizado. Posso passar amor, carinho, conhecimento, compartilhar coisas. É um vínculo eterno. Cada dia melhor, mais encantador”, comemora Anderson, que é solteiro e vive em São Paulo (SP).

Para festejar datas importantes como a deste domingo (9/8), porém, ele precisou superar receios e frustrações. Em junho de 2014, o empresário deu início ao processo de reprodução assistida com fertilização in vitro – a técnica consiste na coleta de espermatozoides e de óvulos para a fecundação em laboratório e posterior aplicação em um útero para gestação. Duas de suas irmãs se ofereceram para participar de um procedimento conhecido como barriga solidária, também chamado de gestação de substituição ou doação temporária de útero, mas ambas gestações deram errado.

“Foram cinco anos tentando. Tentei com a irmã adotiva, foi descoberto um problema no útero dela. Depois tentei com outra irmã, também não deu certo, até que consegui com a barriga da minha sobrinha“, lembra Anderson.

O procedimento

Os espermatozoides dele foram fertilizados in vitro em óvulos de uma doadora anônima. A partir daí, o embrião foi transferido para o útero emprestado pela sobrinha. Após uma outra tentativa frustrada, veio a notícia tão aguardada. Com balões e cartazes, a mãe, as irmãs e a sobrinha anunciaram que Anderson seria pai de gêmeos.

A partir de então, vieram outros desafios comuns a todos os pais de primeira viagem que, no caso dele, foram potencializados por sua condição de pai solo. “Um dos receios que eu tinha era quanto à amamentação. Eles não receberam leite materno. Mas, na primeira consulta, o pediatra me tranquilizou. Mães falecem no parto ou por inúmeros problemas e as crianças vivem bem. Hoje, há leites artificiais que suprem as necessidades dos bebês. Meus filhos são supersaudáveis, dentro das curvas de tamanho e peso”, festeja.

Na certidão de nascimento de Eduardo e Fernanda consta apenas o nome do pai – o espaço para o da mãe é uma lacuna. Uma situação inusitada, mas que Anderson encara com naturalidade. “Já vi as pessoas surpresas: estão mais habituadas a mães solteiras, pai solteiro é uma surpresa. No fim das contas, a reação é mais positiva do que negativa. As pessoas nas redes sociais me mandam mensagens dando parabéns, dizendo que também queriam ter.”

Como em situação alguma é tarefa simples cuidar de gêmeos, Anderson faz questão de enaltecer a mãe dele, Marlene Franco. Ela vive com ele e, assim como as três babás das crianças, ajuda na criação. “Meus filhos são apaixonados pela minha mãe, já acordam gritando vovó, vovó!”, diverte-se o empresário.

“Ele foi pioneiro”

O médico Edson Borges Júnior, especialista em reprodução humana e membro do conselho consultivo da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), foi quem acompanhou e orientou todo o processo para Anderson ser pai. Segundo o médico, o empresário foi um dos primeiros a procurar a ajuda da medicina para se tornar um pai solteiro.

“Quando o Anderson chegou, em junho de 2014, ainda era um tabu um homem querer ser pai solteiro. Hoje, recebo outros homens com essa solicitação. Na época dele, realmente, foi uma novidade”, recorda o especialista. “Ele quebrou barreiras e abriu caminho para outros. Os gêmeos nasceram bem, a sobrinha dele tinha 22 anos, então foi uma gravidez tranquila”, relata.

Os gêmeos de Anderson nasceram em abril de 2017. Desde então, o médico realizou dezenas de procedimentos para pais solo. “Cada vez mais estão procurando. Só não fazemos mais porque ainda há dificuldade de encontrar a barriga. Só este ano, atendi três”, conta. “Antes, o homem vinha com temor, medo de julgamentos da própria sociedade. Antigamente, a reprodução assistida era usada para tratar um problema médico (infertilidade) e agora não estamos tratando de doença nenhuma. É uma área da medicina que não é para tratar uma doença, mas para completar uma vontade social”, afirma.

Como funciona a Reprodução Assistida

– De acordo com resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM), as doadoras temporárias de útero devem pertencer à família do homem, com parentesco de até quarto grau. Ou seja, mães, irmãs, filhas, tias, sobrinhas, primas e avó. Demais casos, a exemplo de casais que não possuem membros da família em condições de engravidar, podem requerer uma autorização ao CFM para que uma terceira pessoa possa emprestar o útero.

– Não é permitido que a doação temporária tenha caráter lucrativo ou comercial. Ou seja, é ilegal “alugar” a barriga com intenção de lucrar.

– No caso de um casal de homens, é necessário usar os óvulos de uma doadora anônima e os espermatozoides de um dos dois. Os embriões resultantes serão transferidos para o útero da cedente temporária.

– No caso das mulheres, normalmente é realizada a gestação compartilhada, onde uma fornece os óvulos e a outra, o útero. Os espermatozoides partem de um doador anônimo.

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