Por amor, professora empresta útero e gera filhas gêmeas da irmã

Sheyla carrega na barriga dela as duas sobrinhas porque a irmã, Natana, não pode ter filhos. As meninas devem nascer em março

atualizado 23/02/2020 11:12

Nindy Barros/Divulgação

Até onde você iria para realizar o sonho de um irmão ou irmã?

Por um problema de saúde, Natana Rodrigues, 35 anos, descobriu na adolescência que não poderia gestar seus filhos. Sem pensar muito, a irmã dela, Sheyla, seis anos mais velha, se comprometeu a carregar os futuros sobrinhos dentro da barriga dela. “Só queria ver ela bem e ajudar”, lembra a professora.

“Anos depois, quando comecei a namorar meu atual marido, avisei a ele da situação e decidimos discutir mais para frente. Na época, minha sogra também se dispôs a ser nossa barriga solidária”, lembra Natana. Ano passado, a servidora pública navegava pela internet quando topou com um vídeo de uma blogueira que tinha decidido congelar os próprios óvulos. “Resolvi congelar os meus, mas quando fui conversar com meu marido, ele sugeriu que a gente fosse em frente e tivesse filhos de uma vez”, conta.

Natana começou, então, a conversar com a irmã sobre o assunto, e Sheyla reiterou a promessa feita há quase 20 anos: estava disponível para engravidar pela irmã. Apesar de já ter tido três filhos e passado por uma cirurgia bariátrica em 2012, ela continuava disposta a ser a “barriga solidária” da irmã mais nova.

“Fizemos exames com a Sheyla e com a minha sogra. A médica decidiu que minha irmã era a melhor opção. Conversamos muito”, diz a servidora pública, que mora no Distrito Federal. A professora conta que, a princípio, o marido não foi muito a favor: ficou preocupado com a saúde da mulher pós-bariátrica. “A palavra final foi dele. Depois que os exames comprovaram que estava tudo bem comigo, ele não teve coragem de impedir a minha irmã de ser mãe”, lembra Sheyla.

Os três filhos de Sheyla também entenderam a decisão da mãe. A mais velha, de 16 anos, achou um “ato muito nobre”. O de 13 anos ficou preocupado com a possibilidade de as sobrinhas tomarem o lugar dele, mas depois que a barriga da mãe cresceu, passou a gostar da ideia de ter primas. E a de 8 amou desde o início. “Acho que essa geração mais nova entende muito mais que a gente. Quando meu pai soube, se assustou muito”, explica a grávida.

Depois de se consultar com uma médica na cidade onde mora, Santa Bárbara, no interior de Minas Gerais, Sheyla recebeu a garantia de que estava saudável para engravidar. Em julho de 2019, a professora veio a Brasília para assistir ao show da dupla Sandy e Júnior e passou pela fertilização in vitro (saiba mais abaixo). Voltou para Minas, grávida das gêmeas.

“Sempre fomos muito unidas, somos só nós duas de filhas. Minha mãe faleceu em 2016 e o maior sonho dela era que eu tivesse filhos. O laço está mais forte agora”, garante. Apesar da distância, Natana explica que vê o pé inchado da irmã, a barriga crescendo, acompanha as consultas por chamada de vídeo e foi três vezes para Santa Bárbara acompanhar a gestação de suas filhas.

A servidora pública conta que a cidade é pequena, todo mundo se conhece, e, no começo, a notícia causou estranheza. Mas agora, com a personagem de Adriana Esteves na novela Amor de Mãe sendo barriga solidária para o filho, as pessoas estão “mais conformadas”.

“E depois que eu postei nas minhas redes sociais, muita gente começou a me procurar para saber informações. Descobri alguns grupos de WhatsApp para trocar experiências e venho aprendendo bastante. Por isso, resolvi criar o Instagram @instamaedegemeas”, diz Natana.

Alice e Isadora devem nascer em março, e Natana está indo para Minas Gerais neste Carnaval esperar a chegada das filhas. Ela e Sheyla terão licença maternidade e a servidora pública está fazendo tratamento com um mastologista para tentar amamentar as filhas.

“Não sei explicar o que sinto. Sinto amor pelas meninas, mas sei que não são minhas. Quero minha irmã na sala de parto e que os médicos entreguem elas direto para a mãe. Se eu precisar amamentar, não me importo, mas estou superconsciente de que não sou a mãe mesmo tendo sentido as duas se mexendo dentro da minha barriga. Não vou sofrer, tenho um sentimento de alegria pela Natana ser mãe”, conta Sheyla.

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Barriga solidária
No Brasil, é proibido pagar para usar o corpo de outra pessoa para ter um filho. Como não há transações monetárias envolvidas, não se usa o termo barriga de aluguel: o correto é gestação por substituição, doação temporária do útero ou, ainda, barriga solidária.

As doadoras devem pertencer à família de um dos parceiros e ter parentesco de até quarto grau, de acordo com uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM). Mães, irmãs, tias, sobrinhas, primas e avós podem carregar os filhos de um casal que não possa ter filhos de maneira natural.

Se não há ninguém na família apta a engravidar, é preciso pedir uma autorização do CFM para que uma terceira mulher geste a criança.

O procedimento feito é uma fertilização in vitro. A médica Hitomi Nakagawa, ginecologista e presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA), responsável pelo caso de Natana e Sheyla, conta que, como a servidora pública tinha ovários mas não o útero, era capaz de produzir os próprios óvulos.

“O processo todo demora um mês. Estimulamos a ovulação nela e sincronizamos o ciclo menstrual das duas para que o útero a ser fecundado estivesse preparado quando os óvulos estivessem prontos. Quando não conseguimos essa junção dos ciclos, é preciso congelar os óvulos”, conta a médica.

Até cinco dias depois da retirada dos óvulos e formação do embrião, em laboratório, com o sêmen do pai, acontece a fecundação. “O ideal é fazer o procedimento entre o segundo e terceiro dia, já que metade não sobrevive muito além disso. Doze dias depois já sabemos se deu certo, ou não”, ensina.

A especialista diz que a barriga solidária ainda não é um procedimento frequente, apesar da resolução do CFM. A fertilização in vitro, em contrapartida, é muito comum.

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