Em medida polêmica, Grã-Bretanha permite combinação de vacinas da Covid-19

Atualização das diretrizes de vacinação permite que doses de imunizantes de fábricas diferentes sejam oferecidos à população

atualizado 02/01/2021 11:41

vacina laboratórioDivulgação/Louis Reed/Unsplash

A Grã-Bretanha, ilha que compreende as nações da Inglaterra, Escócia e País de Gales, alterou seu manual de vacinação contra Covid-19 para permitir um regime de vacinas combinadas. A nova regra vale para o caso de uma segunda dose da vacina não estar disponível ou se o fabricante da primeira injeção não for conhecido.

A mudança contradiz as diretrizes de outros órgãos de controle do mundo, como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos. Segundo a agência norte-americana, as vacinas contra o coronavírus não podem ser intercambiáveis. “A segurança e eficácia de uma série de produtos mistos não foram avaliadas. Ambas as doses da série devem ser concluídas com o mesmo produto”, determina o CDC.

A medida foi duramente criticada por especialistas do mundo inteiro. Em entrevista ao NY Times, John Moore, especialista em vacinas da Universidade Cornell, afirmou que não há dados que comprovem a eficácia da medida. Segundo ele, “funcionários na Grã-Bretanha parecem ter abandonado completamente a ciência agora e estão apenas tentando adivinhar como sair da bagunça”.

Segundo a nova orientação da Grã-Bretanha, “todo esforço deve ser feito” para completar um regime de dosagem com a mesma vacina usada pela primeira vez. Mas quando “a mesma vacina não estiver disponível, ou se o primeiro produto recebido é desconhecido, é razoável oferecer uma dose do produto localmente disponível” na segunda vacinação.

O Reino Unido começou a campanha de vacinação no dia 8 de dezembro. O local foi o primeiro a aprovar o uso da vacina da Pfizer/BioNTech e autorizou, na última quarta-feira (30/12), o uso emergencial da vacina desenvolvida pela Universidade Oxford e pela AstraZeneca.

A recomendação é direcionada, preferivelmente, para pacientes “em alto risco imediato ou for considerado improvável que participe novamente [da vacinação]”. O argumento das autoridades de saúde inglesas é de que, como ambas as vacinas têm como alvo a proteína Spike do coronavírus, é provável que a segunda dose ajude a aumentar a resposta à primeira dose.

Em um comunicado à imprensa, funcionários da Public Health England chamaram a atenção para as semelhanças entre as vacinas Pfizer e AstraZeneca e acrescentaram que os ensaios clínicos que testam regimes mistos deveriam começar ainda este ano.

Steven Danehy, porta-voz da Pfizer, afirmou em entrevistas que, embora as decisões sobre os regimes de dosagem alternativos caibam às autoridades de saúde de cada local, “a Pfizer acredita que é fundamental que as autoridades de saúde conduzam esforços de vigilância em quaisquer esquemas alternativos implementados para garantir que cada receptor receba a proteção máxima possível, o que significa imunização com duas doses da vacina”.

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Tanto a vacina Pfizer/BioNTech quanto o imunizante Astrazeneca/Ofxord devem ser aplicadas em regimes de duas doses, administradas com três ou quatro semanas de intervalo. A segunda dose é importante pois garante uma espécie de sessão de revisão molecular para o sistema imunológico, que completa o processo protetor contra o coronavírus.

De acordo com especialistas ouvidos pelo NY Times, as vacinas têm ingredientes diferentes. Por isso, é possível que as pessoas não se beneficiem tanto com uma segunda injeção, no caso do mix de vacinas. A mistura e a correspondência também podem tornar mais difícil a coleta de dados claros sobre a segurança dos imunizantes.

A abordagem da vacinação híbrida parece “prematura”, disse Saad Omer, especialista em vacinas da Universidade de Yale. Ainda assim, de acordo com o CDC, a combinação de vacinas pode ser uma possibilidade caso seja impossível “dar doses de uma vacina do mesmo fabricante”. Segundo o õrgão, “os provedores devem administrar a vacina que eles têm disponível” para completar um cronograma de vacinação.

Para Phyllis Tien, infectologista da Universidade da Califórnia, as alterações da Grã-Bretanha foram feitas sem reuniões públicas ou dados sólidos e “podem corroer a confiança nas campanhas de vacinação e nas medidas de saúde pública em geral”.

A Grã-Bretanha vive sob ameaça da nova cepa do Sars-CoV-2, detectada primeiro no Reino Unido e já mapeada no Brasil. Na última sexta-feira (01/01), autoridades do governo britânico anunciaram que as escolas em Londres e em outras regiões atingidas pelo vírus permanecerão fechadas pelo menos nas próximas duas semanas.

 

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