Com doença autoimune, mulher viveu gravidez de alto risco duas vezes
Diagnosticada aos 20 anos, Adriana ouviu que poderia não engravidar. Hoje, aos 55, ela conta como enfrentou o lúpus e os medos da gestação
atualizado
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Quando recebeu o diagnóstico de lúpus, uma doença autoimune, aos 20 anos, a servidora pública e contadora Adriana Conceição de Torres Magalhães imaginou que muitos planos precisariam ser abandonados.
Na época, ela emagreceu rapidamente, perdeu cabelo, sofreu com dores intensas nas articulações e passou a conviver com um cansaço extremo. “Parecia que eu tinha sido atropelada”, relembra.
Moradora do Gama e natural de Brasília, Adriana passou quase três anos em busca de respostas. Sem plano de saúde, dependia de consultas em hospitais públicos do Distrito Federal até conseguir atendimento particular por indicação de uma tia.
Foi durante uma investigação dermatológica, após o surgimento de manchas avermelhadas no rosto, que veio a confirmação do lúpus eritematoso sistêmico (LES).
“Quando o médico falou que era lúpus, eu não fazia ideia do que era. Naquele momento, chorei de medo.”, conta.
Décadas depois, Adriana se emociona ao lembrar que contrariou os prognósticos médicos e realizou o sonho da maternidade. Ela teve dois filhos: Arthur, hoje com 28 anos, e Ana Catarina, de 27.
O que é o lúpus?
Segundo a reumatologista Flora Maria Marcolino, chefe da equipe de Retaguarda de Reumatologia do Hospital Sírio-Libanês, o lúpus é uma doença inflamatória autoimune crônica em que o sistema imunológico passa a atacar o próprio organismo.
“O lúpus pode atingir pele, articulações, rins, coração, pulmões e vasos sanguíneos. Durante a gestação, as alterações hormonais e imunológicas podem desencadear atividade da doença e aumentar riscos tanto para a mãe quanto para o bebê”, explica a especialista.
A médica afirma que os sintomas mais comuns incluem fadiga intensa, dores articulares, febre, queda de cabelo, emagrecimento e lesões na pele, principalmente no rosto.
Uma das manifestações mais conhecidas é o chamado “rash malar”, conhecido popularmente como “asa de borboleta”, caracterizado por vermelhidão nas bochechas e no nariz. Adriana lembra que os primeiros sinais surgiram justamente dessa forma.
“Meu rosto parecia queimado de sol. A pele começou a descascar e precisou ser retirada uma amostra para biópsia. No início, os médicos acharam que era apenas alergia à luz”, relata.
Gravidez foi desencorajada
Há cerca de 30 anos, muitas mulheres com lúpus eram orientadas a evitar a gravidez devido ao alto risco de complicações e à falta de medicamentos seguros.
“Antigamente, existiam poucos tratamentos além dos corticoides em altas doses, que provocavam muitos efeitos adversos. Hoje, existem protocolos nacionais e internacionais, além de medicamentos mais seguros, que permitem um melhor controle da doença”, explica Flora.
Entre os medicamentos atualmente utilizados estão a hidroxicloroquina, corticosteroides em doses controladas e imunossupressores considerados seguros durante a gestação, como a azatioprina. Alguns remédios, porém, seguem proibidos para grávidas.
A reumatologista reforça que a gravidez deve ser planejada. O ideal é que a mulher esteja com a doença controlada por pelo menos seis a 12 meses antes da concepção.
Mesmo diante dos alertas e do medo de complicações, Adriana nunca desistiu da maternidade. “Eu pensava: ‘Quero ter meus filhos enquanto ainda sou nova e vou tomar todos os cuidados que os médicos mandarem'”, conta. Poucos meses depois, descobriu a primeira gravidez.
Arthur nasceu em 26 de setembro, data dedicada a São Cosme e Damião, santos aos quais Adriana diz ter recorrido em oração durante todo o processo. A gravidez exigiu monitoramento intenso. A servidora pública realizou ultrassonografias mensais e acompanhamento conjunto entre reumatologista e obstetra.

O maior medo, segundo ela, era que o bebê tivesse má-formação ou que a doença provocasse abortos espontâneos. “Naquela época, muita gente dizia que eu era corajosa por engravidar tomando tantos remédios”, relembra.
Principais riscos do lúpus na gravidez
Mulheres com lúpus realmente enfrentam uma gestação considerada de alto risco. Entre as complicações maternas mais frequentes estão:
- Pré-eclâmpsia.
- Trombose venosa.
- Piora da nefrite lúpica.
- Perda da função renal.
- Crises inflamatórias da doença.
- Parto prematuro.
- Restrição do crescimento do bebê.
- Morte fetal.
- Lúpus neonatal.
Segundo a especialista, algumas pacientes apresentam anticorpos específicos, como anti-Ro/SSA e anti-La/SSB, associados ao risco de lúpus neonatal. Apesar disso, ela reforça que muitas mulheres conseguem ter filhos saudáveis quando recebem acompanhamento adequado.
Hoje, aos 55 anos, Adriana afirma que aprendeu a reconhecer os sinais do próprio corpo e adaptar a rotina para evitar crises. Ela mantém acompanhamento com reumatologista, cardiologista, nutricionista, psicóloga, psiquiatra e dermatologista. Também evita exposição solar intensa, faz atividade física e segue rigorosamente o tratamento medicamentoso.
“Os médicos me ensinaram a entender meu corpo. Quando percebo um cansaço diferente ou dores mais profundas, desacelero e procuro ajuda”, explica.
Para Flora, o principal alerta é que nenhuma mulher com lúpus deve iniciar uma gravidez sem orientação médica. “O acompanhamento precisa começar antes da concepção e continuar durante toda a gestação. Planejamento, estabilidade da doença e monitoramento multidisciplinar são fundamentais para reduzir riscos”, afirma.
A especialista reforça que o lúpus não precisa impedir a maternidade. Com informação e tratamento adequado, muitas mulheres conseguem viver uma gestação saudável.
Ao olhar para os dois filhos adultos, Adriana resume a própria trajetória como uma mistura de persistência, cuidado e esperança. “Sempre tive muito medo, mas nunca deixei de acreditar que seria mãe. E quando vejo meus filhos hoje, sinto que toda luta valeu a pena.”