Do transplante à maratona: professora do DF vive história de superação

Maria Alice completou a prova de 21 quilômetros em junho. Há seis anos ela aguardava na fila de doação de órgãos por um fígado compatível

Arquivo pessoal/DivulgaçãoArquivo pessoal/Divulgação

atualizado 27/08/2019 13:08

Quem vê hoje Maria Alice Sousa, 42, correndo 21km em competições como a Maratona do Rio não imagina o que a professora aposentada passou. Às 21h do dia 21 de agosto de 2013, ela ajudava seus filhos com a lição de casa quando recebeu a ligação que mudou sua vida. “Vi que era do hospital e não consegui atender. Fiquei olhando para o celular sem fazer nada”, relembra. A ligação do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF) significava que um doador compatível havia sido encontrado para ela que, desde 2007, aguardava um transplante de fígado.

No dia seguinte, a professora passou pela cirurgia que lhe daria a chance de encerrar um longo ciclo de sofrimento para, enfim, recomeçar a vida. Tudo começou em 2006, quando Maria perdeu o pai para um câncer metastático. Abalada, passou a sentir indisposições. Foi internada e, nesse mesmo dia, seu ex-marido terminou o casamento de sete anos. Seis meses depois, a mãe teve um acidente vascular cerebral (AVC). “Minha imunidade despencou e meu nível de estresse subiu muito”, relembra.

Maria sofria com o inchaço e não conseguia se alimentar sem vomitar. Havia sentido mal-estar em várias ocasiões, mas todas as vezes ia ao pronto-socorro, tomava medicamentos para amenizar os sintomas e era mandada de volta para casa. Até que, um dia, um nefrologista a atendeu. O caso era grave, disse o médico, e Maria corria o risco de ter falência renal.

Desde pequena, a professora tinha a saúde frágil. Passava mal constantemente e, quando teve sarampo, a mãe achou que a menina não fosse sobreviver. “Nos exames, descobriram que eu tinha hepatite autoimune, ou seja, meu próprio organismo atacava meu fígado”, detalha. “Disseram que eu convivia com essa doença desde sempre, mas que ela é assintomática e sem dor. Só aparece quando a imunidade está baixa.”

Ela, então, deu início ao tratamento para estabilizar a doença até que o órgão que a salvaria estivesse disponível. Mesmo abatida, Maria não parou de dar aulas. Precisava, ainda, encontrar forças para tomar conta dos dois filhos, que tinham 13 e 8 anos à época. O tempo passou e, em 2013, a professora pediu uma licença de um ano no trabalho. “Alguma coisa me dizia que eu iria conseguir meu transplante naquele ano”, justifica.

Após a ligação do hospital, Maria estava eufórica. Ligou para quem tinha que ligar, chorou com quem tinha que chorar. Acompanhada da filha, só pensava em agradecer. “Tive muito medo de morrer e deixar meus filhos sozinhos”, relembra. “Tive uma separação muito difícil, na qual ouvi que ele não queria ficar ao lado de uma pessoa doente. Meus filhos foram a minha salvação.”

A recuperação foi longa e dolorida. Debilitada, cansada e deprimida, Maria chegou a pensar que talvez teria sido melhor continuar do jeito que estava. “Só tenho a dizer a todos os transplantados que essa sensação passa”, comemora.

Quando cruzou a linha de chegada da Meia Maratona do Rio, em 22 de junho de 2019, Maria lembrou-se de tudo que tinha passado: a perda do pai, a doença da mãe, o fim do casamento, a dolorosa e lenta recuperação. Hoje, totalmente recuperada, faz parte do grupo de corrida Superação, formado por mais de 60 pacientes bariátricos e transplantados.

Agora, o plano de Maria é nunca mais parar de correr. Em dezembro, vai participar da Corrida Internacional de São Silvestre, em São Paulo. “Meu sonho é correr fora do Brasil, quem sabe, na olimpíada de transplantados”, completa. “Hoje, sou só gratidão e vontade. O transplante me permitiu uma nova vida. Mesmo com tudo o que passei, sou uma pessoa feliz. Me reergui.”

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