Amor que transborda por ela. Nenhuma dor é maior que o afeto por Lúcia

Diagnosticada com ELA há seis anos, Lúcia é exemplo de superação, maternidade, liderança feminina e amor pela família

Jacqueline Lisboa/Especial para o MetrópolesJacqueline Lisboa/Especial para o Metrópoles

atualizado 13/05/2019 6:59

Mulher forte, resiliente e de sorriso fácil, Lúcia Maria Fernandes Pinheiro, 64 anos, nasceu em uma família tradicional na pequena Dores do Indaiá, em Minas Gerais. Mas foi em Brasília, cidade que escolheu para marcar sua história, que casou, teve três filhos, construiu uma carreira de mais de 30 anos no Banco Central e fez laços de amizade.

Em 2014, foi diagnosticada com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), do tipo bulbar. A doença ataca o sistema nervoso, enfraquecendo os músculos e afetando as funções físicas. Aos poucos, a economista e pedagoga foi perdendo a fala e a habilidade de engolir alimentos. Posteriormente, a paralisia progrediu e afetou as vias respiratórias e a mobilidade. No ano passado, passou a se locomover na cadeira de rodas e, atualmente, vive condicionada a aparelhos para respirar e se alimentar.

As filhas Renata Pinheiro, 39 anos, e Camila Pinheiro Albuquerque, 32 anos, contam que a descoberta da doença, e suas complicações, exigiram adaptações, mas não afetaram a rotina da família. “Eu vejo muita gente falando que nós somos uma inspiração, pelo amor e carinho que damos à nossa mãe e uns aos outros. Existem famílias em que a doença precisa chegar para unir as pessoas, mas a gente já era assim. É claro que com as dificuldades acabam florescendo muito mais o amor e o carinho. É fácil amar quando está tudo bem, mas isso já era nosso e quem nos ensinou isso foi minha mãe e meu pai”, divide a publicitária Renata.

Atualmente Lúcia conta com o apoio diário de cuidadoras e enfermeiras, além do marido, Eduardo Lutz, 66 anos. Aos finais de semana, as filhas se revezam nos cuidados. Outra ajudante muito especial é a neta Maria Fernanda, filha de Camila e xodó oficial da avó. “Com apenas 2 anos, ela adora cuidar da vovó. Passa cremes, faz massagens para atenuar as dores, limpa os lábios dela e penteia o cabelo”, afirma a jornalista, orgulhosa.

Lúcia não deixa que a doença a abale. Continua presente, orientando, zelando e cuidando das filhas e da neta. “Mesmo com dificuldades motoras, minha mãe não parou de abraçar, beijar, acariciar e colocar a Maria Fernanda para dormir, à sua maneira”, revela Camila.

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Lúcia com a neta Maria Fernanda

 

Legado de positividade e união
Executiva de carreira e líder nata, Lúcia atuou em cargos de gestão no departamento internacional do Banco Central. Ao longo de três décadas, viveu uma rotina de cursos, negociações e viagens por todo o mundo. Mas de todas as responsabilidades e funções que ocupou, a preferida foi ser mãe.

“Uma das coisas que mais marcou a minha infância, era que, todo dia, minha mãe saía do Setor Bancário Sul para ir ao Lago Norte almoçar com a gente. Ela ficava meia hora sentada com a família e encarava 40 minutos de trânsito para estar lá. Fora os fins de semana, que sempre passávamos juntos”, relembra Renata.

A filha caçula, Camila, complementa que Lúcia sempre foi expansiva, calorosa e hospitaleira. “Ela é o elo, sempre foi. Gosta de reunir as pessoas, manter todos juntos, celebrar as datas, se fazer presente, ter a casa cheia. É o tipo de mãe que sempre foi convidada para os aniversários e casamentos dos amigos das filhas – mais recentemente, para batizados e aniversários de crianças”, confirma Camila. “Minha mãe sempre foi muito ativa e presente, seja na família, no trabalho ou na sociedade”, completa a jornalista.

Renata compartilha que o principal ensinamento da mãe é viver bem a vida. “Têm os tempos ruins, têm as tempestades, mas há, também, a hora que vai florescer. Tudo tem seu tempo e ela nos ensinou a viver muito bem cada momento.”

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Lúcia é reconhecida por todos por sua personalidade forte, sorriso fácil e bom humor

 

Mulheres que se cuidam
Um dos períodos mais sensíveis desde a confirmação do diagnóstico foi quando Camila descobriu sua primeira gestação. Ela recorda o quanto foi importante o suporte emocional de Lúcia até depois do nascimento da filha e afirma que se inspira na mãe quando o assunto é maternidade.

“Desejo criar a Maria Fernanda com base no diálogo e no exemplo, assim como minha mãe me ensinou. Sinto que devo passar isso à minha filha. Quero que ela cresça rodeada de amor e apoio, em um ambiente favorável à experiência e à comunicação aberta mas, acima de tudo, de exemplos fortes. Preciso ser exigente. Porque a vida vai cobrar isso dela, e ela precisará lutar e trabalhar.”

Enquanto mulher, olhar para minha mãe é muito forte. Chega até a ser desafiador, porque me pego pensando que quero ser igual a ela. É isso. Quando eu crescer, sonho em ser igual a minha mãe, pois me espelho nela todos os dias. 

Camila Pinheiro Alburqueque

Renata afirma, ainda, que o amor que as filhas demonstram nada mais é do que uma forma de retorno pelo que a mãe fez. Um círculo de apoio e amor feminino. “No início, foi difícil para ela aceitar ser cuidada porque sempre foi muito independente. Falávamos: você amou a vida inteira agora permita-se ser amada ainda mais. Servir é um ato de amor”, define. “A verdade é que é um prazer cuidar dela”, completa.

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Com movimentos limitados, ela se comunica com o balançar dos dedos e pelo Whatsapp

 

Agora servidora pública aposentada, ela faz questão de seguir com as atividades favoritas. No final de 2018, viajou para São Lourenço do Sul (RS), onde acompanhou o casamento de um sobrinho. Na sequência, aproveitou para fazer um roteiro de férias pelo Uruguai com a família.

“Ela queria sentir o mar e a levamos, com cadeira de rodas de tudo. Foi uma delícia”, conta Camila. “Apesar de sentir falta de ouvir a voz dela e sentir seu abraço, o legado que minha mãe deixa é o de ser forte, valente e dar sempre o seu melhor”, finaliza Renata.

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Renata, Camila, Lúcia e Maria Fernanda Fernandes

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