“Eu voltei da morte 21 vezes. A vida é o aqui e agora”

Alexandre Barroso, 60 anos, sobreviveu a 2 transplantes de fígado e um de rins. Hoje percorre o país motivando pessoas para doação de órgãos

Vinícius Santa Rosa/MetrópolesVinícius Santa Rosa/Metrópoles

atualizado 24/07/2019 12:06

A história do publicitário Alexandre Barroso, de 60 anos, é daquelas que renderiam um bem-sucedido filme, sucesso de bilheteria, sobre amor e superação. Em suas próprias palavras, ele voltou da morte 21 vezes – situações em que teve o estado de coma revertido depois de intercorrências hospitalares.

Há 10 anos, depois de sentir dores incessantes na barriga durante três dias, resolveu ir ao médico e descobriu que seu fígado estava em em estado de putrefação, com três nódulos cancerígenos bastante desenvolvidos. Os médicos avisaram: “Você precisa de um transplante. Se não receber um novo fígado, terá apenas sete dias de vida”.

O publicitário conviveu com a sentença de morte durante dois anos, até 2010, quando um fígado compatível que havia sido de um senhor de 61 anos chegou. “Toda semana, eu me despedia da família e dos amigos. Pensava: só duro até a próxima”, conta, bem-humorado.

O novo fígado, entretanto, entrou em falência cerca de um ano depois de ter sido implantado. “Passei a fazer diálise e tive que retornar para fila”, relata. Nesse meio-tempo, os rins de Alexandre também pararam de funcionar por causa da sobrecarga e, desta vez, ele precisava do transplante de dois órgãos compatíveis para seguir vivendo. “Eu praticamente morava no hospital. Conhecia todo mundo. Recebia alta e, logo depois, estava de volta.”

No fim de 2010, o publicitário foi liberado para passar as festas de fim de ano com a família. Mas, já no dia 26 de dezembro, voltou ao Hospital Albert Einstein, em São Paulo, porque passara mal em casa. “Na porta do hospital, desfaleci. Ao longe, eu ouvia apenas os médicos da emergência gritando ‘Ele está morrendo, ele está morrendo!’”.

O paulistano ficou inconsciente durante três dias, respirando com a ajuda de máquinas, e nesse período viveu uma experiência de quase morte. O episódio deu nome ao livro que Alexandre lançou em 2018: A última vez que morri (R$ 35, o valor ajuda a bancar os custos das palestras dele sobre a importância da doação de órgãos). A obra é um relato de sua trajetória de resiliência.

Quase morte
Durante a experiência de quase morte, Alexandre relata que estava na unidade de terapia intensiva, não conseguia fazer qualquer movimento com o corpo – nem abrir os olhos, era como se fosse um vegetal. Tudo estava escuro mas, em vários momentos, ele conseguia ouvir a equipe do hospital conversando. “Eu não sabia direito onde estava, sentia apenas que estava indo embora e, em dado momento, comecei a fantasiar sobre meu enterro, quem estaria no local, como seria”. O publicitário lembra de ter se preocupado se os familiares colocariam flores em seu caixão pois ele têm alergia ao cheiro.

Um de seus três filhos foi ao hospital visitá-lo e perguntou ao médico: “Meu pai não gostaria de viver assim. Quando vocês pretendem desligar as máquinas?”. O médico respondeu: “Seu pai tem funções neurológicas, está respirando e o coração dele está batendo. Não vamos desligar as máquinas.”

Ao ouvir isso, Alexandre percebeu que ainda tinha chances de viver e, então, passou a fazer um esforço mental enorme para voltar à consciência. Três horas após a visita do filho, ele acordou do coma. Sem conseguir falar e com braços e pés amarrados – medida de segurança para evitar quedas, ele se remexia na cama insistentemente para que os profissionais de saúde percebessem que estava recobrando a consciência. Foi quando uma técnica de enfermagem notou que, com os olhos, ele mirava uma folha de papel. Com a folha e uma caneta nas mãos, Alexandre conseguiu rabiscar: “Estou vivo, porraaaaaaaaaaaaa”.

 

Falar de amor
Cerca de seis meses depois dessa experiência, em junho de 2011, chegaram o fígado e os rins que Alexandre esperava: foram de uma menina de 13 anos. “Agradeço imensamente à família dos meus doadores. Eles me deram, no mínimo, mais 10 anos de vida. Também possibilitaram que eu transformasse imensamente os propósitos que tinha para a minha existência”, relata.

Desde que entrou para o mundo das pessoas que esperam por um órgão ou que receberam transplantes, Alexandre se tornou um ativista da causa – seja realizando palestras de sensibilização, seja providenciando remédios imunossupressores para quem não consegue comprá-los ou oferecendo palavras de acolhimento para os que estão desesperançados.

Com ajuda da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), ele tem percorrido o país para falar aos profissionais de saúde sobre a importância deles na sensibilização das famílias para a doação de órgãos. “Você sabia que no Brasil é mais fácil você precisar de um órgão do que ser um doador? É urgente invertermos esta lógica.” Para o publicitário, tudo que ele viveu até aqui teve o propósito de fazê-lo falar de amor. “Eu me sinto um mensageiro do amor. A vida é o aqui e agora, e precisamos falar sobre nossos sentimentos para as pessoas que amamos”, destaca.

Alexandre explica que uma grande dificuldade para aumentar o número de transplantes no país é o aceite da família dos doadores. “É importante dizer aos seus familiares que esta é a sua vontade. Em qualquer momento da vida, é importante fazer esta declaração”, afirma.

O nome do projeto de Alexandre Barroso com a Abear é Jornada Asas do Bem. As empresas aéreas, junto com o Ministério da Saúde, a Central Nacional de Transplantes e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo, mantêm o projeto Asas do Bem, no qual fazem o transporte gratuito de órgãos para transplantes. Quando acionadas pela central de transplantes, o avião com horário de voo mais próximo transporta o órgão retirado do doador para o destino onde o receptor reside.

Em 2018, cerca de 8,7 mil itens para transplante (órgãos, tecidos, equipes médicas, entre outros) foram transportados gratuitamente por aviões, sendo que aproximadamente 80% deste volume foram transportados por empresas associadas à Abear.

O Brasil tem 33.984 pessoas à espera de um transplante. No DF, elas são 733, de acordo com o último boletim da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos.

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