Dieta low carb pode ajudar na prevenção de doenças neurodegenerativas

Estudo mostra que diminuir o consumo de carboidratos ajuda a gerar mais energia para os neurônios e o funcionamento do cérebro

atualizado 17/09/2020 21:17

KatarzynaBialasiewicz/istock

Dieta queridinha entre nutricionistas para a perda de peso, a low carb pode trazer benefícios além dos resultados estéticos. De acordo com um estudo da Universidade Stone Brook, de Nova York, a técnica de se alimentar com restrição de carboidratos tem potencial para prevenir doenças neurodegenerativas, como o mal de Alzheimer e outras demências (problemas de esquecimento, déficit cognitivo e problemas de memória), e reverter alguns quadros iniciais.

Ao fazer a análise de neuroimagens do cérebro de mais de mil pessoas, entre 18 e 88 anos, os pesquisadores da instituição norte-americana notaram que é possível evitar mudanças neurobiológicas associadas ao envelhecimento do cérebro, que podem levar a falhas cognitivas, com a diminuição do consumo de carboidratos simples (açúcar).

Os voluntários passaram duas semanas em observação, em uma delas tiveram dieta sem restrições e na outra houve baixa quantidade de carboidratos. Na primeira semana, o principal combustível metabolizado foi a glicose, e na segunda, as cetonas – moléculas produzidas no fígado por meio da metabolização da gordura, capazes de gerar energia alternativa para o corpo.

“Para isolar glicose e cetonas como a diferença crucial entre as dietas, um conjunto independente de participantes foi examinado antes e depois de beber uma pequena dose de glicose em um dia e cetonas no outro, onde os dois combustíveis pesavam individualmente”, explica o estudo.

Para entender melhor como a dieta influencia o envelhecimento cerebral, a equipe da professora Lilianne R. Mujica-Parodi, principal autora do trabalho, se concentrou no período pré-sintomático, quando a prevenção pode ser mais eficaz. Ela observou que a comunicação funcional entre as regiões do cérebro se desestabiliza com a idade, normalmente no final dos 40 anos.

Os pesquisadores observaram que os efeitos do envelhecimento do cérebro surgem aos 47 anos, com a degeneração mais rápida ocorrendo aos 60. “Mesmo em adultos mais jovens, com menos de 50 anos, a cetose alimentar (seja alcançada após uma semana de mudança dietética ou 30 minutos após beber cetonas) aumentou a atividade cerebral geral e estabilizou as redes funcionais. De acordo com o estudo, isso é possível pois as cetonas fornecem mais energia às células do que a glicose, mesmo quando os combustíveis são caloricamente combinados”, acrescentaram.

O estudo mostra que os neurônios das pessoas que têm algum déficit cognitivo parecem ter mais dificuldade de usar glicose (produto da ingestão dos carboidratos) do que as cetonas ou corpos cetônicos como fonte de energia.

O médico e diretor-presidente da Associação Brasileira Low Carb (ABLC), José Carlos Souto, explica que, quando nos alimentamos, o organismo usa fundamentalmente a glicose, mas quando ela não está disponível, “vira a chavinha” e começa a usar a gordura e as cetonas.

Segundo Souto, o cérebro não consegue usar a gordura com tanta eficiência porque ela é uma molécula grande que não atravessa a barreira que existe entre o sangue e o cérebro, aí entram as cetonas. “O corpo desenvolveu o mecanismo de fazer os corpos cetônicos, que são moléculas pequenas feitas a partir da gordura, e esses atravessam a barreira hematoencefálica e conseguem nutrir o cérebro”, explica.

Limitações
O estudo tem algumas limitações, como o curto prazo de observação dos pacientes e o fato de não ter sido realizado com um grupo de controle – com uma parte dos voluntário seguindo a dieta low carb e a outra usando a dieta normal para comprovar a diferença nos resultados –, mas traz esperança uma vez que reforça a existência de uma correlação entre diabetes, pré-diabetes, resistência à insulina e o desenvolvimento de déficits neurológicos, como o mal de Alzheimer e outras demências.

“A gente sabe que a low carb ajuda a reverter diabetes, pré-diabetes, síndrome metabólica e resitência à insulina. Como essas coisas todas estão associadas ao desenvolvimento de Alzheimer e déficit cognitivo, a gente entende que esse novo estudo é mais uma evidência sugerindo que, adotando um estilo de vida saudável, a gente possa reduzir o risco de desenvolver essas coisas”, diz Souto.

 

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