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Saúde

Deveríamos estar preocupados com o avanço da gripe aviária H5N1?

Nos últimos meses, milhões de aves morreram por conta do vírus H5N1. Estudo mostra que patógeno está evoluindo para afetar mamíferos

12/02/2023 02:00, atualizado 12/02/2023 09:05
Divulgação
Fotografia de um galinheiro lotado - Metrópoles - gripe aviária

Nos últimos meses, o mundo tem registrado vários casos de gripe aviária H5N1 em aves. O patógeno responsável pela infecção tem se espalhado por pássaros migratórios e já afetou algumas granjas. Em 2022, só nos Estados Unidos, 58 milhões de aves foram infectadas e morreram.

Em aves, o H5N1 é bastante perigoso — a taxa de mortalidade em frangos e galinhas é de 90% a 100%, e existe a prática de sacrificar animais expostos ao vírus para evitar a sua disseminação.

De acordo com a agência de notícias Deutsche Welle, o vírus provavelmente já está nas Américas Central e do Sul, já que foram encontrados 240 pelicanos mortos em Honduras na última semana e há casos da doença registrados no Peru, Venezuela, Equador e Colômbia.

O H5N1 foi identificado pela primeira vez em 1996, na China, e infecta principalmente galinhas e outros tipos de aves. O vírus está em circulação desde então, mas vem chamando a atenção da comunidade científica atualmente não só pela quantidade de animais contaminados, mas por ter conseguido infectar pequenos mamíferos, como visons.

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Um estudo publicado na revista científica Eurosurveillance, em janeiro de 2023, alerta que o vírus já sofreu oito mutações, inclusive uma no gene PB2, que pode tornar o patógeno mais transmissível em mamíferos. Uma mutação neste mesmo gene foi identificada no H1N1, o vírus da gripe suína que causou uma pandemia em 2009. A pesquisa acrescenta que o H5N1 infectou visons e os pequenos mamíferos foram capazes de transmitir o vírus entre si.

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Em humanos, por enquanto, a transmissão é complicada. É preciso contato próximo com animais infectados, e não há relato de contaminação entre pessoas. Em janeiro de 2023, a Organização Mundial de Saúde (OMS) foi alertada sobre o caso de uma jovem equatoriana infectada, mas nenhum de seus parentes teve a doença. A menina se recupera bem.

Para o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o risco de uma pandemia causada pelo H5N1 é baixo, mas é importante que a comunidade internacional esteja atenta à possibilidade de infecção de mamíferos. “É um vírus que está rodando há 25 anos, mas o salto para mamíferos precisa ser acompanhado. Não vimos transmissão sustentada entre humanos até hoje, mas precisamos alertar a população para não tocar ou coletar animais doentes ou mortos”, alertou, em entrevista coletiva nessa quarta (8/2).

Sylvie Brian, diretora de preparação para pandemias e epidemias da OMS, explicou na coletiva que, por enquanto, o vírus segue sendo zoonótico, ou seja, só circula entre animais.

“É um vírus bem adaptado para animais. Entre humanos, a transmissão é rara, a não ser por contato muito próximo. Mas, pela característica do vírus, precisamos ficar vigilantes e garantir que o H5N1 seja controlado, sem dar possibilidade de ele evoluir e se tornar transmissível em humanos”, afirmou a diretora.

Ela conta ainda que, como acontece com outros vírus zoonóticos, quando o H5N1 infecta humanos, costuma causar muito dano aos pulmões e desencadear um quadro grave. A taxa de mortalidade entre infectados é de 30% a 50%.

Vírus conhecido

O professor da Universidade de Brasília (UnB) Bergmann Ribeiro, especialista em vírus, explica que os vírus influenza recebem a denominação H e N de acordo com o tipo de duas proteínas, a hemaglutinina e a neuraminidase. As substâncias ficam na superfície do patógeno, assim como acontece com a spike no coronavírus, por exemplo.

Existem vários tipos de hemaglutininas e neuraminidases, por isso os vírus recebem denominações como H5N1, H1N1, H3N2, etc. “Outro ponto importante sobre essa família é que ela tem o genoma dividido em oito pedaços, que podem ser trocados com outros tipos de influenza. Essa recombinação pode causar mutações diferentes que aumentam a probabilidade de o vírus começar a infectar humanos“, conta o professor.

Um animal infectado com dois tipos de influenza, por exemplo, pode representar a situação ideal para que os vírus troquem informações que favoreçam a sua sobrevivência futura. Essa é uma possível explicação para a adaptação do vírus nos visons infectados na Europa.

Ribeiro afirma que há, sim, a possibilidade de o H5N1 causar uma nova emergência global de saúde pública, principalmente considerando que o influenza já foi responsável por quatro pandemias ao longo da história. Porém, por enquanto, ele é um vírus zoonótico, que afeta primordialmente animais e pode ter grande impacto na agricultura, mas não na saúde pública.

Ele ressalta ainda que, há cerca de 70 anos, 150 países (incluindo o Brasil) fazem vigilância dos tipos do vírus influenza em circulação. Se o H5N1 começar a infectar uma quantidade grande de pessoas, será detectado logo no início.

E, mesmo se o vírus sofrer mutações suficientes para garantir a transmissão entre humanos, o professor da UnB afirma que é possível produzir uma vacina rapidamente. “Estamos preparados caso o vírus influenza vire pandêmico novamente. Em 1918, na gripe espanhola, morreram 50 milhões de pessoas. Mas nas pandemias seguintes, diminuímos consideravelmente a quantidade de óbitos e, em 2009, foram 300 mil mortos. É um vírus que, mesmo com as modificações, está circulando há muitos anos e já temos até alguns anticorpos para combatê-lo”, explica Ribeiro.

Ainda assim, a OMS diz estar trabalhando com organismos internacionais de saúde animal para tentar resolver o surto entre aves antes que o H5N1 se adapte o suficiente para ser transmitido entre humanos.

“Não é preciso se preocupar, as autoridades estão fazendo o que podem para evitar que esse vírus se torne um problema maior”, afirmou o diretor de emergências da OMS, Michael Ryan.

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