
Na força do grito: como a torcida afeta o mental dos atletas na Copa
A reação da torcida na arquibancanda pode fazer jogadores tomarem decisões melhores ou piores dentro de campo

O placar de um jogo de futebol é influenciado por diversos fatores e, mesmo não entrando literalmente em campo, a força da torcida com certeza é um deles. Por se tratar da maior competição entre países, o sentimento de pertencimento entre os torcedores durante a Copa do Mundo tende a aumentar e a consequência é uma arquibancada mais efusiva, mas também mais nervosa, já que cada vitória deixa a equipe mais perto do título.
Se engana quem pensa que os jogadores ficam alheios aos sentimentos e sensações emanados pelos torcedores. Segundo especialistas entrevistados pelo Metrópoles, o apoio positivo vindo da arquibancada ajuda a melhorar aspectos importantes no desempenho dos atletas, como motivação, foco atencional e autoconfiança.
“As emoções coletivas são contagiosas, ainda mais em uma Copa do Mundo. Quando o ambiente transmite entusiasmo e incentivo, os atletas podem experimentar maior energia emocional e disposição para enfrentar situações de pressão”, afirma a psicóloga Flávia Marsola, do Hospital Brasília Águas Claras.
A influência dos torcedores foi bastante percebida na pandemia de Covid-19, período em que estádios ficaram vazios durante os jogos devido à política de isolamento da época. O impacto foi sentido especialmente pelos times mandantes, que, mesmo atuando em casa, não recebiam o apoio da torcida, tornando os duelos mais neutros.
À época, muitos resultados incomuns ocorreram, sejam vitórias e derrotas inesperadas ou até partidas repletas de gols. A depender da influência da torcida no mental dos jogadores, alguns melhoraram o desempenho e outros pioraram.
“Estudos mostram que a torcida a favor tende a funcionar como fator motivacional para a maioria dos atletas entrevistados, porém essa influência também depende da forma como ele interpreta o ambiente. Outro estudo recente com dados do Campeonato Brasileiro mostrou que, nos jogos sem torcida, os mandantes tiveram redução de desempenho, tendo obtido menos pontos do que os esperados em comparação ao cenário com torcida”, destaca a psicóloga Larissa Maciel, mestra em educação física e professora da Universidade Católica de Brasília (UCB).
Energia da arquibancada também pode ter efeito negativo
Por outro lado, as reações da torcida nem sempre geram experiências positivas nos atletas. Caso o jogador não esteja preparado mentalmente, xingamentos e vaias vindas da arquibancada podem causar uma queda no desempenho devido à preocupação excessiva com as críticas.
Em campo, os atletas precisam tomar decisões rápidas para passar, chutar ou conduzir a bola. Quando o foco do jogador é desviado pela preocupação excessiva com as cobranças, a tendência é que ele tome mais decisões erradas na partida.
Por ser a maior competição de futebol do mundo, a pressão por desempenho na Copa do Mundo pode tornar os efeitos ainda mais negativos. Basicamente, disputar o torneio depende bastante do mental e as consequências das reações vindas da torcida ficam no “8 ou 80”: ou trazem muita motivação ou farão com que o jogador fique nervoso.
“A torcida prejudica quando passa a ocupar espaço demais na cabeça do jogador. Em um megaevento como a Copa do Mundo, a pressão da torcida pode pesar muito. O jogador sabe que o erro não vai terminar no estádio, ele vira replay, análise, crítica, piada na internet e memória”, explica Larissa.
Como transformar o grito da torcida em motivação e não em pressão
Para disputar uma Copa, não basta estar preparado fisicamente e com as habilidades em dia. A saúde mental de fato entra no gramado e pode fazer diferença, especialmente nas fases decisivas da competição. Por isso, nos últimos anos, a psicologia esportiva tem ganhado tanto espaço no futebol.
Segundo Flávia, trabalhos com jogadores de futebol utilizam técnicas de regulação emocional, treinamento atencional, exercícios de respiração, visualização mental e desenvolvimento de rotinas pré-competitivas.
“Também é comum trabalhar a capacidade de focar naquilo que está sob controle do atleta, como esforço, posicionamento, tomada de decisão e execução técnica”, diz a especialista.
Outro fator importante é a união do time. Para Larissa, uma equipe coesa consegue distribuir melhor a pressão em campo, ajudando no desempenho e transformando-a em motivação. “Os líderes em campo organizam, chamam para o jogo, reduzem o isolamento emocional e impedem que um atleta fique sozinho com o peso da arquibancada”, conclui.

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