Com pulmão pela metade, servidora aposentada vai à São Silvestre

Mesmo sem fumar, Cláudia Lopes desenvolveu câncer de pulmão e convive com a fase metastática da doença há cinco anos

atualizado 30/11/2019 20:09

VINÍCIUS SANTA ROSA/METRÓPOLES

Em cerca de 85% dos casos diagnosticados, o câncer de pulmão está associado ao consumo de derivados de tabaco, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Cláudia de Souza Lopes, 54 anos, faz parte dos 15% dos pacientes que desenvolveram a doença sem nunca ter tragado um único cigarro.

Além de não ser fumante, a servidora pública aposentada sempre investiu em alimentação saudável e pratica exercícios físicos regularmente. Inclusive, quando sentiu os primeiros sintomas do câncer, em outubro de 2014, Cláudia estava finalizando uma prova de corrida de 10km. “Comecei a passar mal, a vomitar e a ter dor abdominal”, relembra.

Suspeitando de apendicite, ela procurou atendimento médico. No hospital, uma tomografia do abdômen mostrou, por acaso, um pedaço do pulmão direito. “O médico disse que tinha visto algo de estranho nesse pedacinho do pulmão e decidiu me internar, para investigar melhor”, detalha.

Após exames posteriores, veio o diagnóstico. “O médico disse que detectou por acaso. Se o tumor estivesse na parte superior do pulmão, ele provavelmente não teria sido descoberto naquele momento, somente quando os sintomas se agravassem.”

De fato, as estatísticas não estavam a favor de Cláudia. O Inca estima que apenas 16% dos cânceres são diagnosticados em estágio inicial (câncer localizado), para o qual a taxa de sobrevida de cinco anos é de 56%. “Foi coisa de Deus mesmo, que fez o tumor aparecer justamente naquela imagem, naquele momento”, diz.

No dia seguinte, novos exames trouxeram outras más notícias: além do tumor no pulmão, Cláudia estava com tumores no intestino. Ambos com grandes chances de serem malignos. Em novembro, ela recebeu a confirmação de que o tumor no pulmão era maligno, porém a biópsia do intestino foi inconclusiva.

Cláudia foi, então, submetida a uma cirurgia para a retirada do lobo inferior direito do pulmão. Na operação, os médicos retiraram cerca de 40% do órgão.

Graças à prática de atividade física, a recuperação de Cláudia foi acima da média. Contudo, uma nova biópsia detectou outros tumores em seus linfonodos pulmonares, também conhecidos como gânglios linfáticos. Por conta disso, em janeiro de 2015, ela deu início ao primeiro de quatro protocolos de quimioterapia.

Em fim, uma boa notícia: o tumor no intestino era benigno, mas, ainda assim, precisaria ser retirado. Nova cirurgia. “Essa foi a mais complicada. Tive infecção e precisaram refazê-la”, relembra Cláudia. “Nessas horas você repensa a vida toda. Mo quanto ela é finita e a gente vai levando como se fosse uma certeza de que vamos ficar velhinhos. Não é bem assim.”

Assim que a quimioterapia acabou, Cláudia voltou a correr. Mesmo sem grande parte do pulmão direito, ela conta que conseguiu recuperar o antigo desempenho e não teve perda respiratória. Segundo os médicos, os créditos também foram da atividade física regular.

Estilo de vida que vale a pena

Após as cirurgias e as sessões de quimioterapia, Cláudia voltou à vida normal. Em meados de 2016, contudo, suas taxas de CEA (Antígeno Carcinoembrionário, um marcador tumoral) começaram a subir. A taxa não parou de aumentar durante todo 2017 e, em 2018, Cláudia descobriu o motivo: o câncer pulmonar estava de volta. “Só que, agora, eu estava com câncer nos dois pulmões, além de numerosos nódulos bilaterais pequenos”, detalha.

Por serem numerosos e muito pequenos, os nódulos do pulmão esquerdo eram inoperáveis. Uma biópsia, feita nos Estados Unidos, revelou que o tumor de Cláudia possuía algumas mutações e fusões raras, como o receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR), uma proteína encontrada na superfície das células, que pode estar ativado em algumas células do pulmão, fazendo com que elas cresçam mais rapidamente.

Isso permitiu que os médicos trocassem o tratamento com quimioterapia e imunoterapia por uma medicação oral. Em agosto de 2019, Cláudia completou um ano com esse tratamento.

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No início do ano, Cláudia impôs para si mesma a meta de correr a Corrida Internacional de São Silvestre, no dia 31 de dezembro. Para se preparar, ela se matriculou em um clube de corrida e, desde então, participou de duas corridas de 10km e uma de 15km. “Também faço musculação duas vezes por semana e corro três vezes por semana”, conta.

Atualmente Cláudia sente-se bem, embora alguns poucos efeitos colaterais, como unhas e cabelos quebradiços, a incomodem. “Sempre tive uma alimentação saudável e, depois do câncer, passei a ficar mais atenta ainda. Procuro comer alimentos orgânicos, diminui o consumo de embutidos e industrializados e fico de olho nos rótulos, para não comprar nada com muita química.”

Depois da doença, além dos cuidados com o corpo, Cláudia introduziu na rotina os cuidados com a mente. Passou a fazer terapia e meditação, segundo ela, para “ajudar o corpo a brigar”. “Sempre fui uma pessoa estressada, ansiosa. Resolvia os problemas dos outros como se fossem meu”, descreve. “Sempre quis mostrar para eles que sou forte.”

Ao contrário do que seria esperado, quando descobriu que estava com câncer mesmo com um estilo de vida tão saudável, Cláudia não se sentiu injustiçada. “Qualquer pessoa pode ter a doença, sendo saudável ou não. Mas, se você tem hábitos não saudáveis e o câncer aparece, você, de certa forma, já sabotou seu corpo antes”, avalia. “Quem é saudável tem mais condições de lutar contra ele.”

Câncer de pulmão em pacientes não tabagistas

Fernando Moura, oncologista do hospital Albert Einstein, explica que casos de pacientes não fumantes com câncer de pulmão não são raros, embora não sejam a regra. Múltiplos fatores, sejam hereditários, ambientais ou aleatórios (chamados de esporádicos na medicina) podem contribuir para o desenvolvimento da doença, segundo o médico.

De acordo com o Inca, além do cigarro, a exposição à poluição do ar, infecções pulmonares de repetição, deficiência e excesso de vitamina A, doença pulmonar obstrutiva crônica (enfisema pulmonar e bronquite crônica), fatores genéticos e história familiar de câncer de pulmão favorecem o desenvolvimento desse tipo de câncer.

As mutações, como no caso de Cláudia, entram no rol de alterações esporádicas, ou seja, que fogem do controle e que não têm explicação. Fernando Moura explica que, a partir de exames conhecidos como painéis moleculares, é possível detectar as mutações que existem no DNA das células e podem originar tumores.

Dessa forma, é possível aplicar a chamada terapia-alvo molecular: um tratamento personalizado, em que são usados medicamentos específicos, feitos com base no perfil genético de cada tumor. Diferentemente da quimioterapia convencional, que ataca as células de maneira generalizada, a terapia-alvo foca nas células com alterações genéticas específicas. “O paciente ingere um comprimido que procura bloquear as vias que levam ao desenvolvimento do câncer”, explica Fernando. “É um tratamento mais eficiente, tem menos efeitos colaterais e dá ganho em tempo e qualidade de vida ao paciente.”

Para pacientes com câncer de pulmão que não fumam, o painel genético é ainda mais importante. “O sequenciamento molecular é ainda mais indicado se a doença for metastática, pois as chances de encontrarmos um tratamento molecular e menos tóxico são maiores”, diz o oncologista.

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