Cego desde os 35, André redescobre a vida com óculos especiais

O servidor público perdeu a visão aos poucos até não conseguir mais executar tarefas simples. Agora, a tecnologia o ajuda no cotidiano

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 19/05/2019 11:18

O servidor público André Luís Gomes Machado, de 49 anos, foi diagnosticado aos 24 anos com retinose pigmentar, uma condição degenerativa que afeta a retina dos olhos. Aos poucos, o mal foi lhe roubando a capacidade de enxergar à noite, a amplitude da visão e, por fim, a possibilidade de reconhecer os detalhes das imagens. Hoje, passados 14 anos desde que sua visão chegou ao pior estágio, ele redescobre o prazer de enxergar usando óculos especiais.

A retinose pigmentar tem graus e pode levar a pessoa à cegueira total. No caso de André, ele vê contrastes e vultos porque ainda possui alguma percepção de luminosidade, mas a visão central está totalmente comprometida. “No trabalho, eu precisava do apoio da minha equipe para ler e usava um software de leitura, que consegue traduzir apenas alguns formatos de texto”, relembra o servidor público. “Quando as pessoas têm uma deficiência, elas se viram”, afirma.

De fato, a perda de visão não fez André se abater. Aos poucos, ele foi se adaptando, tentando encaixar as atividades que gostava. “Aprendi que a vida é dura para quem é mole, por isso, não me entrego. Encaro como um desafio. A deficiência é um empecilho, mas não me torna um incapaz”, assegura.

No final do ano passado, André ouviu uma matéria na TV que contava a história do deficiente visual Nickollas, fanático pelo Palmeiras. Ele ficou conhecido na internet depois de ser flagrado assistindo ao jogo no estádio enquanto sua mãe narrava a partida em seu ouvido. O menino virou uma espécie de mascote do time, conheceu os jogadores, o centro de treinamento e foi presenteado com um dispositivo de inteligência artificial chamado de OrCam MyEye 2.0.

André sentiu vontade de testar o aparelho e começou a pesquisar sobre a tecnologia envolvida. Logo depois, comprou-o. Os óculos possuem uma pequena câmera, acoplada a uma das hastes, que é capaz de fotografar, escanear e transformar textos em português e inglês em áudios. O dispositivo narra o que o usuário tem diante de si, como se fosse um amigo contando um segredo no ouvido do outro.

O aparelho é capaz de fazer o cadastro e o reconhecimento facial de até 198 pessoas, o que, no caso de André, permite que ele cumprimente os amigos com tranquilidade. Os óculos facilitam tarefas como saber os preços dos produtos nas prateleiras dos supermercados. “Minha vida melhorou 90%. Voltei a fazer algumas coisas que não conseguia, como contar o dinheiro para pagar uma conta, ler livros e usar o computador”, explica.

Desde que adquiriu os óculos, André também está cuidando melhor de sua saúde. Ele relembra que tinha muita dificuldade de tomar remédios por que nem sempre conseguia reconhecer as caixas pelo tamanho. Agora consegue ler os rótulos e até as letrinhas miúdas das bulas. “A minha sensação hoje é de maior segurança. A tecnologia nem sempre é capaz de ajudar a gente naquilo que a gente precisa, mas quando ajuda é bom demais”, comemora.

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