Caso de Fernanda Young mostra que asma pode matar. Conheça a doença

A asma é controlável e possui crises preveníveis. Ainda assim, cerca de 2,1 mil pessoas morrem por ano no Brasil em razão do problema

atualizado 26/08/2019 19:27

A escritora, roteirista, apresentadora de TV e atriz Fernanda Young faleceu devido a uma crise de asma seguida de parada cardíaca no último domingo (25/08/2019). Embora seja amplamente controlável e prevenível, a asma mata – e não é pouco. De acordo com Maria Alenita de Oliveira, coordenadora da Comissão Científica de Asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), cerca de 2,1 mil pessoas morrem por ano no Brasil devido a crises asmáticas. Essas mortes, segundo a pneumologista, poderiam ser evitadas em 90% dos casos.

No mundo, a estimativa é que 300 milhões de pessoas sejam asmáticas, de acordo com dados da SBPT. Aproximadamente 20 milhões desses pacientes estão no Brasil. Maria Alenita explica que a apresentação clínica mais grave da doença é o ataque súbito de asma acompanhado de parada respiratória. “Nas crises de asma fatal e asma quase fatal, há a constrição, ou estreitamento, das vias aéreas e o excesso de produção de muco, o que as entope e impede a passagem de ar”, detalha.

A relação entre asma e coração, segundo Lázaro Fernandes de Miranda, cardiologista do Hospital Santa Lúcia e conselheiro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), é estreita. O médico explica que há dois tipos de asma: a asma brônquica e a asma cardíaca. Enquanto o primeiro tipo é caracterizado por uma hiper-reatividade dos brônquios e bronquíolos a partículas suspensas no ar ou a determinados produtos ou alimentos, a cardíaca acontece devido a o pulmão estar encharcado de líquidos.

A asma cardíaca é um sinal de edema agudo no pulmão, exigindo tratamento imediato, pois pode ser fatal. A asma pode, inclusive, causar problemas cardíacos futuros, como a cor pulmonale. “É uma doença causada por problemas pulmonares e que tem grande repercussão no coração, que tende a crescer especialmente o lado direito, e corre o risco de descompensamento”, diz Lázaro Miranda.

No caso das crises asmáticas, o corpo entra em um processo chamado “bronquioespasmo”, uma inflamação que pode ocorrer gradativamente ou de maneira brusca nas vias aéreas, de acordo com Sérgio Pontes, pneumologista do Instituto OncoVida. A inflamação nos pulmões faz com que os vasos sanguíneos se comprimam, impedindo a passagem do oxigênio e obrigando o corpo a fazer um esforço extra para compensar a queda de oxigenação. “Isso sobrecarrega o organismo, podendo levar a uma parada respiratória e, consequentemente, a uma parada cardíaca”, explica Sérgio Pontes.

A partir daí, o médico detalha que é preciso realizar uma reanimação imediatamente, para tentar restabelecer as condições vitais do paciente. Em casos graves, há grandes chances de internação em UTI, com tratamentos que podem envolver entubamento e respiradores artificiais.

Controle
Mas calma: como já mencionado, a asma é uma doença controlável e com crises preveníveis. “Hoje usamos questionários para saber se a asma do paciente está controlada, parcialmente controlada ou descontrolada. Basicamente, o paciente tem que avaliar questões como a tosse, a falta de ar e o chiado”, detalha Sérgio Pontes. Quem apresenta pelo menos dois desses sintomas e precisa usar pelo menos duas vezes por semana a medicação de resgate (remédios de ação rápida para o controle de crises),  atenção: sua asma está descontrolada ou apenas parcialmente controlada.

A asma fora de controle ou “malcuidada”, inclusive, é um dos principais fatores de risco para crises agressivas da doença. A lista de fatores que podem desequilibrar a condição é extensa. Estar exposto a fatores irritantes – como mudanças climáticas, ácaro ou mofo –, pode servir de gatilho, bem como outras doenças inflamatórias, como rinite e refluxo. Apneia do sono e transtornos psiquiátricos – como depressão e ansiedade –, também podem levar à descompensação da asma.

Sedentarismo e tabagismo estão no topo dos hábitos que precisam ser exterminados da vida de qualquer asmático. “Pais que fumam não só na gestação mas também durante a infância da crianças chegam a aumentar de três a sete vezes o risco de ela desenvolver asma na infância ou na adolescência”, alerta Sérgio Pontes.

O tratamento para asma depende da gravidade da doença e dos sintomas, mas, basicamente, é composto por medicações broncodilatadoras (que podem ser as famosas “bombinhas de ar” ou dispositivos em spray ou pó seco) e corticoide inalatório. “Todo paciente asmático é orientado a ter medicações de resgate em local próximo a ele, para serem usadas em situação de crise”, frisa Sérgio Pontes, pneumologista. “Em boa parte das vezes, ele consegue reverter a crise sem necessidade de ir ao hospital.”

A falta de adesão ao tratamento, de acordo com Maria Alenita de Oliveira, é um dos maiores desafios no controle de mortes por asma. Segundo a SBPT, apenas 30% dos pacientes brasileiros aderem a dispositivos como a bombinha de ar. Uma explicação para os tratamentos malfeitos, de acordo com a médica, é a falta de percepção da gravidade da doença. “Temos que estabelecer uma relação mais próxima entre médico e paciente, para que o profissional explique sobre a doença e suas consequências”, defende ela. “As pessoas subestimam a asma, mas 2 mil pessoas morrendo de uma doença que não é fatal, isso é extremamente preocupante.”

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