Cabeceio no futebol eleva proteínas ligadas a dano cerebral. Entenda
Estudo com jogadores amadores encontrou aumento temporário de proteínas associadas a lesões cerebrais após cabeceios
atualizado
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Cabecear uma bola de futebol faz parte da rotina de qualquer jogador. Mas um novo estudo sugere que mesmo um único lance desse tipo pode provocar alterações detectáveis no corpo.
Pesquisadores do Centro Médico da Universidade de Amsterdã, na Holanda, observaram que apenas uma cabeçada já é suficiente para aumentar temporariamente os níveis de proteínas associadas a danos nas células cerebrais.
A pesquisa foi publicada em 18 de maio na revista JAMA Neurology e analisou amostras de sangue de 302 jogadores amadores de alto nível ao longo de 11 partidas. O objetivo era investigar como o cérebro reage aos impactos repetidos da bola na cabeça e se essas mudanças podem estar relacionadas a problemas neurológicos futuros.
Os resultados mostraram que os atletas que cabecearam a bola apresentaram aumento nos níveis da proteína S100B logo após os jogos. Essa substância é produzida principalmente por células do cérebro chamadas astrócitos e costuma ser utilizada para avaliar lesões cerebrais traumáticas.
Além disso, os pesquisadores observaram aumento de outra proteína, chamada p-tau217, entre os jogadores que realizaram mais de dois cabeceios ou que sofreram impactos mais intensos. A p-tau217 é considerada um dos principais biomarcadores sanguíneos associados à doença de Alzheimer.
O que acontece no cérebro
A proteína tau tem uma função importante nos neurônios, ajudando a manter sua estrutura interna. No entanto, impactos mecânicos podem alterar esse equilíbrio e favorecer o surgimento de formas modificadas da proteína, entre elas a p-tau217.
Segundo os pesquisadores, ainda não está totalmente claro como os cabeceios provocam essas alterações. Uma das hipóteses é que a rápida aceleração e desaceleração da cabeça gere um efeito semelhante ao observado em concussões, embora em intensidade muito menor.
Outra possibilidade é que a própria onda de pressão criada pelo choque da bola contra a cabeça provoque mudanças temporárias nas células cerebrais.
Apesar disso, os níveis elevados das duas proteínas voltaram ao normal entre 24 e 48 horas após as partidas.
Preocupação está na repetição
Os autores ressaltam que os resultados não significam que uma cabeçada cause lesão cerebral grave ou demência. As concentrações observadas ficaram abaixo dos limites normalmente usados para diagnosticar traumatismos cranianos.
Ainda assim, a repetição frequente desses impactos preocupa os cientistas. “Não é o aumento dos biomarcadores em si, mas o que ele reflete, que é preocupante”, afirmou Marsh Königs, professor assistente de neurociência do desenvolvimento no Hospital Infantil Emma do Amsterdam UMC, em comunicado.
Para o pesquisador, o principal questionamento é o que acontece quando esse tipo de impacto ocorre centenas ou milhares de vezes ao longo de uma carreira esportiva.
Estudos anteriores já levantaram a hipótese de que traumas repetidos na cabeça possam contribuir para inflamação cerebral e perda de neurônios ao longo dos anos. O novo trabalho reforça essa preocupação ao mostrar que alterações biológicas podem surgir imediatamente após os cabeceios.
Os autores destacam, porém, que ainda são necessárias mais pesquisas para entender se essas mudanças temporárias realmente se acumulam e aumentam o risco de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, no futuro.