Álbum da Copa: como colecionar figurinhas pode reduzir o seu estresse

Especialistas ouvidos pelo Metrópoles apontam que o simples ato de ter um álbum de figurinhas pode impactar positivamente a saúde mental

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Crescer é um processo que faz parte da vida. Enquanto na infância convivemos com diversas atividades e brincadeiras que nos levam ao bem-estar e ao prazer, a vida adulta surge com demandas e pressões por metas e resultados. Toda essa trajetória é algo natural, mas, segundo os especialistas entrevistados pelo Metrópoles, o estresse da rotina pode ser atenuado com pequenas ações, como colecionar figurinhas de álbum. 

Em tempos de Copa do Mundo, o livro de cromos mais em alta atualmente é o da competição. Considerada uma tradição para o brasileiro, é fácil ver bancas de revistas repletas de crianças, adolescentes e até adultos.

Apesar de ser visto como um “hábito de criança”, colecionar figurinhas pode atingir zonas muito mais profundas no cérebro de um adulto, trazendo bem-estar, conforto e, principalmente, nostalgia. 

“O álbum de figurinhas funciona como uma atividade estruturada e previsível, o que por si só já tem efeito calmante, já que ao organizar, colar e procurar figurinhas, a mente desloca o foco do fluxo ruminativo típico da ansiedade, criando um estado de foco atencional próximo ao mindfulness (atenção plena)”, explica a psiquiatra Renata Verna, do Hospital Santa Lúcia Sul, em Brasília.

Atividades comuns relacionadas à coleção, como completar páginas, encontrar figurinhas raras e fechar o álbum, são capazes de trazer pequenas descargas de felicidade ao atingirem o sistema de recompensa dopaminérgico.

“A atividade promove uma sensação de controle, pois em um mundo imprevisível, tarefas simples e finalizáveis ajudam a reduzir o sentimento de desamparo. Na prática clínica, esse tipo de atividade se encaixa como uma estratégia de autorregulação emocional leve, semelhante a hobbies como pintura, jardinagem ou quebra-cabeças”, diz Renata.

Memória afetiva e melhora da relação social: o álbum é mais que colecionar figurinhas

Dentro das áreas que estudam a saúde mental, tentar completar o álbum está no campo dos micro prazeres, que são pequenas atividades do dia a dia capazes de proporcionar relaxamento e bem-estar, como ler um livro ou ouvir música.

A ação de comprar um pacotinho, abri-lo, sentir o cheiro dos cromos e colá-lo calmamente no álbum remete a sensação de nostalgia. Assim, mesmo na fase adulta, a pessoa consegue se reconectar a memórias  positivas do passado. “Há evidências na psiquiatria e na psicologia de que a nostalgia pode aumentar o bem-estar, a autoestima e a sensação de pertencimento”, afirma a psiquiatra.

Em meio a uma rotina corrida, com o tempo cada vez mais escasso para interações sociais, outro ponto importante é resgatar a prática comum na infância de se reunir em rodas para trocar figurinhas e até jogar conversa fora, o que aumenta a sensação de felicidade e pertencimento.

“Hoje, muitos adultos relatam uma sensação crescente de isolamento, que foi intensificada pelas redes sociais e pela pandemia, quando houve um afastamento dos espaços coletivos. O álbum de figurinhas funciona como um movimento contrário a esse isolamento, incentivando o encontro, o diálogo e a convivência”, destaca a psicóloga Natália Silva, do Grupo Reinserir, em São Paulo.

Cuidados para o hobby não se tornar outro estresse

Apesar dos benefícios, é importante estar atento ao hiperfoco no álbum. Diante da vida corrida, por vezes, colocamos toda a energia em uma atividade que consideramos benéfica, o que pode ser prejudicial. Se a ação começar a afetar responsabilidades do dia a dia, incluindo trabalho, relações pessoais e outras tarefas, é hora de repensar. 

Segundo a psicóloga, o foco excessivo pode ser um sinal de alerta para algo maior que está ocorrendo em relação à saúde. A depender da situação, é recomendável tratá-la.

“Nesses casos, é importante observar se há um movimento de fuga ou de imersão exagerada no passado. Se isso acontecer, pode ser o momento de buscar ajuda de um profissional de saúde”, alerta Natália.

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