4ª onda: adianta continuar com reforço da mesma vacina contra Covid?

Vacinas atuais foram desenvolvidas com base no vírus original e, atualmente, as variantes possuem diversas mutações na proteína spike

atualizado 11/06/2022 9:24

ilustração de cientistas estudando e criando uma vacina - Metrópoles miakievy/GettyImages

Desde o início da pandemia de Covid-19, o coronavírus se espalhou pelo mundo inteiro. Para continuar circulando, o vírus adaptou-se.

Os imunizantes desenvolvidos para proteger a população foram criados a partir da proteína spike, usada pelo vírus para invadir as células do corpo humano e se multiplicar. Porém, exatamente esta proteína abriga a maioria das mutações que permitem ao coronavírus se esquivar do sistema imunológico e seguir infectando o hospedeiro – no caso, os humanos.

Para combater o influenza, um vírus endêmico e que sofre rápidas mutações, uma nova fórmula de vacina é desenvolvida todos os anos, e as pessoas dos grupos de risco são imunizadas periodicamente para prevenir o desenvolvimento de quadros graves. Será que precisaríamos adotar esse mesmo procedimento para a Covid-19?

Segundo o infectologista Renato Kfouri, da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o esquema de proteção para a Covid-19 passou a ser de três doses, com um reforço para idosos e outro para pacientes com grau severo de imunossupressão. A terceira dose não é considerada mais um reforço, e, sim, parte do esquema vacinal obrigatório.

Até o momento, o protocolo tem sido suficiente para evitar quadros graves e óbitos, inclusive em pacientes infectados pelas variantes da Ômicron, uma cepa já bastante distante do coronavírus original, que deu início à pandemia.

“Agora, para prevenir doença leve e evitar a transmissão, nenhuma dessas vacinas que aplicamos atualmente é boa. Vimos que a Ômicron não poupou vacinados, mas a imunização evitou desfechos graves. Ainda assim, precisamos desenvolver outras vacinas. A forma leve da doença sobrecarrega o serviço de saúde, pode causar Covid longa e aumenta as chances de transmissão para pessoas vulneráveis”, explica o médico.

O imunologista David Martinez – que integrou equipes responsáveis pela criação das vacinas da Moderna e Janssen contra o coronavírus, além das terapias de anticorpos monoclonais da AstraZeneca e Eli Lilly – acredita que, eventualmente, precisaremos lidar com a doença exatamente como fazemos com a gripe.

“Embora as particularidades dos vírus influenza e Sars-CoV-2 sejam diferentes, o campo que investiga a Covid-19 deve pensar em adotar, a longo prazo, sistema de vigilância semelhante. Ficar atualizado sobre quais cepas estão circulando ajudará os pesquisadores a atualizar a vacina para corresponder às variantes predominantes do coronavírus”, escreveu, em artigo publicado na plataforma de divulgação científica The Conversation.

O médico avalia que novas variantes do vírus provavelmente vão aparecer nos próximos meses. O problema é saber, com antecedência, qual será a predominante, com o intuito de criar uma vacina adaptada, de acordo com a nova cepa. Ele defende que seja desenvolvida uma fórmula a partir da Ômicron, já que as novas variantes com melhor capacidade de se transmitir são sublinhagens da cepa.

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“Um reforço atualizado que se assemelhe mais às subvariantes Ômicron de hoje, juntamente com a imunidade que as pessoas já têm desde as primeiras vacinas, provavelmente oferecerá melhor proteção no futuro. Isso pode exigir reforços menos frequentes – pelo menos enquanto as sublinhagens continuarem a dominar”, pontuou o especialista.

Novas vacinas

A Moderna, fabricante de um imunizante contra a Covid-19 aprovado nos Estados Unidos, divulgou, na última semana, resultados positivos dos testes clínicos de sua vacina feita a partir da Ômicron. Os pesquisadores descobriram que a dose de reforço com a nova fórmula induz a formação de oito vezes mais anticorpos do que a vacina atual. A expectativa da empresa é que o imunizante esteja disponível para aplicação em setembro.

Em janeiro, a Pfizer/BioNTech anunciou que estava criando uma fórmula a partir da Ômicron. A expectativa era que a vacina começaria a ser aplicada em março, mas o processo de coleta de dados foi mais lento do que o esperado e, por isso, a entrega foi adiada.

Em comunicado enviado ao Metrópoles, a Pfizer afirma que foi adotada uma abordagem mais abrangente para a vacina de nova geração, e estão sendo avaliadas questões relacionadas a segurança, tolerabilidade e imunogenicidade de uma dose alta da nova fórmula e uma do imunizante atual, e de uma combinação multivalente (que une a vacina atual à nova fórmula) em uma única dose.

“Em relação à chegada ao Brasil, dependerá dos resultados dos estudos e, posteriormente, das análises regulatórias”, sinaliza a nota.

Outra opção em desenvolvimento é a criação de uma fórmula universal, que funcione para todos os coronavírus e suas variantes. “A ciência já criou múltiplas vacinas seguras e eficazes, que reduzem o risco de Covid-19 grave. Reformular a estratégia de reforço, seja por uma fórmula universal ou atualizada, pode nos ajudar a finalmente sair da pandemia”, escreve Martinez.

O futuro? Ninguém sabe

Embora a pandemia ainda esteja vigente e boa parte da comunidade científica permaneça estudando o coronavírus, o cenário futuro e a necessidade de novas doses e reforços ainda não está claro. “Não sabemos nem se vai ser necessário tomar mais vacinas, quanto tempo a proteção vai durar, nem de quanto em quanto tempo precisaremos reforço. Não sabemos e não temos qualquer evidência que aponte nesse sentido”, afirma Kfouri.

O infectologista lembra que não se sabe como o vírus vai evoluir: pode ser que a pandemia acabe, e só os grupos prioritários sejam vacinados, por exemplo. O contrário também é possível – com o surgimento de mais uma variante que consiga fugir da imunidade criada pelas vacinas, a população mundial precisaria ser vacinada com outro reforço.

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