Suspeita recebeu Pix de leiloeiro antes de roubo na Mário de Andrade
Grupo investigado por roubo de obras em biblioteca matinha contato com casas de leilão para tentar escoar peças furtadas em SP e RJ
atualizado
Compartilhar notícia

Um leiloeiro de São Paulo fez um Pix de R$ 2,5 mil a uma mulher apontada pela Polícia Civil como integrante de uma quadrilha especializada em furtar e escoar obras de arte, antes do roubo de 13 gravuras da Biblioteca Mário de Andrade (veja galeria abaixo), no centro paulistano, em dezembro do ano passado. O acervo levado pelo bando, como mostrado pelo Metrópoles, está avaliado em R$ 1,3 milhão.
Para os investigadores, o pagamento ajuda a revelar uma possível ponte entre o grupo criminoso e empresas usadas para dar aparência regular à venda de peças surrupiadas.
A suspeita que recebeu o dinheiro é Regiane Rodrigues da Silva, investigada por supostamente atuar como pessoa de confiança e apoio logístico do grupo. Ela foi presa na última sexta-feira (22/5) em cumprimento a um mandado judicial, da mesma forma que Laéssio Rodrigues de Oliveira e o marido dele, Carlos Leandro Ferreira da Silva. Ambos já estavam atrás das grades, desde 20 de abril, quando foram detidos pela Polícia Federal no Rio de Janeiro. A defesa do trio não foi localizada. O espaço segue aberto para manifestações.
Segundo relatório policial, obtido pela reportagem, o depósito foi feito por uma pessoa ligada a um estabelecimento no Jardim América, bairro nobre da zona oeste da capital paulista, que atua na comercialização de obras de arte e também realiza leilões.
A Polícia Civil não afirma que o valor tenha sido pago pelas obras roubadas da biblioteca, já que a transferência ocorreu antes do crime, mas considera o dado relevante para mapear as conexões da quadrilha com o mercado de arte.
Roubo no último dia da exposição
O roubo ocorreu em 7 de dezembro de 2025, último dia da exposição “Do livro ao museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade” (assista abaixo). Dois homens armados invadiram a biblioteca, renderam vigilantes, visitantes, e levaram oito gravuras da série Jazz, do pintor francês expoente do favismo Henri Matisse, e cinco gravuras de Menino de Engenho, de Cândido Portinari, ícone do modernismo e um dos artistas plásticos brasileiros mais celebrados no exterior.
Para a Polícia Civil, a data do crime, a escolha seletiva das obras, o uso de veículo furtado com placa falsa, a rapidez da ação e a retirada das gravuras de suas molduras indicam que a subtração não foi oportunista. A suspeita é de que os ladrões soubessem exatamente o que levar e tivessem uma rota de escoamento previamente articulada.
Leilões em SP e no Rio
Além da casa de leilão em Cerqueira César, a investigação identificou contatos de Laéssio Rodrigues de Oliveira, apontado como possível mentor intelectual do roubo, com telefones vinculados a uma empresa de leilões em Copacabana, na zona sul da capital do Rio de Janeiro. Entre novembro de 2025 e março deste ano, ele fez chamadas para números associados ao estabelecimento, segundo a análise telemática da Polícia Civil paulista.
A polícia sustenta, como indica a investigação, que as conexões com casas de leilão reforçam a hipótese de que as obras seriam inseridas em um circuito clandestino de comercialização, com aparência formal.
“Não é bagunça”
Um áudio atribuído a Laéssio foi usado pelos investigadores para sustentar que o grupo tinha familiaridade com o funcionamento de leilões. Na conversa, ele diz conhecer um leiloeiro havia mais de 20 anos e afirma que vender produto ilícito exige cuidado.
“Leilão é uma coisa demorada e ainda mais vender produto ilícito, fica uma coisa mais cuidadosa ainda”, diz o investigado, segundo transcrição policial. Em seguida, ele afirma que “não é bagunça, não é de qualquer jeito” e que o intermediário estaria agindo “com a maior discrição possível”.
Para a polícia, a fala mostra que o objetivo não era simplesmente vender as peças a qualquer comprador, mas encontrar um caminho mais seguro para reduzir riscos, ocultar a origem criminosa e negociar as obras em ambiente controlado.
Núcleo de escoamento
A investigação atribui funções distintas aos suspeitos. Gabriel Pereira Rodrigues de Mello, o Gargamel, e Felipe dos Santos Fernandes Quadra, o Sujinho ou Tapete, são apontados como executores materiais do roubo. Luís Carlos do Nascimento, o Magrão, e Cícera de Oliveira Santos aparecem ligados a atos posteriores de guarda, ocultação, manipulação ou retirada das obras.
Na etapa seguinte, a polícia passou a mirar o núcleo que teria planejado, avaliado e tentado escoar as gravuras. Laéssio é descrito como provável mentor intelectual. Carlos Leandro Ferreira da Silva é apontado como responsável por avaliação, precificação e escoamento. Regiane aparece como interlocutora e possível apoio logístico depois do roubo.
As defesas deles não foi localizada. O espaço segue aberto para manifestações.
Obras a preço baixo
O relatório também indica que o grupo discutia a venda de peças de arte por valores muito inferiores ao que poderiam alcançar no mercado formal. Segundo a Polícia Civil, isso ocorre porque obras roubadas carregam risco, rastreabilidade e necessidade de ocultação.
Em uma conversa transcrita no documento, Laéssio explica que quadros furtados não são vendidos por valores milionários no circuito ilícito justamente porque o comprador sabe da origem criminosa e assume o risco de esconder ou repassar a peça.
Para os investigadores, essa lógica ajuda a entender como obras de alto valor cultural poderiam ser negociadas por quantias módicas, enquanto a quadrilha tentaria aproximá-las de ambientes oficiais, como casas de leilão, para dar aparência regular à circulação dos bens.
Paradeiro incerto
As gravuras roubadas ainda não tiveram o paradeiro definitivamente esclarecido no relatório. A Polícia Civil afirma que elas podem ter sido levadas para outro estado, fracionadas, entregues a terceiros ou submetidas a tentativa de venda em circuito clandestino.
Por isso, os investigadores pediram prisões temporárias e buscas simultâneas, cumpridas na sexta-feira (22/5), sob o argumento de que havia risco de destruição de provas, apagamento de conversas, movimentação das obras e combinação de versões entre os suspeitos.


















