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Obras da Mário de Andrade foram roubadas duas vezes pelo mesmo ladrão
Apontado pela polícia como mandante do assalto, Laéssio Rodrigues de Oliveira já havia roubado álbum de Matisse cerca de 20 anos atrás
atualizado
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Autoproclamado maior ladrão de livros raros do país, Laéssio Rodrigues de Oliveira é apontado pela polícia como o mandante do roubo de obras de arte raras da Biblioteca Municipal Mário de Andrade, no ano passado, em São Paulo.
Para efetuar o assalto, Laéssio conseguiu driblar um esquema de segurança criado exatamente para garantir o retorno seguro daquelas obras, que haviam sido furtadas da própria Biblioteca Mário de Andrade há duas décadas. O autor daquele crime? O próprio Laéssio. Ao que tudo indica, o mesmo ladrão roubou duas vezes a mesma obra do mesmo lugar.
A obra visada é o álbum Jazz, do artista francês Henri Matisse, considerado o item mais precioso da coleção da Mario Andrade. Produzido em 1947, o álbum teve tiragem de 250 exemplares. Em dezembro, suas oito gravuras estavam expostas no salão da biblioteca quando foram levadas.
Antes, em algum momento entre 2004 e 2006, o Jazz sumiu do acervo da Mário de Andrade, tendo sido substituído por uma cópia fajuta. A biblioteca nunca notou, até que o verdadeiro álbum foi localizado em 2012 pela Polícia Federal, que o achou em um lote de livros e gravuras raras apreendido na região da Tríplice Fronteira. A identificação só foi possível porque o álbum é numerado.
A biblioteca paulistana, porém, negava ter sido roubada. Quando o delegado Fábio Scilar veio a São Paulo para ouvir o então diretor da biblioteca, não foi recebido nem autorizado a visitar a cópia fajuta. Foi necessária uma decisão judicial exigindo que a Mário de Andrade realizasse um exame pericial de autenticidade, que atestou o óbvio: tratava-se de uma falsificação grosseira, sem correspondência com as técnicas e materiais empregados por Matisse e pela editora Tériade, como escreveu em texto recente o filósofo Fabrício Reiner.
Quando a Mário de Andrade reconheceu que o álbum roubado era seu e o pediu de volta, por razões óbvias, o delegado não confiava que São Paulo pudesse manter o álbum em segurança. Preferiu deixá-lo guardado no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro, que ficou como fiel depositário da obra.
Segundo memorando da época, relatado por Reiner, a PF argumentou que a Mário de Andrade “não demonstrava ter condições de segurança para receber de volta a obra” e que “ou os envolvidos no furto continuavam trabalhando na biblioteca ou havia omissão dos funcionários”.
Foram quatro anos entre as primeiras tratativas, ainda na gestão Gilberto Kassab (hoje no PSD), até o retorno da obra a São Paulo, em agosto de 2015, no penúltimo ano da gestão Haddad. O então diretor do museu, Luiz Armando Bagolin, foi até o Rio e convenceu pessoalmente a PF a autorizar o retorno, demonstrando que o novo plano de segurança impediria que o álbum fosse levado do departamento de obras raras, com restrito controle de acesso.
Dez anos depois, o novo roubo aconteceu à luz do dia, com oito gravuras sendo retiradas de uma exposição pública que celebrava os 100 anos da biblioteca. O mandante, de acordo com a polícia: o mesmo Laéssio.















