Resultado de laudo pode transformar morte da PM Gisele em feminicídio
Caso foi primeiramente registrado como suicídio, versão defendido por marido da vítima, mas mudou para morte suspeita após apuração do caso
atualizado
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Está prevista a conclusão de um novo laudo pericial, nesta sexta-feira (13/3), cujo resultado pode criminalizar a morte da soldado da Gisele Alves Santana, de 32 anos (imagem em destaque), tornando-a eventualmente vítima de feminicídio. O caso, primeiramente registrado como suicídio, passou a ser investigado pela Polícia Civil de São Paulo como morte suspeita, após contradições e dúvidas sobre as circunstâncias nas quais a policial militar foi beleada na cabeça.
Dois laudos anteriores, já mostrados pelo Metrópoles, afirmam a presença de marcas de unha e dedos na região do pescoço de Gisele, indicando que ela teria sido asfixiada, antes de ser mortalmente ferida com um tiro na cabeça. No momento do disparo, estavam no apartamento somente ela e o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 53.
Ele nega qualquer responsabilidade pela morte, afirmando que a esposa se suicidou e que, ao se deparar com ela ferida, imediatamente acionou equipes de socorro para atendê-la.
Uma das principais dúvidas a serem respondidas pelo laudo previsto para esta sexta, como afirmaram à reportagem fontes que acompanham o caso, será a suposta demora para que o tenente-coronel acionar serviços de emergência, após o tiro que matou Gisele horas depois.
Como consta em registros oficiais, a PM foi acionada pelo oficial às 7h57. Uma vizinha que mora no mesmo andar onde Gisele foi baleada, porém, afirmou em depoimento que foi acordada às 7h28, em decorrência do estrondo supostamente provocado pelo disparo da pistola Glock, calibre ponto 40, de uso profissional do oficial Geraldo Neto. Caso essa informação seja confirmada, o tempo entre o tiro e o chamado por socorro demorou praticamente meia hora.
O novo laudo pericial resulta da exumação do corpo da soldado, solicitada para que o 8º Distrito Policial (Brás), responsável pela investigação, tire dúvidas e tenha convicção do que, de fato, provocou a morte de Gisele.
Fragilidades na versão do coronel
A versão apresentada pelo tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto sobre a morte da esposa foi confrontada por uma série de elementos reunidos no inquérito policial, obtido pela reportagem.
Desde o início, o coronel alega que a mulher teria cometido suicídio. No entanto, detalhes reunidos ao longo da investigação passaram a enfraquecer essa versão.
A defesa do oficial, por meio de nota, afirmou que o cliente não é investigado, suspeito, ou indiciado “no procedimento formal em curso”, o qual classificou como “trágico suicídio”.
Banho e chão seco
Uma das versões relatadas pelo próprio oficial é a de que ele estaria no banho quando ouviu um barulho vindo do apartamento. Ao sair do banheiro, segundo disse, encontrou a esposa caída no chão e fez as ligações de emergência.
Testemunhas, no entanto, relataram que o chão do apartamento estava seco, enquanto o coronel afirma ter saído do chuveiro instantes antes.
O inquérito também reúne relatos de que, após a chegada de pessoas próximas, o oficial teria tomado outro banho, já depois do socorro da vítima, o que também foi registrado nas investigações. O próprio oficial admitiu isso, como registrado pela Polícia Civil, descumprindo orientação da própria PM para que saísse imediatamente do local.
Quando voltou ao apartamento, para se banhar, Geraldo Neto foi acompanhando pelo desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo (assista abaixo). O magistrado afirmou que esteve no local na condição de amigo do oficial da PM.
Ausência de sangue no corpo
Outro ponto que chamou a atenção de testemunhas foi o estado do coronel no momento em que equipes de resgate chegaram ao prédio.
Socorristas e policiais relataram que o oficial aguardava do lado de fora do apartamento, sentado no corredor do andar. Durante o período em que permaneceram próximos a ele, disseram não ter observado manchas de sangue em suas mãos, roupas ou no corpo, apesar da grande quantidade de sangue encontrada na cena em que Gisele estava caída.
Dentro do imóvel, bombeiros descreveram uma situação muito diferente, na qual a vítima estava entre o sofá e o rack da televisão, com sangue concentrado na região da cabeça, já parcialmente coagulado quando os primeiros socorros começaram.
Versão sobre a separação
No relato apresentado por ele a testemunhas, o coronel afirmou que havia comunicado à esposa que pretendia se separar e se mudar para São José dos Campos. Segundo essa versão, Gisele não teria aceitado a decisão, e o disparo teria ocorrido depois dessa conversa.
A família da policial contesta essa narrativa. Parentes afirmam que o relacionamento era marcado por episódios de comportamento abusivo e sustentam que a soldado não apresentava sinais de intenção de tirar a própria vida.
Enquanto as apurações avançam, o caso continua cercado por perguntas ainda sem resposta. Muitas surgiram justamente a partir das divergências entre a versão inicial apresentada pelo coronel e os relatos registrados ao longo da investigação.



















