Quadra 37: abandono marca área vizinha à futura sede de governo de SP. Veja vídeo
Imóveis abandonados nos Campos Elíseos são fantasmas de projeto de revitalização de 2017 que não saiu do papel até hoje
atualizado
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A poucos metros do lugar onde o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) quer construir a nova sede administrativa do governo de São Paulo, um quarteirão inteiro segue abandonado, com casarões históricos em ruínas e mato crescendo entre janelas quebradas. É o fantasma de um projeto de revitalização de 2017 que ainda não saiu do papel, mas já custou cerca de R$ 28 milhões aos cofres municipais só em desapropriações.
O quarteirão é formado pela Alameda Barão de Piracicaba, o Largo Coração de Jesus, a Alameda Dino Bueno e a Rua Helvétia, nos Campos Elíseos, centro da capital paulista. Todas as portas dos imóveis estão fechadas por tijolos e as telhas sumiram de boa parte das casas. Em uma das fachadas, um buraco na parede virou passagem para um cachorro que se aventura no vazio dos prédios – nem sempre, vale dizer, tão vazios assim.
Quem passa por ali flagra, vez ou outra, pessoas em situação de rua pulando para dentro e para fora dos imóveis. “Tem um abacateiro lindo aí”, disse, ao Metrópoles, um homem com as vestes sujas e a barba por fazer logo depois de saltar de uma das paredes pichadas para a rua.
O ar de abandono dos prédios assusta quem passa ao lado. “A gente passa correndo aqui porque tem medo”, conta a operadora de caixa Gislei da Silva, de 54 anos, ao voltar de um atendimento no Hospital da Mulher, vizinho ao local.
Hoje um quarteirão abandonado, a Quadra 37, como é chamado o lugar nos registros da Prefeitura de São Paulo, abrigou comércios, bares e pensões até pouco tempo atrás, e foi vizinha ao fluxo da Cracolândia quando os usuários se aglomeravam nos entornos da Rua Helvétia.
Em 2017, uma ação do então prefeito João Doria emparedou comércios e demoliu imóveis daquela região sob a justificativa de que faria uma revitalização do bairro. O governo buscava uma solução para conter as cenas abertas de uso de drogas no centro, e jogava parte da culpa do problema em alguns dos estabelecimentos daqueles quarteirões.
Comerciantes e moradores das pensões rebatiam dizendo que nem todos que estavam no bairro eram dependentes químicos ou traficantes, mas a gestão avançou com o plano mesmo assim, e foi à Justiça em busca de desapropriar os imóveis.
Um projeto inicial chegou a ser desenhado pelo escritório Biselli Katchborian Arquitetos Associados. A ideia era demolir os prédios não tombados e construir unidades habitacionais em seu lugar.
Nos casarões tombados, frutos da ocupação da elite cafeeira nos Campos Elíseos a partir do final do século XIX, o plano era transformá-los em equipamentos públicos, espaços comerciais ou uma área de uso comum para os moradores das unidades habitacionais.
Um documento de 2018 ao qual o Metrópoles teve acesso mostra que uma das ideias era instalar uma UBS no casarão entre a esquina da Alameda Dino Bueno e o Largo Coração de Jesus.
Durante a pandemia, a gestão do prefeito Bruno Covas retirou as pessoas que viviam nas pensões da Quadra 37. A promessa era de que elas seriam contempladas pelas futuras moradias que seriam construídas na região.
Covas e Doria chegaram a firmar um acordo para o projeto, em que a Prefeitura de São Paulo se comprometia a ceder para o governo estadual a posse dos terrenos – uma área total de mais de 5,4 mil m² – assim que eles fossem desapropriados. A construção das moradias ficaria, então, sob encargo de uma parceria público-privada (PPP) que ergueu prédios nos terrenos vizinhos.
De lá pra cá, a prefeitura gastou aproximadamente R$ 28 milhões para comprar os imóveis de seus donos. A transferência de propriedade, no entanto, até hoje não foi finalizada na Justiça. Em fevereiro de 2025, as gestões dos atuais prefeito e governador de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB) e Tarcísio de Freitas (Republicanos), romperam o acordo anterior e a responsabilidade sobre o destino do quarteirão abandonado voltou para a prefeitura.
O quarteirão vizinho, a Quadra 38, que também seria envolvido no projeto, é outro que tem, até agora, imóveis abandonados.
Com seu destino em aberto, os prédios foram ficando cada vez mais deteriorados com o tempo. Em 2023, o muro de um deles, no Largo Coração de Jesus, caiu em cima de um carro que estava no local, deixando o motorista ferido. Depois disso, estacas foram instaladas para segurar as paredes. Agora, o acesso ao Largo Coração de Jesus fica fechado em um dos lados.
“Teria que abrir isso tudo aí: ou fazer prédio ou abrir para o comércio. Se não fica muito assombroso”, diz a comerciante Irene Leal, de 69 anos, que vende lanches na esquina vizinha.
A gestão Nunes diz que as desapropriações dos imóveis estão em andamento, com a imissão de posse a favor da Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab), e que está avaliando, em parceria com o governo estadual, a melhor destinação para o quarteirão.
“Vale ressaltar que os estudos preliminares já consideram a preservação das fachadas tombadas, em conformidade com as diretrizes dos órgãos de patrimônio — CONPRESP e CONDEPHAAT, que estão analisando o pedido de intervenção”, diz nota enviada pela prefeitura.
Também em nota, a Secretária Estadual de Projetos Estratégicos disse que os imóveis da Quadra 37 não pertencem ao governo e endossou o discurso municipal. “No entanto, Estado e Município avaliam, em parceria, a melhor destinação para área, levando em consideração interesse público e benefícios para a sociedade”, diz o texto.
Sem casa
Enquanto o projeto não sai do papel, as famílias que viviam nas pensões seguem sem moradia. Das quase 200 famílias cadastradas pela prefeitura, apenas 22 foram contempladas com unidades habitacionais.
A gestão Nunes diz que 140 delas receberão “atendimento habitacional definitivo pelo programa municipal de moradias Pode Entrar no empreendimento Marquês de São Vicente, que está em fase final de execução.” Dessas, 88 seguem recebendo auxílio aluguel.
Rejeitadas pelos programas
- Parte das famílias que passou a receber o auxílio aluguel se mudou para pensões da Alameda Barão de Piracicaba, onde agora o governo estadual fará uma nova desapropriação de imóveis para construir a nova sede administrativa do governo no centro.
- Em entrevista ao Metrópoles em 2024, alguns desses moradores disseram que não têm sido aceitos em programas de financiamento habitacional do estado por causa de suas rendas.
- Um levantamento da prefeitura de 2018 já mostrava que 73 famílias não teriam condições de pagar financiamento de imóveis por terem renda menor que um salário-mínimo.
- Mesmo sabendo disso, nem a gestão municipal nem a estadual apresentaram um plano para o atendimento dessas famílias na época.
- Questionada agora sobre ter alguma solução possível para o problema, a Secretaria Municipal da Habitação disse que “segue disponível para retomar o contato e orientar essas famílias, conforme os critérios previstos na política habitacional”.
- A prefeitura também diz que presa por apoio social e técnico, “garantindo que o processo de transição para a moradia definitiva ocorra de forma organizada e adequada às condições de cada núcleo familiar”.

Tesouro
Enquanto o quarteirão segue abandonado, suas histórias seguem vivas. Morador de um prédio vizinho à Quadra 37, Carlos Andrade diz que, certa vez, um dependente químico contou ter encontrado um pequeno tesouro abandonado entre os escombros do quarteirão, debaixo de um assoalho. “Ele falou que era tipo um labirinto lá dentro. Que ele encontrou um monte de prataria.”
O homem disse que venderia tudo, mudaria de vida e nunca mais voltaria para o centro. Antes de ir embora, entregou de presente para Carlos uma moeda de 100 réis, datada de 15 de novembro de 1889, que afirmou ter pego nos escombros.
O dependente químico nunca mais apareceu no centro.


































