Corretores assediam donos de imóveis na mira de nova sede de governo

Profissionais se apresentam como representantes do consórcio que venceu o leilão para construir o projeto do governo Tarcísio

atualizado

metropoles.com

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Divulgação / Concurso Centro de SP
imagem colorida mostra desenho de projeto vencedor do concurso para o novo centro administrativo de são paulo
1 de 1 imagem colorida mostra desenho de projeto vencedor do concurso para o novo centro administrativo de são paulo - Foto: Divulgação / Concurso Centro de SP

Corretores têm assediado donos de imóveis que serão desapropriados pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) para a construção da nova sede do governo de São Paulo, nos Campos Elíseos, centro da capital paulista.

Os profissionais se apresentam como representantes do Consórcio MEZ-RZK Novo Centro, que venceu o leilão para construir o projeto do governo Tarcísio. Procurada, a RZK não respondeu se tem vínculo com os corretores e se recusou a enviar nota. Por telefone, a assessoria de imprensa da empresa disse que a reportagem deveria “procurar o governo”.

Em nota, a gestão Tarcísio, por meio da Secretaria de Parcerias em Investimentos, disse que “qualquer abordagem realizada antes da assinatura do contrato de concessão para a execução do projeto do Novo Centro Administrativo, nos Campos Elíseos, não integra o procedimento oficial da iniciativa”. O contrato com a MEZ-RZK deve ser assinado só no segundo semestre.

Como é o assédio?

O assédio dos corretores aos donos de imóveis começou na semana passada, com mensagens no WhatsApp e ligações. Ao estabelecer o contato, os profissionais dizem que trabalham para o consórcio e enviam um vídeo do canal oficial do governo de São Paulo mostrando a obra.

“Seu imóvel foi apontado para ser comprado pelo Consórcio. Aguardo o seu breve retorno para iniciarmos negociação para proposta/compra”, diz a mensagem enviada por um deles. Veja fotos:

 

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Consórcio MEZ-RZK Novo Centro é citado por corretor que aborda proprietário de imóvel na Alameda Nothmann
Mensagem é replicada para diferentes proprietários e fala em negociar compra mesmo antes da assinatura do contrato de concessão
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Mensagem é replicada para diferentes proprietários e fala em negociar compra mesmo antes da assinatura do contrato de concessão

Reprodução
Consórcio MEZ-RZK Novo Centro é citado por corretor que aborda proprietário de imóvel na Alameda Nothmann
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Consórcio MEZ-RZK Novo Centro é citado por corretor que aborda proprietário de imóvel na Alameda Nothmann

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Por telefone, esse mesmo corretor disse a uma proprietária que o consórcio pagará R$ 5 mil por metro quadrado, e que os donos dos imóveis terão que arcar também com uma taxa de comissão de 6% para a imobiliária da qual ele faz parte e que está intermediando a venda.

A reportagem do Metrópoles fingiu ser proprietária de um imóvel e ligou para o homem. Sem saber que falava com uma jornalista, ele disse que o valor de R$ 5 mil por metro quadrado ainda estava em aberto, e que apartamentos receberiam pelo menos R$ 320 mil na venda.

O corretor confirmou, no entanto, que cobraria a comissão de 6%. E também sugeriu que, caso a venda não fosse fechada neste momento, a forma de pagamento seria por meio de precatórios do governo.

“Se você não vender para nós você vai ser obrigada a vender pro governo. E como é que o governo paga? Normalmente, paga num valor bem menor e por precatório”, disse o homem.

Questionado se algum perito avaliaria o imóvel, o corretor disse não ter informações sobre o tema.

Abordagem contraria edital

O edital do projeto do governo, no entanto, prevê um processo completamente diferente. Primeiro, o contato entre a concessionária e os donos dos imóveis deve ser feito somente depois da assinatura do contrato do consórcio com o governo, o que ainda não aconteceu.

Depois, um perito deve avaliar os imóveis e a avaliação será submetida a um verificador independente — que confirmará se o valor está de acordo com o mercado. Confirmado o acordo, o pagamento, ao contrário do que é sugerido pelo corretor, não será por precatórios, mas sim por transferência.

Até agora, moradores da Alameda Nothmann, da Avenida Rio Branco e da Rua General Rondon foram contatados pelos corretores.

Uma proprietária que preferiu não se identificar disse que está assustada com a abordagem. “A gente se sente inseguro e muito pressionado”, disse ela.

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Edifícios de diferentes tipologias, dispostos em direções e alturas diversas, delimitam espaços que conectam ruas em numerosas direções
Na parte onde existem dois bens tombados na quadra 34 e está em frente a outros três haverá uma praça seca
Quadras 46/52
Conjunto de edifícios que  promova conexões urbanas, segundo escritório.
No dia 7 de agosto,  o projeto da Opera Quatro, escritório de arquitetura paulistano, conquistou o primeiro lugar no concurso para a construção da nova sede administrativa do governo de São Paulo.
Projeto vencedor do concurso para o novo centro administrativo de São Paulo é assinado pelo arquiteto Pablo Basilio de Sá Leite Chakur, da Opera Quatro Arquitetura Ltda
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Projeto vencedor do concurso para o novo centro administrativo de São Paulo é assinado pelo arquiteto Pablo Basilio de Sá Leite Chakur, da Opera Quatro Arquitetura Ltda

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Edifícios de diferentes tipologias, dispostos em direções e alturas diversas, delimitam espaços que conectam ruas em numerosas direções
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Edifícios de diferentes tipologias, dispostos em direções e alturas diversas, delimitam espaços que conectam ruas em numerosas direções

Reprodução Ópera Quatro
Na parte onde existem dois bens tombados na quadra 34 e está em frente a outros três haverá uma praça seca
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Na parte onde existem dois bens tombados na quadra 34 e está em frente a outros três haverá uma praça seca

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Quadras 46/52
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Quadras 46/52

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Conjunto de edifícios que  promova conexões urbanas, segundo escritório.
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Conjunto de edifícios que promova conexões urbanas, segundo escritório.

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No dia 7 de agosto,  o projeto da Opera Quatro, escritório de arquitetura paulistano, conquistou o primeiro lugar no concurso para a construção da nova sede administrativa do governo de São Paulo.
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No dia 7 de agosto,  o projeto da Opera Quatro, escritório de arquitetura paulistano, conquistou o primeiro lugar no concurso para a construção da nova sede administrativa do governo de São Paulo.

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O projeto vencedor exibe calçadões, áreas verdes e áreas que integram pedestres entre os novos edifícios, além de salas com pufes
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O projeto vencedor exibe calçadões, áreas verdes e áreas que integram pedestres entre os novos edifícios, além de salas com pufes

Reprodução Ópera Quatro
Centro Administrativo do governo do estado de São Paulo: 288.000,00m²
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Centro Administrativo do governo do estado de São Paulo: 288.000,00m²

Reprodução Ópera Quatro

O Metrópoles andou pelo entorno do Parque Princesa Isabel e conversou com comerciantes e moradores da região. Eles confirmaram que corretores têm ido até os imóveis.

“Passou um aqui e perguntou se eu conhecia os donos do sobrado do meio da quadra”, contou o comerciante Antônio José da Silva, de 77 anos. “Depois, ele passou de novo e falou que descobriu o telefone dela”.

A esposa de Antônio acredita que os corretores querem comprar os imóveis agora para depois venderem mais caro para o governo.

Outro comerciante ouvido pelo Metrópoles, e que pediu para não se identificado, disse que o dono do ponto em que ele é locatório já recebeu uma proposta dos corretores. Segundo ele, o valor oferecido estaria abaixo do mercado, mas o corretor prometeu pagar em poucas vezes.

A falta de informações sobre o projeto tem sido apontada por locatários e proprietários como um dos problemas para lidar com essas abordagens. “Nós não recebemos informação nenhuma até agora”, disse o dono de um apartamento na Alameda Nothmann.

O governo diz que realizou audiências públicas e reuniões presenciais com moradores, representantes da sociedade e autoridades locais.

“Nestas oportunidades foram apresentados os principais aspectos da iniciativa, incluindo as diretrizes gerais relacionadas ao processo. Essas informações também foram publicadas em editais e em materiais informativos do projeto”, afirma a gestão Tarcísio.

Imobiliárias

Os corretores que têm abordado os proprietários são de duas imobiliárias, a Israel Mucinic Imóveis (IMI Imóveis) e a Chusyd Imóveis, e estão com cadastro ativo no Conselho Regional de Corretores de Imóveis (CRECI-SP), órgão que regulamenta o setor.

O site da IMI Imóveis diz que a empresa existe há mais de 50 anos e tem vários anúncios de residências de alto padrão que estão à venda pela imobiliária. O Metrópoles procurou a empresa, mas seu sócio, Alberto Municic, desligou o telefone duas vezes quando a repórter se identificou. “Não tenho nada para falar”, disse Alberto antes de desligar pela segunda vez.

O Metrópoles também procurou a Chusyd Imóveis, que é de propriedade de Gabriel Chusyd. Assim como Alberto, Gabriel desligou o telefone assim que a repórter se identificou. O site da empresa diz que a imobiliária atende há 10 anos no mercado de alto padrão e atua, principalmente, nos bairros Jardim Paulistano, Jardim Europa, Itaim Bibi e Pinheiros, na zona oeste.

O espaço segue aberto para o posicionamento das imobiliárias.

Maior acionista do consórcio MEZ-RZK Novo Centro, a RZK não respondeu aos questionamentos sobre se tinha ou não relação com os corretores e as imobiliárias citadas, por que decidiu antecipar as negociações, e por que está antecipando o contato com os moradores, de uma forma não prevista no edital.

A Secretaria de Parcerias em Investimentos da gestão Tarcísio disse que não compartilhou dados de proprietários dos imóveis da região com terceiros e orientou que os proprietários interrompam as negociações feitas antes da assinatura do contrato de concessão.

“Caso moradores ou proprietários recebam contatos de pessoas que se apresentem como representantes do projeto neste momento, a orientação é que não avancem em qualquer negociação e que comuniquem os órgãos competentes, como a Polícia Civil e o Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (CRECI-SP), para apuração de eventuais práticas indevidas”, diz nota da pasta.

A secretaria afirmou ainda que o projeto encontra-se em preparação para a assinatura do contrato de concessão.

“Somente após a assinatura do contrato terão início as etapas formais de levantamento detalhado dos imóveis e de comunicação institucional com moradores e proprietários, conduzidas pela concessionária com acompanhamento do Governo do Estado. Esse processo inclui mapeamento e censo socioeconômico da área, além da definição dos procedimentos de negociação, priorizando soluções amigáveis e baseadas em avaliações técnicas independentes”, diz a nota.

“Sendo assim, ressaltamos que não foi iniciado qualquer processo formal de negociação ou aquisição de imóveis relacionados ao projeto”, afirma o governo.

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