Polícia reconstitui caso de jovem que implorou antes de ser morto pela PM
Medida acontece após Metrópoles divulgar vídeo que contradiz versão oficial e mostra João Victor dizendo “pelo amor de Deus, não tenho arma”
atualizado
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A Polícia Civil de São Paulo realiza, nesta quarta-feira (27/5), reconstituição da morte de João Victor De Jesus Da Silva, de 22 anos, fuzilado por policiais militares dentro da própria casa, na zona leste da capital, em 31 de julho de 2024. No ano passado, o Metrópoles revelou uma gravação, feita por uma câmera de segurança instalada na parte de fora da casa, em que é possível ouvir o jovem conversando com os PMs por vários minutos e implorando para não ser morto.
“O que eu fiz, senhor? Eu não tenho arma […] Eu tenho dois filhos”, afirma João Victor. “Foda-se as crianças, caralho”, responde um dos policiais militares antes dos disparos.
Na gravação, ainda é possível ouvir os policiais gritando “larga a arma”, o que, para a família, seria uma tentativa de simular uma troca de tiros. Em depoimento, os PMs disseram que a vítima estava armada e teria atirado contra a equipe.
Após a publicação da reportagem, a 4ª Vara do Júri da capital determinou a realização de novas diligências sobre o caso. Em novembro, a delegada Luciana Lopes dos Anjos, da 2ª Divisão de Homicídios do DHPP, cobrou a apresentação dos arquivos das comunicações internas dos policiais envolvidos na ocorrência. Uma perícia do Instituto de Criminalística (IC) sobre o áudio da câmera de segurança chegou a ser anexada ao processo.
A reconstituição desta quarta tem o objetivo de confrontar as versões dos policiais com o que aparece no vídeo como, por exemplo, o fato de que os PMs permanecem por vários minutos dentro do puxadinho, conversando com a vítima, o que não consta na versão oficial.
Vídeo:
Morte de João Victor
João Victor foi abordado em uma operação, realizada no dia 31 de julho do ano passado, para cumprir um mandado de homicídio. Um equipamento de segurança registrou o momento em que sete PMs encapuzados chegaram caminhando em posição de combate na Rua Martins Soares Moreno, às 17h48 daquele dia.
Os policiais foram direto para o puxadinho de tijolos vermelhos onde morava João Victor, que não tinha relação com o mandado de prisão. Mesmo assim, enquanto dois policiais aguardavam na escada de acesso, tentando impedir a aproximação de pessoas, os outros cinco entraram no imóvel.
O que aconteceu na parte de dentro da casa não foi registrado em vídeo. Mas o microfone da câmera conseguiu captar, entre 17h49 e 17h56, conversas entre os policiais e João Victor, que implorou, por mais de sete minutos, para não ser morto.
A versão oficial é que a vítima teria resistido à abordagem e atirado contra os policiais.
Os gritos por misericórdia foram silenciados pelo estrondo dos disparos. Três projéteis de calibre 7.62, capazes de atingir alvos a 800 metros de distância, atravessaram o tórax do homem instantaneamente. Ele foi levado para o Hospital Sapopemba e, assim que chegou, teve o óbito constatado.
Vício
Procurado pela Justiça por um roubo que teria ocorrido em 2022, João Victor era dependente químico. A situação piorou nos últimos anos, quando ele aderiu ao uso da droga sintética, conhecida como k9. O pai dele, o caminhoneiro Sergio Antonio da Silva, afirma que, desde então, o rapaz passou a vender os móveis e objetos que tinha em casa para comprar a substância. Quando os PMs do COE chegaram, não havia mais quase nada na casa, de 20 metros quadrados e dois cômodos.
“Quando ele era menor, ele deu trabalho, mas, graças a Deus ele saiu dessa vida aí maldita. Só que depois, ele se jogou nas drogas, fazia de 3 a 4 anos que ele estava nessas drogas aí, uma tal de K9. Eu tentava tirar ele, mas não consegui. Infelizmente, eu não consegui tirar ele desse vício”, disse Sergio ao Metrópoles.
Segundo o pai do rapaz, não havia arma alguma com o filho. “Ele era um viciado, não tinha nada de arma na mão. Devido a esse vício, ele vendeu tudo. Vendeu os móveis, vendeu botijão de gás, fogão, geladeira. Saiu vendendo para comprar mais”, afirmou Sergio.
A Política da Bala
]A morte de João Victor de Jesus da Silva foi uma das 246 cometidas por policiais militares na cidade de São Paulo no ano passado. Conforme revelado pelo Metrópoles na reportagem especial “A Política da Bala”, pelo menos 85 vítimas não tinham arma de fogo e 47 foram baleadas pelas costas ao menos uma vez. Entre todas as ocorrências, apenas um policial foi morto. Ele foi baleado por engano por um colega.
Para atingir a marca de 246 homicídios, 100 a mais do que no ano anterior, a Polícia Militar deu 1.701 tiros — 459 em ocorrências em que as vítimas não tinham arma.





