A Polícia Militar de SP matou 245 pessoas na cidade de São Paulo em 2024
Para isso, foram necessários mais de 1700 tiros
Entre as vítimas 85 pessoas não portavam arma de fogo
Nesses casos, a PM disparou pelo menos 459 vezes
A política da bala
Gabriel sangrou até a morte após ser baleado pelas costas na beira do Rio Tietê. Marcela foi confundida com assaltante em um posto de gasolina e morreu a 20 dias do casamento. João Victor foi assassinado em casa, enquanto implorava para ver os filhos pela última vez. Michael foi fuzilado com 25 tiros durante um surto psicótico. Tratados como isolados no discurso oficial, esses casos compõem a pilha de 246 mortos deixada pela Polícia Militar na cidade de São Paulo em um ano.
O Metrópoles foi além das estatísticas frias das chamadas “mortes decorrentes de intervenção policial”, analisou documentos referentes a todas as ocorrências registradas em 2024 e descobriu o que os números não dizem: pelo menos 85 vítimas da PM estavam sem arma de fogo e 47 morreram baleadas pelas costas. A conclusão é que dezenas de óbitos poderiam ter sido evitados se não vigorasse a política da bala imposta pelo secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite (PP).
Em uma apuração que durou nove meses, a reportagem teve acesso a processos judiciais referentes a 227 ocorrências que levaram à morte de 246 pessoas. Foram quase 90 mil páginas analisadas para traçar um perfil das vítimas, descobrir quem são os PMs que mais mataram e fazer o que a própria corporação diz ser impossível: contar a quantidade de disparos efetuados pelos policiais nos homicídios. Foram mais de 1,7 mil tiros — ao menos 1 mil disparos em ocorrências em que só a polícia atirou e 459 contra vítimas que estavam sem arma de fogo. Para o cálculo, o Metrópoles usou como base os depoimentos dos próprios PMs envolvidos nas ocorrências, os estojos de munição deflagrados e citados nos laudos do Instituto de Criminalística (IC) e as perfurações corporais de entrada apontadas pelos laudos do Instituto Médico-Legal (IML). A estimativa é, portanto, conservadora.
A partir dos exames necroscópicos das vítimas da PM, a reportagem conseguiu descobrir em que parte do corpo a maioria delas foi atingida. Os 145 laudos anexados aos processos judiciais indicam diversos casos em que os policiais desrespeitaram o protocolo de ação da corporação, que orienta o uso proporcional e progressivo da força: o Método Giraldi, também conhecido como Tiro Defensivo na Proteção da Vida (TDPV).
Adotado em 1993 pela Polícia Militar paulista, o método prevê que o agente de segurança evite o confronto letal sempre que possível e analise a situação antes de recorrer ao uso da arma de fogo. Nos casos analisados pela reportagem, muitas vítimas foram atingidas quando estavam fugindo e não ofereciam mais risco aos agentes de segurança. Esse tipo de situação nunca pareceu incomodar o atual secretário da Segurança, que ascendeu na política exaltando a letalidade policial.
Os 145 laudos necroscópicos analisados mostram que pelo menos 38 pessoas foram baleadas na cabeça ou no pescoço
Pelo menos 47 pessoas foram baleadas pelas costas, incluindo tiros na nuca, nas nádegas e na parte de trás de braços e pernas
Guilherme Derrite é o primeiro policial militar a chegar ao cargo após uma sucessão de ex-membros do Ministério Público e de um general do Exército ocupando o posto. Escolhido por influência da família Bolsonaro, antes de assumir a secretaria, o próprio capitão chegou a admitir que matar demais teria sido o motivo de sua saída da Rota, a tropa de elite da PM paulista. Ele também já disse, em um áudio enviado a colegas, em 2015, que era vergonhoso um policial que não tivesse ao menos três mortes no currículo.
Sob Derrite, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) propagou o discurso linha-dura na tropa, enfraqueceu o controle sobre a ação dos policiais e promoveu operações sangrentas que culminaram na interrupção de uma trajetória de queda na letalidade policial, chegando ao maior saldo de mortes desde 2020.

Essa política, porém, tem seus alvos-padrão. Nela, o CEP em que se está pode definir a diferença entre a vida e a morte. Dois casos que aconteceram em dezembro de 2024, a apenas 6 km de distância um do outro, ilustram essa realidade.
No primeiro, o colombiano Michael Stiven Ramirez Montes, 33 anos, foi morto com 25 tiros dentro de um apartamento na região da Cracolândia, vizinhança pobre no centro da cidade e foco de constante tensão com a PM — ele estava sentado no chão do apartamento esfaqueando um cão da raça bull terrier quando foi morto. No segundo, policiais da Rota renderam, sem efetuar um único tiro, o CAC (sigla para Colecionadores de Armas, Atiradores e Caçadores) Marcelo Berlinck Mariano Costa, 31 anos, que havia feito disparos do alto de uma cobertura em Pinheiros, bairro nobre da zona oeste paulistana, e atirado contra os agentes. Ambos aparentavam estar em surto e portavam drogas.
Veja abaixo a dinâmica de cada um dos casos, que foram reconstituídos pelo Metrópoles a partir dos registros policiais e das imagens das câmeras corporais dos PMs.
24 de dezembro de 2024. A PM é chamada para atender uma ocorrência de suspeita de violência contra criança na rua Aurora. Ao chegar ao local, a equipe descobriu que se trata de um homem ferindo um cachorro com uma faca, em um surto
6 de dezembro de 2024. PMs da Rota são acionados para atender episódio de disparo de arma de fogo, em que um homem havia atirado de uma cobertura, na rua Joaquim Antunes, também em um caso de surto. Ao entrar no prédio, ouvem um tiro de arma de fogo
Agentes tentam convencer o colombiano Michael Stiven Ramirez Montes a soltar a faca. O homem fica sentado no chão do apartamento com o cachorro ensanguentado, a quem segue ferindo
Policiais tentaram dialogar com Marcelo Berlinck Mariano Costa, um colecionador de armas (CAC). Homem chega a autorizar a entrada deles no apartamento, mas realiza novo tiro em direção à porta
Policiais disparam 44 vezes e matam o homem; o cão também é atingido e não é salvo. As câmeras corporais dos policiais registraram os agentes combinando uma versão de que o homem teria feito menção de ir para cima deles
Os PMs da Rota esperam o Gate, grupo especializado nesse tipo de ocorrência. A equipe chega, arromba a porta usando explosivos e consegue imobilizar o suspeito com um cão policial, sem o disparo de nenhum tiro. No apartamento, é achado um arsenal






O caso envolvendo o CAC aconteceu na região do 14º DP (Pinheiros), onde foram registradas três mortes por PMs no ano, em uma única perseguição da Rota a suspeitos de planejarem um assalto. Já o caso da Cracolândia se desenrolou no 3º DP (Campos Elíseos), com um índice cinco vezes maior de ocorrências com mortes por policiais.

A disparidade de casos se repete em outras regiões da cidade. O 89º DP (Morumbi) fica no bairro onde talvez haja a desigualdade social mais visível na capital: um cenário marcado pelas mansões do bairro que dá nome ao distrito e, de outro lado, pelas construções precárias da maior favela da cidade, Paraisópolis. Foi ali que os escrivães registraram mais casos de resistência seguida de morte: 14 no total.
Já a delegacia dos Jardins (78º DP), bairro nobre da capital, não registrou ocorrências do tipo. Em 2017, o então pouco conhecido comandante da Rota citou o bairro onde moram os ricos de São Paulo para defender a diferença de tratamento da PM. “É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá [Jardins]”. A forma de ele [policial] abordar tem que ser diferente”, disse o policial. O nome dele é Ricardo Mello Araújo, atual vice-prefeito da capital.
Navegue pelo mapa de São Paulo com todos os casos
Na etiqueta informal da polícia, há jardins e jardins. E o Jardim Vera Cruz, no extremo da zona leste, definitivamente não é o tipo de lugar onde a PM costuma usar da contenção pregada pelo Método Giraldi. É o típico bairro periférico, formado por sobrados de pintura desgastada ou no tijolo aparente, com mato alto se acumulando nos canteiros.
Esse era o cenário onde policiais do Comando de Operações Especiais (COE) cumpriram um mandado de prisão contra um suspeito de homicídio ocorrido em Santo André, cidade vizinha, na Grande São Paulo. Uma câmera de segurança captou o momento em que sete PMs encapuzados chegaram caminhando em posição de combate às 17h48 do dia 31 de julho. O grupo foi direto para um puxadinho de tijolos vermelhos, onde morava João Victor de Jesus Da Silva, 22. O jovem não tinha relação com o mandado de prisão. Mesmo assim, enquanto dois policiais aguardavam na escada de acesso, tentando impedir a aproximação de pessoas, os outros cinco entraram no imóvel.
O que aconteceu na parte de dentro da casa não foi registrado em vídeo. Mas o microfone da câmera conseguiu captar, entre 17h49 e 17h56, conversas entre os policiais e João Victor, que implorou, por mais de 7 minutos, para não ser morto. “O que eu fiz, senhor? Eu não tenho arma”, disse ele. O rapaz mencionou seus filhos, de 7 e 6 anos. Um policial respondeu: “Fodam-se as crianças”. Na sequência, após um longo diálogo, é possível ouvir um PM gritando “larga a arma”. Para a família, foi uma tentativa de simular um confronto. A versão oficial é que a vítima teria resistido à abordagem e atirado contra os policiais.
Os gritos por misericórdia foram silenciados pelo estrondo dos disparos. Três projéteis de calibre 7.62, capazes de atingir alvos a 800 metros de distância, atravessaram seu tórax instantaneamente. Ele foi levado para o Hospital Sapopemba e, assim que chegou, teve o óbito constatado.
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Procurado pela Justiça por um roubo que teria ocorrido em 2022, João Victor era dependente químico. A situação piorou nos últimos anos, quando aderiu ao uso da droga sintética conhecida como k9. Seu pai, Sergio Antonio da Silva, afirma que, desde então, o rapaz passou a vender os móveis e objetos que tinha em casa para comprar a substância. Quando os PMs do COE chegaram, não havia mais quase nada na casa, de 20 metros quadrados e dois cômodos.

Depois do som dos disparos, a rua foi tomada por uma intensa movimentação de policiais militares. Eles cercaram o acesso dos dois lados, impedindo a passagem da família da vítima e de moradores do bairro. O resgate chegou às 18h38. João Victor foi retirado do local às 18h46, cerca de 50 minutos após os tiros. Ele foi levado em uma maca, totalmente coberto por uma manta térmica de alumínio, diante dos gritos de desespero de amigos, vizinhos e familiares. Para a família, ele estava morto. “Ninguém leva três tiros de fuzil, espera quase uma hora e continua vivo”, diz o pai do jovem.
A prática de retirar cadáveres como se ainda estivessem vivos já foi registrada em vários casos de execução, com objetivo de atrapalhar a realização da perícia no local e encobrir a atuação ilegal da polícia.

Os policiais que mataram João Vitor não usavam câmeras corporais, equipamento contra o qual o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) declarou guerra antes de ser eleito, em 2022. Ignorando estudos que mostram os benefícios das câmeras — não só para proteger suspeitos como também para os próprios policiais —, o então candidato bolsonarista sustentou nas eleições que elas inibiriam o trabalho dos agentes.
Logo no começo da gestão, o governo anunciou que iria rever o uso das câmeras. Houve idas e vindas nas declarações, mas o fato é que o programa sofreu sucessivos cortes. A gestão ainda mudou o modelo dos equipamentos, permitindo que houvesse interrupções nas gravações, e também houve distribuição de câmeras para batalhões que se envolvem menos em confrontos, como os de trânsito. Enquanto isso, diversos grupos da linha de frente da PM, como o próprio COE, mantiveram agentes sem o equipamento nas fardas. De 187 mortes por policiais em serviço na capital, 83 foram realizadas por agentes sem a bodycam.
Derrite também promoveu uma série de mudanças estruturais na PM, movimentando dezenas de coronéis que implementavam, com sucesso, a política de câmeras corporais. Também diminuiu o poder de comandantes de batalhões, centralizando o poder de afastar policiais na cúpula da PM. Assim, seria muito mais difícil que os agentes fossem transferidos por matar demais, por exemplo.

Especialista em segurança pública, a diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, pontua que as câmeras eram apenas uma parte de uma política de contenção da força policial que vinha tendo sucesso após a crise causada por uma ação violenta da PM em Paraisópolis, em 2019 — ela inclui desde o uso de armas não letais até as discussões entre os policiais sobre casos envolvendo mortes.
Carolina diz que, desde o dia um de sua gestão, Derrite faz uso político da polícia e que isso influencia os subordinados. “Se você tem visões mais linhas-duras, que legitimam o uso mais elevado da força, isso impacta a tropa, na ponta da linha”, diz Carolina. “Então, houve uma mudança brutal no perfil da política, que enfraqueceu, eu diria, a melhor política de gestão de uso da força que eu já vi adotada no Brasil.”
Na esteira dessas mudanças, as mortes por PMs na cidade passaram de 148, em 2022, para 246, em 2024, um aumento de 67%. Poucos policiais carregam parte expressiva do peso dessa alta, com o registro de até cinco ocorrências com morte no mesmo ano para cada agente.

Assim que concluiu o estágio prático para ingressar na Polícia Militar, o oficial recém-formado Ian Lopes de Lima precisou de apenas 11 meses para superar a “meta” de três homicídios dita por Derrite no áudio de 2015. No ano passado, entre janeiro e novembro, o tenente matou cinco pessoas em ocorrências na zona sul da capital, o que fez dele o maior matador da corporação em 2024. Isso antes de completar 26 anos.
O desempenho colocou o jovem oficial à frente de outros 21 policiais militares de diferentes patentes que também mataram mais de uma pessoa no último ano. O grupo, que corresponde a apenas 0,07% de todo o efetivo da PM na capital, foi responsável por 21% de todas as mortes de 2024: 52.
Apesar da pouca experiência, o tenente Ian Lopes, como é conhecido, conquistou rapidamente a confiança de seus superiores e, em abril do ano passado, quatro meses após se tornar oficial, já ocupava o posto de comandante noturno do 37º Batalhão Metropolitano, na região do Capão Redondo. A partir das 22h, o efetivo de todas as companhias ficava sob sua responsabilidade.

Foi em abril, na madrugada do dia 12, que ele participou de seu primeiro homicídio. Durante patrulhamento no Jardim Ângela, a vítima, Marcos Aurélio Gomes Ferreira, de 31 anos, teria partido para cima de Ian Lopes com uma barra de ferro, em um aparente surto psicótico. O homem foi baleado nas nádegas, no abdômen e no braço esquerdo. Em depoimento, os PMs disseram que os três disparos foram necessários, porque a arma de munição não letal, o taser, havia ficado na viatura.
Assim como Marcos Aurélio, outras quatro vítimas não atiraram. Enquanto isso, os policiais envolvidos nas ocorrências efetuaram ao menos 47 disparos. Ian Lopes foi o responsável por sete deles — quatro de fuzil calibre 7.62 e três de pistola .40.

Cerca de dois meses depois, em junho, o oficial foi deslocado para o 10º Comando de Policiamento de Área da capital, também na zona sul. Lá, participou diretamente de mais quatro mortes. Duas delas ocorreram durante uma perseguição a um carro furtado na Rodovia dos Imigrantes, em agosto. Segundo os PMs, os três ocupantes desceram do veículo armados, o que teria obrigado a equipe a atirar. Após 11 tiros de pistola e 20 de fuzil, dois morreram.
Em novembro, em outra perseguição, na Avenida Jornalista Roberto Marinho, Ian Lopes e seus colegas abriram fogo contra os suspeitos, que ficaram presos em um engarrafamento e começaram a dar marcha à ré em direção à viatura. Foram 22 tiros, quatro de fuzil calibre 7.62 disparados pelo tenente. Entre as vítimas, estava um menor de idade que teve quatro perfurações corporais. Apesar do grau de letalidade do tenente Ian Lopes, envolvido em cinco mortes em um intervalo de sete meses, não há indícios de que ele tenha sido afastado entre as ocorrências. A SSP afirma que o policial “permaneceu afastado de suas funções até dezembro de 2024 e, atualmente, cumpre estágio supervisionado pela instituição”.
Segundo a pasta, toda ocorrência policial que termina em morte é investigada em um inquérito policial militar (IPM). O afastamento operacional, no entanto, não é automático. Para definir se o PM envolvido deve ser afastado, ele é submetido a uma “avaliação psicológica”. Na Justiça comum, nenhuma das acusações de homicídio contra o tenente Ian Lopes e seus colegas prosperou até o momento. Seis meses após a última ocorrência com homicídio em que o tenente esteve envolvido, os processos seguem em andamento, sem denúncia do Ministério Público de São Paulo (MPSP).
Dos 31.124 PMs que atuam na cidade de São Paulo, apenas 403 mataram em 2024, o que corresponde a 1,29%.
Entre esses 403, 22 mataram mais de uma pessoa no ano.
Juntos, os PMs que mataram mais de uma pessoa em 2024 são responsáveis por 47 das 227 ocorrências com morte no ano, o que equivale a 20,7%.
Ian Lopes matou cinco pessoas em ocorrências na zona sul da capital, o que fez dele o maior matador da corporação em 2024.




O discurso linha-dura na segurança encontra eco em uma população aterrorizada pela violência, que acredita que os homicídios cometidos pela polícia se dão num contexto de uma verdadeira guerra urbana. A dinâmica das mortes, porém, não sustenta essa tese. Considerando todas as ocorrências em que suspeitos foram mortos em 2024, um único PM morreu. Ele foi baleado por engano por colegas de farda. Do outro lado, 187 civis foram mortos por PMs durante o horário de trabalho; as outras 59 mortes foram cometidas por policiais de folga.
Dependente químico, Gabriel Henrique dos Santos, 22, foi uma dessas pessoas. O rapaz costumava zanzar pela região do Canindé, na zona norte, e acabava se envolvendo em pequenas confusões com funcionários de comércios que tentavam enxotá-lo dali. Em uma dessas situações, em um posto de gasolina às margens do Rio Tietê, os PMs mandaram o rapaz circular. Ele voltou momentos depois e atirou uma pedra na direção do estabelecimento e dos PMs. Teve início uma rápida perseguição, e novas pedras foram arremessadas. Uma delas atingiu o braço de um dos policiais. Isso bastou para que os agentes abrissem fogo. Foram cinco tiros. Gabriel foi atingido pelas costas, atrás da coxa, na artéria femoral, e não resistiu.
Avó de Gabriel, a aposentada Marilena Benzatto, 80, ficou sabendo da morte só três dias depois. O cadáver já havia escurecido e pouco lembrava o Gabriel que, alguns anos antes, trabalhava em uma loja do Burger King e parecia ter um futuro todo pela frente. Há dois anos, porém, o vício em drogas o levou para as ruas. Costumava pedir comida em estabelecimentos, mas não caíra no crime, como atesta sua ficha policial em branco.
Pardo e pobre, Gabriel era o alvo-padrão da PM — 68% dos 246 mortos no ano passado eram pardos ou pretos. No caso dele, bastou uma pedra como motivo para apertar o gatilho. Em outros, a justificativa oficial é que a pessoa fez menção de estar armada. Foi esse o caso de outro Gabriel, também pardo e também dependente químico.

Na noite de 3 de novembro, Gabriel Renan da Silva Soares, 26 anos, entrou em um mercadinho da rede Oxxo, com um objetivo definido: furtar sabonete líquido para lavar roupa. Discretamente, com seu casaco de capuz vermelho, ele se dirigiu ao fim da segunda gôndola de produtos e pegou três sachês. Juntos, os produtos subtraídos somavam cerca de R$ 40.
Assim que furtou os sachês, ele começou a correr. Ao passar pela porta do mercadinho, escorregou em um tapete, derrubando os produtos e caindo no chão. Isso chamou a atenção de um cliente que estava de frente para o caixa e é policial militar. O PM Vinícius de Lima Britto, 23 anos, virou-se e imediatamente começou a atirar, mesmo com o suspeito caído e de costas. Foram 11 disparos. Seis atingiram o rapaz, que morreu no local.
Nas imagens das câmeras de segurança, é possível ver que o PM, segundos após os tiros, caminha calmamente em direção ao corpo enquanto mexe no celular. Contando com o fato de que as gravações não seriam divulgadas, ele mentiu em seu depoimento à Polícia Civil. Disse que Gabriel Renan teria feito menção de estar armado, colocando a mão por dentro do casaco e que, antes de atirar, deu ordem para que o rapaz se entregasse. Nada disso aconteceu.
Na polícia desde setembro de 2023, Vinícius Britto ingressou na corporação dois anos após reprovar no exame psicológico para ser policial, em 2021. Em dezembro do ano passado, um mês após matar Gabriel Renan no Oxxo, ele foi preso diante da repercussão do caso e será julgado em júri popular. Ao todo, policiais de folga mataram 59 pessoas no ano passado. Quase sempre, em ocorrências em que foram vítimas ou testemunharam algum crime. O caso de Vinícius é uma exceção. Dos PMS envolvidos em ocorrências com morte em 2024, ele é o único que foi preso.

Menos de um mês antes da ocorrência no Oxxo, outro PM cometeu um erro com consequências brutais. Era madrugada de 6 de outubro, dia do primeiro turno das eleições municipais, quando o motoboy Wilker Michel, 32 anos, e sua noiva Francisca Marcela, 33, pararam para abastecer a moto em um posto no Ipiranga, zona sul da capital. O casal, que morava há menos de um 1 quilômetro do local, na comunidade de Heliópolis, faria uma viagem ao interior do estado, como parte das comemorações de casamento, previsto para ocorrer em 20 dias.

Enquanto calibravam os pneus, eles foram surpreendidos por um grupo de seis criminosos que se aproximaram em três motos e anunciou assalto. Wilker, que estava mais próximo ao veículo, não reagiu. “Pode levar, é sua”, disse o motoboy, enquanto se ajoelhava. Quando os ladrões se preparavam para partir com a moto roubada, um policial à paisana decidiu intervir. “Perdeu, perdeu! É polícia”, gritou o cabo Daniel Lins Ferreira, correndo em direção ao grupo. As vítimas do assalto pediram que o PM não tentasse impedir os bandidos. Ele ignorou. De repente, o cabo se virou e começou a atirar contra o casal.
“Amor, tomei um tiro”, disse Marcela, atingida nas costas. Ela chegou a ser socorrida e levada ao Hospital Heliópolis, mas não resistiu. Depois de balear a vítima do assalto, o policial ainda correu na direção dos criminosos, atirando, e conseguiu acertar dois deles. Pedro Henrique de Oliveira da Silva, de 20 anos, também morreu.
As câmeras de segurança do posto registraram toda a ação. Ainda assim, o cabo da PM decidiu dar à polícia uma versão completamente diferente da realidade. Em depoimento, disse que foi cercado por aproximadamente 10 criminosos e, em uma “agressão iminente”, começou a atirar. Em nenhum momento, o policial menciona que foi ele o responsável por balear Marcela, colocando a culpa pelo homicídio nos criminosos.
No início de 2024, o governador Tarcísio de Freitas demonstrava pouca preocupação com a escalada da letalidade policial em São Paulo. Na Baixada Santista, a PM havia promovido a operação mais sangrenta desde o massacre do Carandiru, com 66 mortos. “Sinceramente, nós temos muita tranquilidade com relação ao que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU, na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí”, disse na ocasião.
No entanto, a avalanche de casos de abuso policial, flagrados por câmeras de celulares de cidadãos ou de fardas de PMs, começava a arranhar a imagem do governo ao longo do segundo semestre do ano passado. Um dos maiores abalos se deu justamente quando a PM descumpriu a regra informal de agir diferente na periferia e nos bairros nobres.
Na noite de 20 de novembro, o estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, 22 anos, voltava de uma festa com amigos da universidade quando encontrou uma viatura da PM pela frente, na Vila Mariana, bairro de classe média da zona sul. O rapaz, desde jovem, era bastante engajado e chegou até a fazer um trabalho no ensino médio alertando para a violência policial. Naquele dia, quando passou pelo carro, bateu a mão no retrovisor e saiu correndo.

Os policiais saíram no encalço do estudante, que fugiu para um hotel onde estava hospedado. Câmeras do estabelecimento registraram o estudante correndo sem camisa escada acima. Um policial aparece em seguida e puxa o jovem pelo braço, com a arma em punho. O jovem consegue se desvencilhar, quando outro policial, o soldado Bruno Carvalho do Prado, aparece e lhe dá um chute. O jovem segura o pé do PM, que se desequilibra e cai para trás. Nesse momento, o parceiro dele aperta o gatilho e acerta um tiro.
A morte de um estudante de medicina desarmado, filho de médicos professores da USP, aumentou exponencialmente o desgaste do governo estadual com os abusos. A gota-d’água foi um episódio que ocorreu duas semanas depois, quando um PM, durante uma batida policial, levanta um homem e o atira de uma ponte. A vítima escapou com vida e gerou uma crise que culminaria na troca do comandante da PM no início deste ano.
Centenas de mortes depois, Tarcísio, pela primeira vez, fez um mea-culpa e admitiu uma crise na segurança pública por causa de “reiterados descumprimentos” de procedimentos que levaram a transgressões disciplinares na PM. “Quando tem esses casos, isso mancha demais a instituição, agride a gente. Aí é hora de ter humildade: tem alguma coisa que não está funcionando”, disse o governador, em dezembro de 2024.
É fim de abril de 2025. A crise de imagem envolvendo o secretário Guilherme Derrite e o abuso policial parece esmaecida. Páginas de batalhões da PM exaltam, em seus perfis nas redes sociais, as ocorrências com tiros e mortes; gravações de PMs forjando execuções viralizam nas redes; e a polícia segue enviando notas à imprensa dizendo que não compactua com desvios de conduta.

Em uma noite de gala, Derrite é bajulado em sua festa de filiação ao PP, com a presença dos políticos de direita do país, incluindo Tarcísio. Após se licenciar do mandato de deputado federal para assumir a Segurança Pública paulista em 2023, ele é tratado como uma estrela em ascensão e favorito para conquistar uma vaga no Senado nas eleições do ano que vem. “Não estamos falando de esquerda ou direita, estamos falando de civilização ou barbárie. Ninguém aguenta mais ser vítima de roubo no Brasil”, diz ele em seu discurso.
Mas, enquanto o secretário planeja seu futuro em 2026, a médica Silvia Acosta, mãe do estudante de medicina Marco Aurélio Acosta, ainda vive o pesadelo de 2024. Em junho de 2025, os policiais que atuaram na ocorrência que terminou com a morte de seu filho foram autorizados a voltar para o patrulhamento nas ruas. De sua casa em uma pacata rua da Vila Mariana, ela clama às autoridades que sua cobrança por Justiça seja ouvida.

A Polícia Militar repetiu ao Metrópoles que “não tolera desvios de conduta” e que, “como demonstração desse compromisso, desde o início da atual gestão, 463 policiais militares foram presos e 318 demitidos ou expulsos”.
Segundo a corporação, todas as mortes por policiais são investigadas com acompanhamento da Corregedoria e do Ministério Público. Além disso, o comunicado afirma que em todos os casos são instauradas comissões para identificar “não-conformidades”.
“A atual gestão investe em formação contínua do efetivo, capacitações práticas e teóricas, e na aquisição de equipamentos de menor potencial ofensivo, como armas de incapacitação neuromuscular, com o objetivo de mitigar a letalidade policial”, diz a nota.
- CEO
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- COORDENAÇÃO
- Érica Montenegro
- EDIÇÃO
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- Renan Porto
- REVISÃO
- Juliana Garcês
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- Ilustração
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- EDIÇÃO DE VÍDEO
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- EDIÇÃO DE FOTOGRAFIA
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- Michael Melo
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- Italo Ridney
- Andre Marques
- Saulo Marques