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Juíza pede diligências sobre vítima da PM que implorou para não morrer

Decisão ocorre após pedido da Defensoria a partir de matéria do Metrópoles. Gravação mostra diálogo entre jovem e PMs antes da execução

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pms porta joão victor 1 (2)
1 de 1 pms porta joão victor 1 (2) - Foto: Reprodução

A Justiça de São Paulo determinou a realização de novas diligências na investigação sobre a execução de João Victor de Jesus da Silva, de 22 anos, que implorou para não morrer antes de ser alvo de três tiros de fuzil, disparados por policiais militares no Jardim Vera Cruz, zona leste da capital, em 31 de julho de 2024. Como revelado pelo Metrópoles, uma câmera de segurança na instalada na parte de fora da casa do jovem captou o diálogo entre ele e os PMs.

“O que eu fiz, senhor? Eu não tenho arma”, disse João Victor. O rapaz mencionou seus filhos, de 7 e 6 anos. Um policial respondeu: “Foda-se as crianças”.

A decisão, da 4ª Vara do Júri, determinando que a Polícia Civil retome pontos da investigação, atendeu a um pedido feito pela Defensoria Pública, citando a reportagem do Metrópoles e cobrando o resultado de uma perícia na gravação, solicitada em maio. O Ministério Público de São Paulo (MPSP) disse que a matéria deveria ser anexada ao processo.

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Escadaria por onde subiram policiais militares
Pai de João Victor, Sergio Antonio
Cômodo em que João Victor foi morto
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Cômodo em que João Victor foi morto

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Escadaria por onde subiram policiais militares
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Pai de João Victor, Sergio Antonio
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Pai de João Victor, Sergio Antonio

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“Quanto à juntada da reportagem jornalística, embora não constitua prova em sentido estrito, pode ser anexada aos autos como elemento de informação, sem prejuízo da análise crítica de seu conteúdo pela autoridade policial e pelo Ministério Público”, disseram os promotores da 2ª Promotoria do IV Júri da capital, em 11 de setembro.

Na solicitação acatada pela Justiça, também constavam pedidos para que seja indicada a localização do aparelho celular de João Victor, apreendido no dia da execução, e para a complementação do laudo de local, que não detalhou a posição exata de onde ocorreram os disparos.

Ouça

“Foda-se as crianças”

João Victor foi abordado em uma operação, realizada no dia 31 de julho do ano passado, para cumprir um mandado de homicídio. Um equipamento de segurança registrou o momento em que sete PMs encapuzados chegaram caminhando em posição de combate na Rua Martins Soares Moreno, às 17h48 daquele dia.

Os policiais foram direto para o puxadinho de tijolos vermelhos onde morava João Victor, que não tinha relação com o mandado de prisão. Mesmo assim, enquanto dois policiais aguardavam na escada de acesso, tentando impedir a aproximação de pessoas, os outros cinco entraram no imóvel.

O que aconteceu na parte de dentro da casa não foi registrado em vídeo. Mas o microfone da câmera conseguiu captar, entre 17h49 e 17h56, conversas entre os policiais e João Victor, que implorou por mais de sete minutos para não ser morto.

“O que eu fiz, senhor? Eu não tenho arma”, disse ele. O rapaz mencionou seus filhos, de 7 e 6 anos. Um policial respondeu: “Foda-se as crianças”.

Na sequência, após um longo diálogo, é possível ouvir um PM gritando “larga a arma”. Para a família, foi uma tentativa de simular um confronto. A versão oficial é que a vítima teria resistido à abordagem e atirado contra os policiais.

Os gritos por misericórdia foram silenciados pelo estrondo dos disparos. Três projéteis de calibre 7.62, capazes de atingir alvos a 800 metros de distância, atravessaram seu tórax instantaneamente. Ele foi levado para o Hospital Sapopemba e, assim que chegou, teve o óbito constatado.

Vício

Procurado pela Justiça por um roubo que teria ocorrido em 2022, João Victor era dependente químico. A situação piorou nos últimos anos, quando aderiu ao uso da droga sintética — conhecida como k9. Seu pai, o caminhoneiro Sergio Antonio da Silva, afirma que, desde então, o rapaz passou a vender os móveis e objetos que tinha em casa para comprar a substância. Quando os PMs do COE chegaram, não havia mais quase nada na casa, de 20 metros quadrados e dois cômodos.

Sergio Antonio da Silva
Sergio Antonio da Silva, pai de João Victor, diz que o filho não tinha arma

“Quando ele era menor, ele deu trabalho, mas, graças a Deus ele saiu dessa vida aí maldita. Só que depois, ele se jogou nas drogas, fazia de 3 a 4 anos que ele estava nessas drogas aí, uma tal de K9. Eu tentava tirar ele, mas não consegui. Infelizmente, eu não consegui tirar ele desse vício”, conta Sergio ao Metrópoles.

Segundo o pai do rapaz, não havia arma alguma com o filho. “Ele era um viciado, não tinha nada de arma na mão. Devido a esse vício, ele vendeu tudo. Vendeu os móveis, vendeu botijão de gás, fogão, geladeira. Saiu vendendo para comprar mais”, afirma Sergio.

A Política da Bala

A morte de João Victor de Jesus da Silva foi uma das 246 cometidas por policiais militares na cidade de São Paulo no ano passado. Conforme revelado pelo Metrópoles na reportagem especial “A Política da Bala”, pelo menos 85 vítimas não tinham arma de fogo e 47 foram baleadas pelas costas ao menos uma vez. Entre todas as ocorrências, apenas um policial foi morto. Ele foi baleado por engano por um colega.

Para atingir a marca de 246 homicídios, 100 a mais do que no ano anterior, a Polícia Militar deu 1.701 tiros — 459 em ocorrências em que as vítimas não tinham arma.

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