PCC: tratados como “líderes” pelo governo não constam em organograma
Organograma elaborado pelo Departamento de Inteligência da Polícia de São Paulo traz 95 nomes de lideranças da maior facção do país
atualizado
Compartilhar notícia

O novo organograma do Primeiro Comando da Capital (PCC) desenvolvido pela Polícia Civil de São Paulo, que parece ser o mais completo dos últimos anos, não menciona diversas figuras apresentadas pelo governo do estado como supostos “líderes” da facção. Com nomes de 95 criminosos, o desenho mostra células até então desconhecidos, mas deixa de fora figuras que, segundo a Secretaria da Segurança (SSP), teriam papel de chefia.
Veja o novo organograma da facção:
Desde o início do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), a pasta fez pelo menos 30 publicações em seu site oficial noticiando ações que levaram a prisões de “líderes” do crime organizado. Nenhum deles é mencionado. Questionada pelo Metrópoles, a SSP não se manifestou até o momento da publicação da reportagem.
Entre os criminosos tratados pelo governo como lideranças do PCC, estão por exemplo os três suspeitos presos apontados como mandantes do assassinato do ex-delegado geral Ruy Ferraz Fontes, em setembro do ano passado: Fernando Alberto Ribeiro Teixeira, Márcio Serapião Pinheiro e Manoel Alberto Ribeiro Teixeira.
No dia da prisão, em 13 de janeiro, o secretário da Segurança, Osvaldo Nico, chegou a dizer que o eles seriam membros da “Sintonia Restrita” do PCC, núcleo diretamente ligado ao chefe máximo da facção, Marco Willians Herbas Camacho.
No documento do Departamento de Inteligência da Polícia Civil (Dipol), outros oito criminosos aparecem no lugar do trio citado por Nico. Entre eles: Andre Luiz Meza Costa, o “Pleiba”; Matheus Gustavo Mello Silva, o “CR7”; e Carlos Alberto Damasio, o “Malboro”.
A tese de que os suspeitos de mandar matar Ruy Ferraz seriam da Sintonia Restrita foi usada pela cúpula da Polícia Civil para refutar outras hipóteses para o assassinato, como a de que o crime estaria relacionado a disputas por contratos na Praia Grande, onde o ex-delegado atuava como secretário da Administração.
Caso Gritzbach
O relatório final da investigação de outro assassinato emblemático ocorrido durante a gestão Tarcísio também foi atribuído a supostos líderes do PCC que não aparecem no organograma. A Polícia Civil concluiu, em março do ano passado, que a morte do corretor Vinícius Gritzbach com 10 tiros de fuzil no Aeroporto de Guarulhos teria sido cometida a mando de Antônio Congorra Castilho, o Cigarreira, e Diego dos Santos Amaral, o Didi.
A conclusão foi questionada dentro da própria força-tarefa que apurava o caso e pelo promotor da Vara do Júri de Guarulhos, Rodrigo Merli, que determinou a instauração de outro inquérito para continuar as investigações.
O entendimento do representante do Ministério Público de São Paulo (MPSP) foi que, ainda que a dupla estivesse envolvida, não teria agido sem o aval e a participação de figuras com posto mais elevado na hierarquia do crime, como Silvio Luiz Ferreira, o Cebola, que inclusive aparece no organograma como sendo integrante da “Sintonia do Progresso” e da “Sintonia Final da Rua”.
De acordo com as próprias investigações que levaram ao indiciamento de Cigarreira, o suspeito seria uma espécie de fornecedor do tráfico, com trânsito no PCC e no Comando Vermelho, abastecendo com drogas algumas das principais comunidades do Rio de Janeiro, mas sem ser membro diretamente de nenhum dos grupos.
Ferrugem
Em novembro do ano passado, a Rota matou Carlos Alves Vieira, conhecido como Ferrugem, com nove tiros de fuzil e pistola em um suposto confronto em Itaquaquecetuba. O suspeito foi apresentado pelo então secretário da Segurança, Guilherme Derrite (PP), como uma importante liderança do PCC.
No entanto, autoridades do Gaeco e da própria Polícia Militar disseram ao Metrópoles, em reservado, não haver evidências de que Carlos Alves exercia papel de chefia na facção.
Na semana passada, o promotor Bruno Grecco Cardoso, da 6ª Promotoria de Justiça de Itaquaquecetuba, afirma que a versão dos policiais militares da Rota que mataram Carlos Alves Vieira, em 28 de novembro, está “em xeque”, diante de informações de que ele era “um cidadão sem antecedentes criminais” e “sem qualquer vínculo com facções criminosas”.
“Os autos revelam contornos de extrema gravidade. O que se iniciou como apuração de morte em intervenção policial transmuta-se, diante de novas informações, em investigação de possível execução sumária de um cidadão sem antecedentes criminais relevantes e sem qualquer vínculo com facções criminosas, conforme aponta a Ouvidoria da Polícia Militar”, disse o promotor.
Bruno Grecco Cardoso acrescenta ainda que “a narrativa dos agentes públicos, que outrora gozava de presunção de legitimidade, encontra-se hoje sob severo xeque. A existência de 9 ferimentos perfurocontundentes, inclusive em regiões dorsais, somada ao evidente embaraço na entrega das imagens das câmeras corporais (COPs), aponta para uma tentativa deliberada de obstar o esclarecimento dos fatos”.
Organograma
O novo organograma do PCC elaborado pelo Dipol foi revelado pelo SBT e confirmado pelo Metrópoles no início da semana, com base em investigação que cruzou dados de prisões, movimentações e estrutura residual da facção.
O novo levantamento policial apontou que a facção continua estruturada com um núcleo de liderança formal, cujo principal nome ainda é o de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. Ele cumpre pena em regime de segurança máxima no sistema penitenciário federal.
A atualização do documento faz parte de uma estratégia das forças policiais para mapear áreas de atuação, relações internas e potenciais desdobramentos de violência nas ruas e presídios.
Abaixo de Marcola na “sintonia final” surgem outros 14 nomes. Alguns estão presos em penitenciárias federais, como Cláudio Barbará da Silva, o Barbará; Almir Rodrigues da Silva, o Nenê do Simeone; Reinaldo Teixeira dos Santos, o Funchal; e Júlio César Guedes de Moraes, o Julinho Carambola.
Entre as novidades trazidas pelo novo esquema, está a existência de uma “Sintonia da Internet e das Redes Sociais”.
A célula é composta pelos presos André Luiz de Souza, o Amin ou Andrezinho, recolhido na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau (SP), condenado a 100 anos e apontado como gerente de Marcola, e também por Eduardo Fernandes Dias, o Ozora.
Essa nova célula, segundo o Dipol, gerencia as comunicações on-line, coordena contatos entre membros por aplicativos, redes sociais e e-mails criptografados.

















