Disputa em padaria famosa nos Jardins tem suspeita de furto milionário

Polícia indiciou pai e filha advogados e herdeiros por desvio de R$ 4,2 milhões em briga na Justiça com familiar por gestão de padaria em SP

atualizado

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1 de 1 galeria-dos-paesjpg-1 - Foto: Ilustração Metrópoles

Sócios da Galeria dos Pães, padaria no Jardim América, bairro nobre na zona oeste de São Paulo, foram indiciados pela Polícia Civil pelo suposto furto de R$ 4,2 milhões e por fraude processual em uma disputa familiar pelo controle do negócio. O valor foi repartido entre dois advogados e dois herdeiros da padaria.

O estabelecimento é famoso e recebeu, inclusive, a visita do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em junho do ano passado, dias antes de ele prestar depoimento ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no processo sobre tentativa de golpe de Estado. A visita foi publicada nas redes sociais.

Segundo o inquérito aberto pelo 78º Distrito Policial, localizado a menos de 80 metros do estabelecimento, os R$ 4,2 milhões foram retirados do caixa e transferidos para o escritório de advocacia de Maria Schaffer Gois, que atuou com o pai, Adolfo Gois, na defesa de herdeiros que detinham 50% das ações da padaria e tentaram, na Justiça, afastar um familiar do negócio.

Os advogados dizem que os valores são relativos aos serviços advocatícios, mas a investigação policial alega que o “montante milionário” está “fora do valor de mercado para honorários”. À polícia, uma das herdeiras disse que fez as transações orientada por Maria Gois, que teria chamado o repasse de “acerto de contas”.

Adolfo Gois, pai da advogada, tem um histórico de casos polêmicos. Ele foi alvo de represália de entidades do direito ao alegar que uma juíza, que julgou uma disputa societária de uma distribuidora farmacêutica, tomou decisões com “afetações hormonais” e “descompassos da menopausa”. O advogado também é réu por injúria relacionada a homofobia contra um conselheiro da seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP).

O inquérito policial corre em segredo de Justiça, mas foi tornado público após o advogado Adolfo Gois solicitar um habeas corpus para ele e para a filha. O pedido foi negado pelo juiz Antonio Balthazar De Matos, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), na última quinta-feira (9/4).


Entenda a disputa

  • A padaria foi fundada pelos irmãos Milton Guedes de Oliveira e Oswaldo Guedes de Oliveira, falecido em 2008. Com a morte, a padaria foi herdada pela viúva Maysa Schoeler Maldonado e dois filhos de um relacionamento anterior.
  • Em junho de 2024, a viúva e os filhos de Oswaldo contrataram o advogado Adolfo Gois para retirar Milton do controle do negócio. Na Justiça, os herdeiros alegaram que o fundador da padaria vendia produtos fora do prazo de validade e teria admitido que cometia sonegação fiscal – em processos judiciais, os familiares acusaram Milton de sonegar R$ 155 milhões.
  • Nos autos, foram apresentadas diversas fotografias que apontavam para a venda de produtos insalubres na padaria. No entanto, a polícia alega que houve fraude processual e as fotos foram manipuladas.
  • Uma das imagens mostra um sanduíche com uma lesma (veja abaixo) que, segundo a peça assinada por Adolfo Gois, foi servida aos clientes. “Se Vossa Excelência se dispuser a inspecionar a sede da Galeria dos Pães verá uma malta incontável de lesmas perambulando pelos balcões da empresa”, escreveu.
  • O inquérito policial, porém, apontou que a imagem era na padaria Dengosa, outra empresa da família. Há ainda uma briga de versões sobre quem comandaria a Dengosa à época. Um funcionário que prestou depoimento disse que era a viúva Maysa. Ela afirmou que administrava a padaria, mas que não tinha autonomia de decisões e esse controle era de Milton.
  • Por decisão judicial, Milton foi afastado do negócio em outubro de 2024. Em novembro, o escritório de advocacia de Maria Schaefer Gois recebeu R$ 4,2 milhões da padaria. O valor foi repartido entre os advogados da viúva e um dos filhos de Oswaldo.
Uma foto de um sanduíche com lesma foi compartilhada no Whatsapp por funcionários. O caso ocorreu na Padaria Dengosa.

Como foi a transação

O dinheiro do caixa da Galeria dos Pães foi enviado ao escritório de advocacia em duas parcelas, segundo a investigação. Em 14 de novembro de 2024, foram pagos R$ 4,1 milhões e quatro dias depois houve outra transação de R$ 160 mil.

Entre os dias 14 e 19 de novembro de 2024, o valor foi repassado para dois herdeiros que entraram na Justiça contra Milton e seus advogados. Cada um recebeu R$ 1 milhão, transferidos em quatro transações diferentes via Pix.

Segundo a delegada Sabrina de Almeida, o retorno do recurso a contas individuais dos advogados e herdeiros evidenciam o furto.

“A devolução de valores nas contas […] deixa óbvio que todos tinham o dolo, intenção consciente e voluntária, de praticar o ilícito criminoso, a saber, a subtração de valores”, afirmou a delegada no inquérito.

Em novembro de 2025, o litígio entre Milton e os sócios foi encerrado por meio de um acordo, mas o caso segue na Justiça pelo indiciamento da polícia, apresentado em dezembro do ano passado. A padaria é administrada por Milton e seus filhos.

Ao Metrópoles Adolfo Gois disse que os valores foram recebidos por honorários advocatícios. O advogado alegou, ainda, que os R$ 2 milhões recebidos por ele e pela filha são de serviços apalavrados, mas não prestados.

Segundo Gois, eles iriam atender os herdeiros em três ações, no entanto, fizeram apenas um negócio. Ele também afirma que funcionários da padaria tem relações próximas com a delegada Sabrina de Almeida, que o indiciou.

Procurada, Maria Schaefer e Maysa Maldonado não responderam à reportagem. A defesa de Milton Oliveira não quis se pronunciar. O espaço segue aberto para manifestações.

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