Ladrão de livros raros diz que recebeu mentoria do PCC na prisão. Ouça
Em áudio analisado pela Polícia Civil, Laéssio Rodrigues de Oliveira Silva diz que conheceu integrante do PCC em 2004 na cadeia
atualizado
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Laéssio Rodrigues de Oliveira Silva, de 53 anos, considerado o maior ladrão de livros raros do país e atualmente preso no Rio de Janeiro, contou em conversa com um colega que recebeu, em meados 2004, uma espécie de “mentoria” do Primeiro Comando da Capital (PCC) durante sua primeira passagem pelo sistema carcerário de São Paulo. Laéssio foi um dos alvos da Operação Marchand, deflagrada na sexta-feira (22/5), e é apontado como o articulador do roubo de 13 obras de arte da Biblioteca Mário de Andrade, em dezembro de 2025.
O diálogo, registrado em uma mensagem de áudio, foi interceptado pela Polícia Civil. As investigações mostram que a amizade na prisão entre Laéssio e seu mentor, identificado como Chacrinha, migrou para os negócios — a ponto de uma familiar de Chacrinha ter se associado a ele em roubos a livros raros pelo território brasileiro.
Ouça o áudio de Laéssio:
No áudio, ao qual o Metrópoles teve acesso, Laéssio admite que, na época em que recebeu o “treinamento”, sequer conhecia o PCC. “Eu conheci o Chacrinha [Julio Cesar de Almeida, outro alvo da Operação Marchand] em 2004. Ele foi o primeiro amigo que eu fiz dentro da cadeia, do comando… Eu não sabia nem o que era PCC quando tirei cadeia. Eu era estudante universitário. Estudava biblioteconomia, minha realidade de vida era completamente outra”, conta.
Laéssio afirma na conversa que se tornou amigo de Chacrinha e de sua família. “Eu nunca vivi essa realidade [de preso] e aí fui passando a conhecer. Porque eu sou um especialista em roubar livro raro. Eu fui conhecendo, aos poucos, a realidade e fazendo amizades. Trabalhei 10 anos com a ex-mulher dele [Chacrinha]”, diz.
Policiais do Corpo Especial de Repressão ao Crime Organizado (1° Cerco), que investiga o roubo à Mário de Andrade, acreditam que Laéssio ainda mantenha contato com Chacrinha — um dos endereços do integrante do PCC foi alvo de busca e apreensão na sexta-feira.
Marido do Rio de Janeiro
Em outro áudio, Laéssio fala de seu marido — Carlos Leandro Ferreira da Silva, outro alvo da Operação Marchand — e da origem no Rio de Janeiro. “O Carioca [Carlos Leandro Ferreira da Silva] mora aqui em São Paulo há 6 anos. Ele não tem mais referência (contato) com o povo da comunidade onde ele nasceu e cresceu. A maioria das pessoas morreu… Porque você sabe, o tráfico, o crime do Rio de Janeiro, é uma coisa sinistra, é muita inimizade, é muita facção, é muita guerra, é muito tiroteio… Então a grande maioria das pessoas da infância dele, da juventude, já morreu tudo”, diz.
Laéssio também afirma, na sequência, que não se envolve em outro tipo de crime. “Eu não me meto com o negócio de tráfico, eu não mexo com isso. Meu negócio é obra de arte, eu vou até te mandar um vídeo aí para você.”
Roubo à Mário de Andrade
Laéssio foi identificado como o mentor intelectual do roubo de 13 obras de arte da Biblioteca Mário de Andrade. As peças roubadas continuam desaparecidas e foram avaliadas em cerca de R$ 1,325 milhão.
A Justiça decretou a prisão temporária de Laéssio, o marido Carlos Leandro — presos pela Polícia Federal em 20 de abril, no Rio de Janeiro, quando tentavam corromper seguranças do Instituto Rui Barbosa — e a bacharel em direito Regiane Rodrigues da Silva, de 43 anos, presa na sexta-feira.
Regiane é apontada como a pessoa que levou dois homens — Gabriel Pereira de Mello, o Gargamel, e Felipe dos Santos Fernandes, o Sujinho,— à Biblioteca Mário de Andrade para fazer o reconhecimento do local e das obras, numa espécie de “visita guiada”. A dupla foi responsável por praticar o roubo. Até agora, apenas Sujinho está preso.
Segundo a polícia, o grupo furtou, no dia 18 de março, livros raros do Clube Português, no Brooklin, zona sul da capital paulista.
Obras roubadas duas vezes pelo mesmo ladrão
O mesmo Laéssio havia furtado obras de arte da Mário de Andrade entre 2004 e 2006 — era o álbum Jazz, do artista francês Henri Matisse, considerado o item mais precioso da coleção da biblioteca. Na época do roubo, a obra foi substituída por uma cópia fajuta.
Em 2012, a obra de arte foi recuperada pela Polícia Federal, que a devolveu à Mário de Andrade. Em dezembro de 2025, no entanto, no roubo atribuído à quadrilha de Laéssio, oito gravuras do álbum Jazz voltaram a ser roubadas — e, até agora, não foram localizadas.
Quem é Laéssio
Laéssio é um velho conhecido da polícia. Em 1998, foi apontado como responsável pelo furto de revistas raras na Fundação Biblioteca Nacional — material avaliado na época em US$ 750 mil.
Nos anos seguintes, Laéssio teria sido também o responsável por furtos em bibliotecas da Universidade de São Paulo (USP), do Museu Nacional e do Palácio do Itamaraty, entre outros. Ele foi tema do documentário Cartas para um ladrão de livros, da Globoplay.












