Internações de usuários triplicaram com cerco policial na Cracolândia
Internações voluntárias de usuários de crack aumentaram 211% e as involuntárias, 174%, no período de dispersão da Cracolândia, em São Paulo

As internações voluntárias e os confinamentos forçados de dependentes químicos triplicaram durante a dispersão da Cracolândia promovida pelo poder público paulista a partir de 2024, na região que abrigava o maior fluxo de usuários de crack na capital.
Ao todo, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) contabiliza 30 mil internações desde a inauguração do Hub de Cuidados com Crack e Outras Drogas, em abril de 2023.
No ano que antecedeu a dispersão, consumada em 2025, as internações involuntárias – com autorização da família ou de um médico – saltaram 174%. Maioria, as voluntárias seguiram a mesma trajetória: alta de 211%. Não há dados comparáveis anteriores à criação do hub.
O aumento se deu em meio a um momento de forte repressão aos usuários de crack nas ruas da antiga Cracolândia, o que culminou no esvaziamento daquela grande aglomeração e no espalhamento de dependentes para outros pontos da cidade, como mostra o Dossiê Cracolândia, reportagem multimídia publicada nesta sexta-feira (19/6) pelo Metrópoles.
Montanha-russa
Dados do governo mostram que as internações voluntárias cresceram de 4.269, em 2023, para 13.274, em 2024, ano anterior à dispersão. No ano seguinte, quando os usuários de crack haviam se espalhado pela cidade, as internações voluntárias caíram a 8.886, variação negativa de 33%. Neste ano, entre janeiro e março, foram registradas 3.175 internações voluntárias.
As internações involuntárias, adotadas apenas em situações excepcionais previstas em lei, seguiram trajetória semelhante: passaram de 168 em 2023 para 460 em 2024, recuaram para 298 em 2025 e somaram 66 nos três primeiros meses de 2026. Os números indicam um forte aumento dos atendimentos em 2024, seguido de desaceleração nos anos seguintes.
Nesse contexto, as internações voluntárias em hospitais municipais saltaram de seis, em 2023, para 618. As involuntárias, de três para 216. Além disso, documentos enviados pela prefeitura ao Ministério Público (MPSP) mostram que o tempo médio de permanência dos dependentes nos equipamentos de saúde também aumentou: as estadias com mais de 30 dias dobraram no período.
Porta de saída
No papel, o período maior teria como objetivo reduzir as recaídas, por meio de etapas que levariam à reinserção na sociedade e contato com a família. Na prática, o que a reportagem ouviu de pacientes e de profissionais da saúde é que o tempo prolongado de internação pouco adianta sem uma política eficaz de porta de saída.
Trabalhadores que atuam diariamente na rua contam que, após receberem alta, os pacientes deixam os hospitais “apenas com um ‘papelzinho’ na mão”, sem uma orientação clara para continuidade do tratamento. “Deu seu tempo, já era, tem que sair”, diz Daniel Nunes, 32 anos, ex-paciente, que sentiu falta de um acompanhamento do seu caso. Quando voltou da internação, ele era chamado de “gordinho”.
Nas ruas, voltou a emagrecer. Na fila de um albergue da cidade, sob olhares da Guarda Civil Metropolitana (GCM) que impedia qualquer um de sentar na calçada para esperar a refeição, ele apelou emocionado à reportagem: “Arruma uma internação pra mim, isso não é vida pra mim não.”
Causas
De acordo com funcionários da saúde em São Paulo, a partir da dispersão, ficou mais difícil achar os dependentes químicos para encaminhá-los para o atendimento, o que explicaria a redução nas internações.
Por outro lado, no período anterior à dispersão, pessoas em situação de rua que frequentavam a Cracolândia já acumulavam anos de repressão e, em muitos casos, procuraram as internações como um meio de descanso.
Na visão da psicóloga Beatris Dotta, integrante do Conselho Regional de Psicologia que atende a população de rua há 12 anos, o enfoque puramente nas internações acaba ignorando um fator bem importante quando os pacientes voltam às ruas: a vida delas continuará lá.
Quando chegam até o final do tratamento, à custa de forte medicação, os pacientes voltam ao mesmo ambiente de antes – sem trabalho, convivendo com pessoas que usam drogas, com vínculos familiares rompidos, em albergues municipais.
“Não adianta tirar aquele sujeito da vida dele, da história dele, do contexto dele, porque [depois] ele vai voltar para a vida real. E, quando ele voltar para a vida real, vai voltar para todos os problemas que alimentam aquela situação”, explica Beatris. Segundo ela, muitas vezes, a aceitação à internação é, na verdade, uma busca por moradia, comida ou um simples banho.
O que diz o poder público
A gestão Tarcísio de Freitas afirmou que “solucionou a histórica cena de uso na região da Rua dos Protestantes, que durante décadas reuniu até 2 mil pessoas no chamado fluxo”.
“A estratégia combina a ampliação da rede de cuidados aos dependentes e a repressão intensa ao tráfico, com prisão de lideranças e asfixia financeira de quadrilhas que atuavam no abastecimento do fluxo. Hoje, o que se observa são grupos pequenos e transitórios, acompanhados por equipes de saúde e assistência com abordagens individualizadas para tratamento e reinserção social”, diz o governo.
O governo afirma ter detido 9.609 pessoas na região desde 2023, com apreensão de 166 armas e 791 quilos de drogas. Segundo a gestão, policiais realizam treinamento para abordagem à população de rua e desvios são investigados.
Também procurada, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que o atendimento aos dependentes é feito por equipes de saúde e assistência social – não pela Guarda Civil Metropolitana –, e eventuais desvios de conduta são investigados.
Sobre os tratamentos, a administração afirmou que são monitorados por órgãos como o Ministério Público.

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