Haitiana que mora no Brasil é impedida de embarcar para a Europa
Ruth Lydie Joseph, estudante haitiana, ficou três dias no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, após ter sido impedida de viajar pela Latam
atualizado
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A estudante haitiana Ruth Lydie Joseph, de 32 anos, passou três dias no Aeroporto Internacional de São Paulo, localizado em Guarulhos, na Grande SP, após ter sido impedida de embarcar para a Europa pela companhia aérea Latam.
O caso está sendo acompanhado pelo Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), que foi ao local nessa quinta-feira (12/3) para avaliar o que estava acontecendo. Chegando lá, a advogada Kathelly Menezes descobriu que Ruth estava desde terça-feira (10/3) sem respostas ou informações, além de estar dormindo no aeroporto.
Kathelly contou ao Metrópoles que levou a estudante para um espaço de acolhimento que existe dentro do aeroporto, onde conseguiu um abrigo para ela.
Segundo a advogada, a equipe do CDHIC descobriu que a Latam – e outras companhias aéreas – possuem funcionários que trabalham por meio de uma empresa terceirizada que fazem uma análise de perfil das pessoas que vão embarcar e abordam essas pessoas enquanto elas ainda estão na fila para despachar a bagagem ou para fazer o check-in.
“Então, eles fazem essa análise de perfil. É uma forma de julgar para ver quais pessoas poderiam pedir refúgio no país de destino. E, com base simplesmente nesse perfil, eles podem dar essa negativa de embarque”, explicou Kathelly.
Ainda de acordo com a advogada, Ruth compreende bem o português, mas, quando fica nervosa ou tímida, não consegue se comunicar muito bem. Ao ser abordada pelo funcionário da companhia, ela não conseguiu se expressar. Ela disse que o colaborador nem chegou a checar a documentação da estudante.
Segundo Kathelly, a haitiana havia passado pela Polícia Federal e estava com o visto da República Tcheca, além de cartas da embaixada e da Universidade da República Tcheca, que tem uma parceria de longos anos com a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) – onde Ruth é aluna do curso de relações internacionais.
A advogada do CDHIC acredita que “aconteceu uma espécie de controle migratório paralelo por parte da companhia aérea, se utilizando de uma empresa terceirizada”.
Xenofobia e racismo
Kathelly diz que a abordagem do funcionário foi totalmente xenofóbica e racista. “Perguntaram por que o português dela não era tão bom, já que ela morava no Brasil há alguns anos. Falaram que ela não tinha o perfil para embarcar, por ser uma mulher negra. Então, por esse motivo, eles impediram o embarque dela”, disse. Ruth disse ter se sentido ameaçada durante a abordagem.
Por meio de nota, a Latam informou que Ruth foi realocada em voo gratuito com conexão em Madri, na Espanha, programado para segunda-feira (16/3). A companhia também disse que acompanha o caso desde o início, mantendo contato direto para viabilizar a solução mais adequada e a remarcação. “A empresa reforça que atua em estrita conformidade com os regulamentos das autoridades nacionais e internacionais”, afirmou.
A viagem da haitiana teria escala em Frankfurt, na Alemanha. “Ontem [quinta-feira], a gente conseguiu falar com a supervisora e ela foi bem clara. Ela falou que existia esse perfil e [que] se a pessoa embarcasse em Frankfurt e pedisse refúgio, o Estado da Alemanha multaria a companhia aérea”, explicou Kathelly.
“Fica esse acontecimento, esse trauma para ela. E também fica o fato de que ela continua sendo impedida de viajar com escala para Frankfurt. No momento de remarcar a passagem dela, em nenhum momento teve a opção de ela fazer escala em Frankfurt. As opções eram Portugal ou Espanha, pelo fato de ela ser uma mulher negra e pelo fato de ela ser uma migrante haitiana”, lamentou a advogada.
Ruth está no Brasil desde 2020, por meio de visto humanitário. Ela tem a documentação brasileira e tem a situação regular, segundo a profissional. A haitiana vai para a República Tcheca para participar de um intercâmbio acadêmico na Philosophical Faculty da University of Hradec Králové até junho deste ano.
