"Esse papo vai dar FBI, mano", diz alvo dos EUA por elo com PCC
Victor Henrique de Oliveira Shimada teve conversa com parceiro de negócios extraída de celular, durante investigação no Brasil

Alvo de sanção dos Estados Unidos por suspeita de integrar uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC), Victor Henrique de Oliveira Shimada demonstrou preocupação no passado com uma possível investigação pelo FBI, a polícia federal norte-americana.
Em 2025, Shimada chegou a ser condenado pela Justiça Federal em um caso envolvendo o furto de R$ 35 milhões de uma conta do Banco Votorantim. O juiz Massimo Palazzolo, da 4ª Vara Criminal Federal de São Paulo, o absolveu dessa acusação e o condenou a 3 anos de prisão por lavagem de dinheiro. Shimada atualmente responde em liberdade ao processo no Brasil.
Os investigadores analisaram conversas extraídas de telefones do réu apreendidos pela Polícia Federal (PF) e concluíram que ele sabia da origem ilícita dos valores transacionados.
Em um trecho do processo, Shimada diz a um parceiro de negócios:
“Esse papo vai dar FBI, mano. Os caras estão investigando pesado. Eu vou mandar pra eles… Hoje o menino tava no advogado. Vou mandar tudo pra segurar. Porque, mano, meus trampos que eu tenho… Tá mano, deu uma travada, meus trampos de wire, minhas coisas lá dos tokens, entendeu? Que eu tiro muito cash porque eu vou colocando na conta. Nas minhas contas é muito dinheiro que entra lá de dólar, entendeu? Só que fica tudo rastreado, fica tudo vinculado”.
Crime transnacional
A sanção americana é resultado de uma apuração feita pelo FBI, pelo Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) e por uma força-tarefa do Departamento de Segurança Interna (DHS) americano. De acordo com o comunicado, Shimada agia como elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais. Ele teria lavado cerca de US$ 30 milhões vindos de ações criminosas em diversas cidades dos Estados Unidos, usando criptomoedas para enviar os recursos ao Brasil.
Na conversa extraída de um dos telefones apreendidos, Victor Shimada cita negócios não só nos Estados Unidos, mas também na Colômbia e no México.
“O que eu soltei pra fora, que eu fui sacando e tal, Colômbia, Estados Unidos, vai voltar tudo. […] Os caras tão numa investigação pesada, mano. Sabe por quê? O que que acontece? A Bitso é mexicana. E ela é envolvida lá no México “inaudível”. Certo? Como eu faço pagamento nos Estados Unidos, troco de USDC. Irmão, o negócio é federal lá com os caras, entendeu? Por isso que eu vim pra cá também. Eu saí um pouco do Brasil, vim aqui ver minhas ordens que tá travada. Vou até o México, se pá, vou falar com os caras lá. […] Os caras já tão rastreando tudo, mano. Seria bom até trocar de wallet, as coisas lá, falar pro teu patrão que os cara vai puxar tudo”.
No caso do furto em que ele foi absolvido, ele teria transferido R$ 35 milhões de uma conta do Banco Votorantim a uma outra, em nome da empresa Victory Trading Intermediação de Negócios, Cobranças e Tecnologia Ltda. (Victory Trading), da qual é sócio. A mesma empresa também foi alvo da sanção do governo de Donald Trump.

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Ver todasSegundo a sentença do juiz, a ação ocorreu por meio de 2.799 transferências feitas em apenas 11 horas. A defesa de Shimada ainda pode recorrer da decisão.
Em janeiro de 2025, Victor Shimada chegou a ser preso por menos de um mês em prisão domiciliar, acusado de desvio de dinheiro no escândalo da Vai de Bet no Corinthians, como mostrou o Metrópoles. Segundo as investigações, a Victory Trading era usada como uma empresa intermediária que fazia parte da teia usada para dificultar o rastreio dos valores.
O que diz a defesa de Victor Shimada
Em nota, a defesa de Victor Shimada afirmou que tomou conhecimento das sanções anunciadas por autoridades norte-americanas na data de ontem (1/7).
“Até o presente momento, não tivemos acesso aos documentos oficiais e aos elementos que fundamentaram a medida, o que impede qualquer manifestação específica sobre seu conteúdo”.
Acrescenta que Shimada “nega veementemente qualquer envolvimento com organização criminosa ou com a prática de lavagem de dinheiro” e que a situação “será analisada com a cautela e a profundidade que o caso exige, após o efetivo acesso aos documentos que embasaram a medida e em conjunto com os profissionais que atuarão perante as autoridades competentes”.
Conclui que, “por ora, qualquer conclusão seria precipitada. A defesa reafirma sua absoluta confiança de que os fatos serão devidamente esclarecidos pelos meios legais adequados”.
Relação com Corinthians
Sem citar nominalmente o Corinthians, o governo americano lembrou que Victor Shimada, dono da Victory Trading, foi preso em janeiro de 2025 pela PF por “lavar dinheiro ilícito de um clube de futebol brasileiro em um esquema fraudulento de patrocínio”. Shimada foi solto duas semanas depois.
Embora a Polícia Civil paulista tenha conduzido o inquérito principal do caso Vai de Bet, a PF e agências internacionais atuam em paralelo devido à infraestrutura transnacional da fraude.
As investigações sobre lavagem de dinheiro no clube paulista tiveram origem na delação de Antônio Vinícius Gritzbach, assassinado em novembro de 2024, no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
A Victory Trading era usada como uma empresa intermediária que fazia parte da teia usada para dificultar o rastreio dos valores.
Segundo o governo americano, a rede de lavagem de dinheiro do PCC operava a partir de dois locais principais: Flórida (EUA) e São Paulo.
Em janeiro de 2026, o FBI prendeu seis membros desse grupo sediado na Flórida por suspeita de lavagem de dinheiro. Essa organização, de acordo com o Departamento do Tesouro dos EUA, era liderada por Victor Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, que também foi alvo da sanção.
“Shimada, que reside em São Paulo, tem sido um elo fundamental entre os agentes do PCC baseados na Flórida e traficantes de drogas estrangeiros”, afirma o Departamento do Tesouro dos EUA.
Relembre o caso Vai de Bet
Em janeiro de 2024, o Corinthians anunciou o patrocínio da empresa de apostas Vai de Bet, no valor de R$ 370 milhões, por três anos. Essa foi uma das primeiras medidas da gestão do ex-presidente corintiano Augusto Melo.
Meses depois, os investigadores descobriram que parte desse valor, cerca de R$ 25 milhões, seria transferido a uma empresa intermediária.
Esse montante percorria uma teia de empresas até chegar a UJ Football, companhia criada para representar atletas e citada por Gritzbach na delação contra o PCC.
Veja quem são os alvos de sanção dos EUA
As sanções aplicadas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos nesta quarta-feira (1º/7) tiveram como alvos:
- Victor Henrique de Oliveira Shimada — sócio de empresa investigada por envolvimento em escândalo no Corinthians. É apontado pelo Departamento do Tesouro como “elo fundamental” com agentes do PCC. Segundo o comunicado do órgão americano, teria lavado mais de US$ 30 milhões em diversas cidades dos Estados Unidos.
- Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira — descrita como “parente” de Shimada e atuaria como uma espécie de “secretária” e “intermediária para a coleta de grandes quantias em dinheiro”. De acordo com o Departamento do Tesouro, ela “fornece serviços logísticos essenciais” para a rede de lavagem de dinheiro.
- Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda.
- Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda.
- Wave Construções Inteligentes Ltda.
- Avenidas Flutuantes Unipessoal Ltda (Portugal).


