Entenda como mandados contra Marcola foram cumpridos dentro de prisão
Alvo de pedido de prisão durante operação contra esquema de lavagem de dinheiro do PCC, Marcola já estava sob custódia em presídio federal
atualizado
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Investigados por um suposto esquema de lavagem de dinheiro do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, e seu irmão, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, já estavam encarcerados quando foram alvos de um mandado de prisão nessa quinta-feira (21/5). A situação levantou dúvidas sobre os procedimentos adotados pelos oficiais de Justiça em casos como esse.
Quando um mandado é expedido contra alguém que já está preso, não há uma “nova captura”, como acontece com os investigados em liberdade. Ao Metrópoles, o advogado criminalista Gabriel Huberman Tyles, mestre em Direito Processual Penal pela PUC-SP, explicou que o oficial vai até a unidade e entrega o novo mandado de prisão ao detento. O documento é registrado no sistema e a direção do presídio comunica o juízo responsável pela custódia.
Na prática, isso significa que o alvo permanece custodiado. Além disso, mesmo que a pena que levou o investigado à prisão chegue ao fim, ele não será liberado. “Por mais que haja o término da pena dele, ele deve ficar preso preventivamente por conta desse novo processo”, afirmou o advogado.
Marcola, apontado como chefe do PCC, e Alejandro, que seria responsável por liderar o esquema de lavagem de dinheiro, também foram alvos de mandados de busca e apreensão domiciliar. No documento, obtido pelo Metrópoles, consta o endereço da Penitenciária Federal de Brasília, onde são mantidos.
Nesse caso, os oficiais de justiça podem ir até a cela dos alvos, vistoriar e apreender pertences autorizados, anotações e outros objetos encontrados em posse dos presos. O auto de apreensão é comunicado ao juiz.
O advogado ainda explicou que, a depender do andamento da investigação e de uma eventual nova condenação, os indivíduos podem passar mais tempo detidos com o acréscimo da outra pena.
Operação contra Deolane e o PCC
Autoridades de São Paulo deflagraram, nessa quinta-feira (21/5), a Operação Vérnix, contra um esquema de lavagem de dinheiro do PCC. A ação é desdobramento de uma investigação iniciada após trocas de bilhetes dentro de uma penitenciária. Segundo documento obtido pelo Metrópoles, as mensagens foram localizadas na caixa de esgoto de uma cela na Penitenciária II “Maurício Henrique Guimarães Pereira”, em Presidente Venceslau.
Os bilhetes foram descobertos em 2019, após dois detentos darem descarga nos papéis durante uma vistoria na cela. Os manuscritos revelaram elementos relacionados à dinâmica interna do PCC, ao tráfico de drogas dentro da penitenciária, à atuação de lideranças do crime organizado e a planos de atentados contra agentes públicos, incluindo um ex-diretor do presídio.
Um dos manuscritos sugeria uma cobrança de Marcola sobre a execução do plano de ataque. O bilhete indicava que “aquela mulher da transportadora” havia fornecido o endereço atualizado de um dos alvos do atentado.
Em busca da “mulher da transportadora”, a Polícia Civil identificou uma empresa de transportes sediada em endereço ao lado do presídio e deflagrou, em 2021, a Operação Lado a Lado. Durante a operação, as autoridades apreenderam um celular e analisaram mais trocas de mensagens de pessoas ligadas à facção. O conteúdo também revelou indícios de repasses financeiros a Deolane Bezerra e apontou estreitos vínculos pessoais e comerciais da influenciadora com um dos gestores fantasmas da transportadora.
Entenda o envolvimento de Deolane Bezerra
- Segundo a investigação, Deolane desempenhava um papel fundamental, ao fornecer uma camada de aparente legalidade para os recursos ilícitos do PCC.
- A projeção pública da influenciadora, além de suas atividades empresariais formais e da movimentação de seu patrimônio, era utilizada para ocultar e dissimular a origem criminosa do dinheiro, dificultando a identificação do vínculo com a facção.
- Deolane, segundo os investigadores, tinha vínculos pessoais e negociais estreitos com um dos “gestores fantasmas” de uma transportadora em Presidente Venceslau. A empresa já havia sido identificada como braço financeiro do PCC em uma operação anterior.
- Os investigadores ainda apontam que a influenciadora apresentou movimentações financeiras expressivas e um fluxo vultoso de dinheiro que não tinha lastro econômico compatível com suas atividades.
- A estrutura envolvia o recebimento de valores de origem não esclarecida por meio de empresas, além da aquisição ou vinculação a bens de alto padrão, como imóveis e veículos de luxo.
A quebra de sigilos revelou um alto fluxo de dinheiro sem lastro compatível, além de movimentações bancárias atípicas, contas utilizadas para passagem de valores e operações com empresas sem capacidade financeira aparente.
As investigações prosseguiram e resultaram na Operação Vérnix. Após pedido da Polícia Civil com apoio do Ministério Público paulista, a Justiça determinou o bloqueio de valores superiores a R$ 327 milhões, além do sequestro de 17 veículos – incluindo modelos de luxo avaliados em mais de R$ 8 milhões – e quatro imóveis ligados aos investigados. Seis prisões preventivas foram decretadas.
Clã Camacho
Além de Deolane Bezerra e Marcola, familiares do líder da facção também foram alvo da operação. Marcola, de dentro de um presídio federal, deu ordens sobre o plano de atentado e comandou o esquema de lavagem de dinheiro por meio da transportadora.
Entenda o papel dos Camacho
- Marco Willians Herbas Camacho (Marcola): preso em uma penitenciária federal, é apontado como líder máximo do PCC e controlador da transportadora envolvida no esquema de lavagem de dinheiro.
- Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior, irmão de Marcola: também detido no sistema federal, exercia controle direto sobre a transportadora e definia percentuais e destinação dos recursos por meio de sua filha. Conforme o relatório, Alejandro exercia liderança central no esquema, mesmo após o encarceramento.
- Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola: filha de Alejandro, atuava como mensageira e gestora indireta da parte do patrimônio correspondente ao pai. Intermediava ordens da cúpula do PCC para os operadores do esquema com a transportadora, indicando contas bancárias, divisões percentuais e valores a serem pagos.
- Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho de Marcola: filho de Alejandro, era beneficiário direto da lavagem de dinheiro. A quebra de sigilo revelou movimentação de cerca de R$ 746 mil em créditos efetivos, dos quais boa parte era proveniente de depósitos em espécie não identificados. Leonardo aparece em conversas como destinatário de repasses determinados pelo pai.
Marcola e Alejandro já estavam detidos em presídios federais. Paloma está foragida e é procurada na Europa. A prisão de Leonardo também não foi confirmada.
Com a operação, as autoridades buscam interromper o fluxo financeiro ilícito, preservar ativos de possível origem criminosa e atingir a estrutura econômica do PCC.







