Empresário “ex-camelô” é acusado de golpe milionário contra advogados
Segundo as denúncias, Maurice Chang Neto contratava advogados para serviços complexos e “desaparecia” sem pagar os profissionais
atualizado
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Conhecido como um “ex-camelô” que usou a experiência no comércio popular da Rua 25 de Março, em São Paulo, para empreender, o empresário Maurice Chang Neto é acusado de uma série de estelionatos contra advogados contratados por suas empresas. Segundo documentos recebidos e analisados pelo Metrópoles, os profissionais trabalhavam por cerca de um mês e não recebiam os pagamentos. No final de maio, o empresário foi condenado à revelia em uma ação trabalhista movida por uma das vítimas.
Em busca de um posicionamento de Chang Neto, a reportagem procurou representantes oficiais do empresário nos sistemas do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) — mas, em vez de porta-vozes, o Metrópoles encontrou outros advogados que disseram ter sido vítimas do “golpe”.
Ao todo, sete profissionais relataram ter sido enganados pelo esquema montado pelo empresário. Um dos escritórios de advocacia contratados por ele cobra R$ 1 milhão em honorários na Justiça. Na condenação mais recente, contra outra vítima, o pedido de indenização foi de R$ 105 mil. Os demais advogados não quiseram informar os valores devidos.
Chang Neto não respondeu às tentativas de contato. O espaço segue aberto para manifestações.
“Golpe do falso cliente”
Sócio e administrador de empresas dos setores financeiro, de turismo, veículos e saúde, Chang Neto chegava até as supostas vítimas por meio de indicações e anúncios de vagas em plataformas de emprego. Nas reuniões com os candidatos, ele oferecia um salário atraente, benefícios como vale-refeição e plano de saúde, além de perspectivas de evolução profissional. O empresário também afirmava ser dono de centenas de empresas de diferentes ramos para ressaltar sua solidez econômica.
O objetivo, segundo os relatos, era fabricar uma narrativa de êxito profissional e compromisso financeiro para induzir os profissionais ao golpe.
“Fiz a primeira diligência, verifiquei que as empresas eram ativas, tinham movimentações sociais e tudo mais. Condiziam com a história que ele tinha contado e com a necessidade de contratação urgente que ele tinha me pedido”, afirmou, em condição de anonimato, um dos advogados ao Metrópoles. Outro profissional ressaltou que uma das empresas apresentava capital social de R$ 10 milhões e que a aparência fidedigna das empresas, inclusive nas redes sociais, era convincente.
Uma vez contratados, os advogados passavam a ter contato direto com Chang Neto e as cobranças começavam. “Aceitei o emprego e, no outro dia, ele já começou a passar demandas. Ele tem uma metodologia que te envolve; ele não possibilita que você consiga pensar muito.” O empresário, segundo as denúncias, pedia urgência nas tarefas, exigia serviços durante a madrugada e constrangia abertamente a equipe, inclusive com xingamentos, palavrões e ameaças de demissão.
Após cerca de um mês de trabalho, os advogados cobravam o pagamento, mas não recebiam os valores. Chang respondia com desculpas e informações falsas. A reportagem teve acesso a uma parte do que os profissionais chamam de “coreografia de evasivas” de Chang para responder às cobranças.
Em trocas de mensagens, o empresário repassava a demanda para um suposto departamento financeiro e argumentava que, por gerir centenas de empresas, estaria ocupado demais. Em uma oportunidade, Chang alegou que efetuou a transferência, mas que o sistema de pagamentos estava fora do ar e, por isso, os depósitos não foram processados. Em outra, chegou a relatar problemas de saúde para justificar a falta de respostas. Os profissionais desacreditam dessa versão.
Mesmo sem os pagamentos, o empresário continuava exigindo tarefas por parte da equipe. Nesse período, teria enviado uma mensagem ameaçando os advogados de desligamento caso não entregassem relatórios diários. Após o período de justificativas, o desfecho era um “silêncio sepulcral” de Chang, que passava a ignorar as cobranças e tentativas de contato dos advogados.
“Estelionato contumaz”
Uma vez integrados à equipe jurídica das empresas de Chang, os advogados passavam a atuar também em demandas e processos particulares do empresário. Em uma das ações, o empresário questionou cerca de R$ 3 mil em cobranças supostamente indevidas da Sabesp. Ele pediu indenização de R$ 8 mil.
Durante o período em que prestavam serviços ao empresário, os advogados atuavam de forma extenuante em processos de alta complexidade técnica e operacional. As vítimas, no entanto, têm dificuldade em compreender os reais interesses por trás do suposto esquema. Para um dos escritórios de advocacia envolvidos, Maurice Chang Neto age como “estelionatário contumaz” e contrata profissionais com a “certeza premeditada” de que não pagará por eles.
As denúncias também apresentam questionamentos sobre a efetividade operacional das empresas em nome de Maurice Chang. A sede de dezenas delas é registrada no mesmo endereço no Brooklyn, zona sul de São Paulo. No local, entretanto, está um imóvel de aparência incompatível com a de uma sede empresarial, sem identificação, com portões trancados e sinais claros de desuso.
Investigações e pedido de prisão
No dia 27 de maio, Maurice Chang Neto foi condenado pela 61ª Vara do Trabalho de São Paulo em uma ação trabalhista movida por uma das vítimas. O advogado solicitou o pagamento de R$ 105 mil em honorários, multas, indenização e outras dívidas trabalhistas. Chang foi condenado à revelia, ou seja, não apresentou sua defesa e não compareceu à audiência.
Outro escritório de advocacia cobra mais de R$ 1 milhão do empresário por dívidas relativas aos honorários advocatícios Os profissionais denunciaram Chang à Polícia Civil da Bahia, pediram o sequestro de bens e a prisão preventiva do empresário. Procurada pela reportagem, a polícia baiana informou que a 16ª Delegacia Territorial (DT/Pituba) instaurou um inquérito policial para apurar as circunstâncias da denúncia. “Oitivas estão sendo realizadas pela unidade e ajudarão na elucidação do caso.”
Em São Paulo, o empresário também é alvo de um inquérito da Polícia Civil. A autoridade policial informou que diligências estão em andamento com o objetivo de esclarecer os fatos e apurar as devidas responsabilidades. O caso é investigado pela Delegacia de Vargem Grande Paulista. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não localizou registros relacionados ao caso.
Outro lado
O Metrópoles tentou contato com Maurice Chang Neto, mas não obteve resposta. O espaço segue aberto para manifestações.