Deputados da causa pet enviam emenda para entidade investigada no Sul
Deputados encaminharam R$ 22 milhões em emendas para organização investigada em Santa Catarina que chegou a ter repasses suspensos

Um repasse específico une parlamentares de São Paulo e do Paraná, para além do uso do antigo cargo de delegado como nome de urna e a militância na causa animal. Os deputados Bruno Lima (Podemos-SP) e Matheus Laiola (União-SP) destinaram mais de R$ 11 milhões, cada, para a Associação Catarinense de Gestão Hospitalar, Conhecimento e Assistência Social (CHC).
Tanto no Paraná, como em São Paulo, as emendas são usadas para viabilizar o Castra+. Programa que percorre cidades dos estados com ambulatórios veterinários móveis para castração e microchipagem de cães e gatos. O Castra + é executado pela CHC, contratada por meio de convênio com o Ministério do Meio Ambiente (MMA).
Além desse programa, a organização tem contratos em diversos governos estaduais e municípios. Em Itapema (SC), cidade ao lado de Itajaí, onde a organização é sediada, os repasses à entidade foram suspensos pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC).
Ao Metrópoles Bruno Lima (à esquerda na foto em destaque) disse que a responsabilidade do contrato é do Ministério do Meio Ambiente e que desconhece as investigações contra as empresas citadas. Já Matheus Laiola (à direita na imagem) afirmou que “não tem conhecimento algum de irregularidades na execução”.
Denúncia contra CHC
A denúncia no TCE-SC aponta uma série de suspeitas de desvio, como uso de contratos para manutenção da sede da entidade e locação de veículos supostamente superfaturados.
A organização também teria usado o contrato com o município para contratar a empresa de consultoria de João Paulo Silva, irmão de Guto Silva, ex-secretário do governador paranaense Ratinho Jr (PSD).
A organização também contratou o escritório de advocacia de Olimpierri Mallmann, que foi até 2025 presidente do PSD de Balneário Camboriú (SC), cidade vizinha à sede da organização social.
Além disso, das duas clínicas contratadas pela CHC para o Castra+, uma é investigada pela Polícia Civil do Paraná por ter soltado cães recém-operados em via pública, e a outra foi alvo de busca e apreensão em operação da Polícia Federal (PF), em maio, contra desvio de emendas para castração no Rio de Janeiro.
Suspeita de pets “fantasmas” em SP
O Metrópoles analisou os microchips de 500 animais atendidos pelo Castra+ em quatro municípios paulistas (Ribeirão Preto, Santana do Parnaíba, Pilar do Sul e Pardinho). Em apenas 61 registros, constam o nome do tutor. Outros 346 não estão registrados no cadastro nacional de animais domésticos (Sinpatinhas) e 93 estão registrados em nome da Clinicão, empresa contratada para os procedimentos.
Entre os casos de cães e gatos que constam como microchipados, mas que não são rastreáveis porque não possuem cadastrados no registro nacional de animais domésticos, está o de um tutor de Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo, registrado na ficha da castração como Samsung A14.
O alegado humano com nome de modelo de celular seria tutor dos cachorros Negão e Fred, mas o número atribuídos aos pets constam como “microchip não registrado” no cadastro do Ministério do Meio Ambiente.
Já em Pardinho, no interior paulista, a cachorra Quiara foi registrada, conforme a ficha escrita à mão, pelo tutor Leonardo, sem sobrenome. O microchip da cadela, porém, está vinculado ao suposto cão Bolsonaro 17, registrado em nome da Clinicão, clínica contratada com recurso de emenda parlamentar.
O que diz a CHC
Em nota enviada ao Metrópoles, a CHC disse que o processo em curso no TCE-SC “não mostrou provas concretas de qualquer irregularidade”.
Sobre as emendas encaminhadas aos programas Castra+, a organização afirmou que “nenhum pagamento acontece” sem que as castrações sejam “feitas, comprovadas e lançadas no sistema Sinpatinhas”. A entidade garantiu que “não há qualquer prejuízo ao erário”.
A CHC também disse que as inconsistências apontadas pela reportagem ocorrem por instabilidades no sistema do Ministério do Meio Ambiente.
A respeito das clínicas contratadas, a entidade disse que “adota critérios rigorosos” e que investigações são insuficientes para não contratar empresas.
“Investigação não é condenação. Até porque existe a possibilidade de as investigadas não serem condenadas”, afirma a organização. Procurado, o Ministério do Meio Ambiente não se manifestou. O espaço segue aberto.

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