Corrida de rua em SP: poluição pode reduzir benefício à saúde? Entenda. Veja vídeo
Corrida de rua ganha cada vez mais praticantes e estudos mostram que é preciso evitar a poluição para que benefícios sejam potencializados
atualizado
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A corrida tem conquistado cada vez mais adeptos, principalmente no pós-pandemia. Movimentar-se é bom, fazer exercícios traz benefícios físicos e mentais, mas é preciso tomar cuidado com a poluição e, se possível, tirar do caminho os trajetos próximos às grandes vias em cidades como São Paulo.
Médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Paulo Saldiva desenvolve e participa há décadas de estudos relacionados à poluição e à prática esportiva. Entre os diversos resultados, o especialista cita a relação direta entre correr por muito tempo próximo a vias com tráfego intenso e o aumento na pressão arterial e nos riscos para o coração.
Funciona como uma espécie de “pedágio” que pode ser pago pelos benefícios que a corrida traz, principalmente nas longas distâncias. Os níveis de poluição no entorno de grandes avenidas costumam ser de 40% a 50% maiores do que em outros pontos da cidade. Daí a necessidade de evitar esses trechos.
Mesmo dentro dos parques, é preciso saber onde correr por longo período com segurança. Um dos trajetos que mais atraem corredores experientes no Parque Ibirapuera, por exemplo, é a trilha que vai próxima à grade, levando a um percurso maior por volta, chegando a quase 6 km, praticamente o dobro da pista interna, de asfalto.
O trajeto é menos monótono e relativamente vazio, entretanto tem seus riscos são maiores por estar mais ao lado das vias com circulação intensa de carros. “Estando muito próximo de um corredor de tráfego, você vai receber uma dose maior [de ar poluído]”, diz Saldiva.
Mesmo no interior dos parques, há locais que podem ser mais adequados por terem vegetação mais densa. “Essas árvores também funcionam como um redutor da poluição, pela umidade e pela barreira mecânica que elas proporcionam”, afirma.
Saldiva diz que a umidade faz com que as partículas de poluição, os gases, sejam “varridos”. “É como se estivesse passando um pano na atmosfera”, afirma.
Mesmo sem a relação direta com a corrida, o Parque Trianon, repleto de árvores e ao lado da poluída Avenida Paulista, é citado pelo professor para exemplificar as diferenças. “Você percebe que tem uma queda muito abrupta da concentração de poluentes, quando você entra no lugar”, afirma. Já no Cemitério do Araçá, próximo ao tráfego intenso da Avenida Dr. Arnaldo, a poluição seria maior, porque não há tanta vegetação.
Ou seja, segundo os estudos, ninguém precisa parar de correr, porque os benefícios são muitos, mas o ideal é escolher o local adequado, principalmente nas longas distâncias, por causa do maior tempo de exposição à poluição.
Riscos
Sobre os malefícios de correr por muito tempo próximo a locais com tráfego intenso, Saldiva afirma que três variáveis precisam ser levadas em consideração: nível de poluição do dia, umidade e temperatura.
O professor da USP explica que tempo seco favorece o aumento da poluição e a perda de líquidos pelo organismo. Daí a necessidade de se hidratar adequadamente durante o exercício.
“Exercício em si, mais o que se respira de poluição, principalmente em provas longas, isso dá tempo de você ter uma inflamação subclínica”, afirma.
Segundo Saldiva, a perda de volume faz com que o sangue tenda a ficar um pouco mais concentrado, associando-se à inflamação, que é comum nos músculos de atletas de longas distâncias e que favorece a coagulação.
“Então, se você perde volume, o sangue fica concentrado e coagula com mais rapidez, a chance é de você fazer um trombo”, afirma.
O médico diz que o coração tem que bombar mais rapidamente o sangue, quando esse tem menor quantidade de água. “Se você tem menos fluidos, tem que fazer circular mais depressa”, diz.
“Então essas mortes que ocorrem em corridas são geralmente por trombose ou arritmia cardíaca. Por isso que a hidratação passou a ser obrigatória”, afirma Saldiva.
Segundo o professor, também há risco para a pressão arterial. “A inalação de poluentes aumenta a pressão arterial, os vasos fecham. O brônquio também fecha. Toda vez que você inala uma substância que é irritante, o pulmão se defende, fechando a via aérea, como se fosse um reflexo”, afirma. “E você tem que respirar através de um tubo mais estreito.”
O professor também diz que dias secos, com umidade entre 20% e 30%, exigem bastante hidratação, porque o ar tem que chegar ao alvéolo com quase 95% de umidade. “Você pode perder uma quantidade muito grande de líquido em dias quentes e secos, não só pela transpiração, pelo exercício, mas também pela respiração”, diz.
Entre corredores
O representante comercial Roberto Santana, 60 anos, pratica a corrida de longa distância e, na última quinta-feira (9/4), durante a retirada do kit da Maratona Internacional de São Paulo, usava até uma máscara facial para evitar o risco de contaminação por vírus e também para minimizar os efeitos da poluição às vésperas da prova.
“Fiz uma meia-maratona na zona leste de São Paulo, em Itaquera, e lá eu senti que a poluição veio a me prejudicar. Na própria avenida, senti aquela queda, a pressão querendo elevar. O gosto do ar poluído, eu me senti muito mal”, afirma Santana.
Bia Lima, 45 anos, é profissional de educação física e evita a poluição da maneira como pode, quando corre. “procuro treinar mais à noite, em locais mais arborizados, como parques. Lugares que vejo que não têm muito fluxo de pessoas e carros, porque isso colabora para trazer mais saúde mental. Quanto menos poluição, menos barulho, menos carro, a gente se sente melhor para correr. É físico e emocional, ao mesmo tempo”, afirma.
O empreendedor Thiago Cristovam da Silva, 33 anos, também já sentiu o que é descrito por Saldiva. “Um ar pesado, um ar denso, que influencia ali na nossa performance durante a corrida. A corrente sanguínea fica mais densa, além da pressão arterial”, afirma “Tênis Trocado”, como também é conhecido, por correr com calçados de cores diferentes entre si.






