Flautista premiado na Europa vive como sem-teto ao redor do monotrilho. Vídeo

Flautista Charles Gonçalves recebeu medalha na Europa, participou de programas de TV, foi criança prodígia e hoje vive como sem-teto

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1 de 1 Imagem mostra o músico Charles da Flauta - Metrópoles - Foto: William Cardoso/Metrópoles

“Não sou mais do que ninguém, não. Mas não deixo de ser o Charles da Flauta que Deus criou. Estou devendo e vou ter que prestar contar.” Quem diz isso é o flautista premiado Charles Gonçalves, 52 anos, que vive nas ruas, ao redor das obras do monotrilho da Linha 17-Ouro, na zona sul de São Paulo.

A vida de Charles já foi esquadrinhada desde a infância em programas de TV e relatos diversos, tanto de quem o conheceu quanto de quem o encontrou pelas ruas.

Primeiro, como talento precoce, que surgiu nos calçadões da região central de São Paulo, nos anos 1980, ao lado do pai e dos irmãos, fazendo música, chegando a receber medalha na Holanda em projeto da Unesco e a vencer o Prêmio Sharp, em 1988.

Depois, como adulto que tenta lidar com o vício em álcool e outras drogas, vivendo ao relento muitas vezes. Foi este que o Metrópoles encontrou durante a semana, por acaso, na Avenida Jornalista Roberto Marinho. Mas nenhum ser humano é só isso.

Charles atribui esse último retorno às ruas aos problemas decorrentes de uma separação conjugal, há dois anos. Não é a primeira recaída nesses mais de 30 anos de drogadição, embora diga que se trata da mais longa. Da flauta, entretanto, nunca se distanciou. Durante o período em que esteve casado, frequentou igreja evangélica e chegou a escrever para os metais de sua congregação. “Era como um segundo ministro de louvor”, diz.

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O músico Charles da Flauta
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Barraca de Charles da Flauta na noite de quarta-feira (25/3), antes de ser removida
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Barraca de Charles da Flauta na noite de quarta-feira (25/3), antes de ser removida

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O flautista diz que a dívida que carrega consigo vem do fato de ter recebido um dom de Deus, a música, que entende como desperdiçado em meio à vida nas ruas de São Paulo. As referências à religião são constantes em sua fala, como se tentasse encontrar uma conexão que vá além da realidade enfrentada diante das vigas de concreto do monotrilho.

“Eu acredito que o meu pulmão é emprestado, entendeu? De Deus. Então, eu sou um cara agradecido a Deus por estar vivo, né? Diante de todas as situações, de tanto preconceito, discriminação, julgamento”, afirma.

Na vida terrena, Charles olha ao redor e se reconhece em outros rostos desgastados, surrados pelo desencanto e ameaçados por abordagens truculentas de agentes públicos. Para o flautista, o metal que dá nome à Linha 17, ouro, não está nos trilhos, vergalhões ou modernas estações por onde milhares devem passar apressados nos próximos dias. “Tem muito ouro aqui perdido e estão todos como eu. Não acreditam mais.”

Garimpo

Charles foi encontrado ao acaso, depois que muitos usuários de crack com quem a reportagem conversou, para saber da vida sob o monotrilho, terem dito que havia por ali um flautista premiado, que tinha um irmão gêmeo, ambos vivendo na Roberto Marinho. O músico teria se apresentado até em programas como Fantástico, Domingão do Faustão e Altas Horas no passado. Na rua, brilhava entre os desvalidos.

Durante uma conversa com operários da Linha 17, já no início da noite de quarta (25/3), alguns disseram que, entre os usuários, havia gente muito talentosa de fato. E citaram o flautista. Mas onde ele estaria, que não havia aparecido ao longo de uma tarde inteira de caminhada sob sol e chuva? “Ali, naquela barraca”, disse um, apontando para a parede do viaduto ao lado da futura Estação Vereador José Diniz.

Charles estava lá, foi gentil e pediu que a reportagem voltasse no dia seguinte, porque não se sentia muito bem. No início da tarde de quinta (26/3), a barraca já tinha sido levada pelo rapa da prefeitura e as nuvens carregadas prenunciavam um alerta severo. Mas o flautista não arredou pé, com o fone que usa como uma espécie de tiara para prender os cabelos. Para o Metrópoles, tocou “O Saci na Flauta“.

Alunos e mestres

Ele tinha acabado de dar aulas, em meio à rua mesmo, para um aluno engenheiro agrônomo que o procura, independentemente da condição do professor. O aprendiz deu até uma flauta nova para Charles, depois que a anterior foi roubada na semana retrasada.

O flautista é mestre entre doutores. Outro aluno é psiquiatra e guarda um cavaquinho que Charles não quer perder de jeito nenhum. Muita gente busca aprender com ele, e isso desde que reluziu como talento da música, em um veio de preciosidades de onde vem o choro. Já participou de saraus com jornalistas, se apresentou para jogadores de futebol e artistas. Circulou entre famosos e empresários, mas também teve problemas com a Justiça, já superados, que o levaram à prisão na primeira década dos anos 2000.

Charles tem canal no Youtube, dois discos gravados e participação em outros 20 ou 30, como relata. Já tocou com Dominguinhos, Beth Carvalho, grupo Redenção, entre outros. Um de seus objetivos é conseguir gravar um terceiro volume de “Clássicos em Choro”, dando sequência ao trabalho de quem considera seu mestre, Altamiro Carrilho.

“Andei tirando Paganini, outras coisas avançadas, atualizadas. Para representar o mestre, né? A vida de músico não é fácil, não. Acha que é só levar a vida na flauta? Não é, não”, diz. Em outro momento, lamenta, dizendo que jogou 42 dos seus 52 anos na lata do lixo. “Essa é a minha decepção.”

Talento familiar

Durante a conversa em meio ao temporal, um grupo de usuários se protegeu sob o viaduto da Vereador José Diniz, após uma abordagem de guardas a algumas quadras dali, uma constante na vida de quem está na rua. Agentes de saúde também surgiram. Reinaldo, o irmão gêmeo de Charles, apareceu. Ele é violonista, também vive na rua e preferiu manter a discrição. “A gente fica assim numa ironia ‘next station, dois irmãos’. É porque a gente está aqui há muito tempo, né?”, diz o flautista, criando uma versão própria da gravação que vem sendo testada junto a outros sistemas do monotrilho.

Os pais de Charles já morreram e, além de Reinaldo, ele tem outro irmão, também músico, que toca cavaco, integrando os Demônios da Garoa. Também tem dois filhos biológicos, além de afilhados.

Qual é a “next station”

Questionado sobre o motivo de não aceitar a ajuda de órgãos públicos, Charles diz que as questões que o afligem vão além do lugar onde está. Então, não gostaria de ser colocado e esquecido em uma clínica ou algo do tipo, por exemplo. Sobre o crack, afirma que consome segundo a lógica da redução de danos. Já a bebida é ainda mais presente.

A história de vida dos irmãos terá mais uma “next station”, no que depender de sua vontade. Charles faz um apelo e espera que a flauta que carrega consigo, em meio às inúmeras recaídas, o devolva para um lugar seguro, no caminho inverso de uma fábula que assombra crianças e adultos desde Hamelin, dos Irmãos Grimm, na Idade Média, com promessas descumpridas e alegria que desaparece da vida na cidade.

“Misericórdia. Eu visto a sandália da humildade e peço ajuda, patrocínio e apoio para poder produzir”, afirma, dirigindo-se a produtores, músicos autorais e quem possa investir no seu talento.

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